A Medalha da Discórdia. A homenagem de Jango, o expurgo de Castelo Branco

Por Henrique Pinheiro  –  Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado,
Brasília, 1964.
A fotografia registra o presidente João Goulart condecorando meu pai, João Pinheiro Neto, com a Ordem do Mérito Naval.
Não era apenas uma solenidade.
Meu pai presidia a SUPRA, Superintendência de Política Agrária, órgão responsável pela política agrária do governo, algo próximo, guardadas as diferenças, de um Ministério da Reforma Agrária.
E, a reforma agrária havia se tornado o ponto mais explosivo das Reformas de Base.
Jango precisava do Congresso para alterar a Constituição de 1946 e permitir que as desapropriações fossem indenizadas com títulos da dívida pública, e não previamente em dinheiro.
Os votos necessários não estavam garantidos.
A ampliação das Reformas de Base, incluindo a reforma urbana, aumentava as resistências e aprofundava o afastamento do PSD, fundamental para a maioria parlamentar.
Foi nesse ambiente que Jango condecorou João Pinheiro Neto.
O presidente colocava uma das mais importantes honrarias da Marinha no peito do homem que personificava sua reforma agrária.
A medalha acirrou ainda mais os ânimos.
Para os aliados, era uma demonstração de confiança. Para os adversários, um sinal de que Jango não recuaria.
Pouco depois, em 13 de março, viria o Decreto da SUPRA. Dezoito dias mais tarde, o golpe.
Meu pai seria cassado e preso.
E, a medalha teria um último capítulo.
Em 7 de julho de 1964, Castelo Branco assinou decreto excluindo João Pinheiro Neto da Ordem do Mérito Naval. Na mesma relação estavam Celso Furtado e Darcy Ribeiro.
A homenagem também seria atingida pelo expurgo.
Tentaram retirar de João Pinheiro Neto não apenas o reconhecimento oficial, mas também a própria condecoração.
Não conseguiram.
A medalha permaneceu. Tentaram apagar a homenagem. Não conseguiram apagar a história.
Foto: João Goulart condecora João Pinheiro Neto com a Ordem do Mérito Naval.
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