Dedicatórias

Um amigo, grande poeta, lançou livro e teve a honra de contar com a presença ilustre de Millôr Fernandes(foto).

Tascou lá:

“Ao Millôr, com quem muito aprendi”.

O genial humorista, cartunista, escritor, pensador, tradutor e dramaturgo leu a dedicatória ali mesmo e comentou:

– Não aprendeu não.

O poeta ficou a noite toda com a pulga atrás da orelha. Não sossegou enquanto não tirou satisfação:

– Desculpe, mas o que você quis dizer com “Não aprendeu não?”.

E Millôr, sorrindo:

– Quis dizer que não tenho o que ensiná-lo, pois não sou poeta. Você, sim, é poeta e dos bons!

Ufa! Que alívio.

***

     O cartunista Jaguar lançou um livro de crônicas, “Confesso que bebi”, e fez lançamento no bar Bracarense, no Rio de Janeiro.

Para não encarar a fila de autógrafos, o ator Otávio Augusto comprou o seu exemplar, encostou-se ao balcão, pediu um chope e uma caneta, e ele mesmo resolveu o assunto:

“Ao grande ator Otávio Augusto, com um abraço do Jaguar”.

No fim da noite mostrou ao autor.

– Como você sabia que eu ia escrever exatamente isto? – perguntou Jaguar.

– Simples: tenho mais de cem dedicatórias iguais a essa em casa…

***

     Tá lá na folha de rosto do livro de contos, crônicas e poemas do escritor e compositor Aldir Blanc, “Um cara bacana na 19ª” (Editora Record), lançado ainda no século passado:

“Pro Pimentel, amigo mesmo, desde os tempos do Dreher com o Paulo Emílio…”

Eu estava com amigos no bar da livraria, todos mais dois lá do que pra cá (como no bolero do autor), quando um folheou o volume e estancou na dedicatória:

– O que quer dizer Dreher?

– Um conhaque.

– E Paulo Emílio?!

– Um poeta e letrista da MPB, amigo nosso.

Deu um gole profundo e sentenciou, aparentemente sério:

– Nada como um autógrafo para revelar a natureza de um livro.

Todos se entreolharam. Ninguém entendeu nem comentou nada.

***

     Conhecido meu foi à noite de autógrafos do escritor famoso e ficou intrigadíssimo com a dedicatória:

“Ao fulano, a respeito de quem não resta a menor dúvida!”

Muitos anos se passaram, mas até hoje ele abre o livro, sozinho, reler aquilo e se pergunta:

“Que diabo ele quis dizer?!”

***

     Uma vez fui autografar exemplares de um livro infantojuvenil chamado “O bravo soldado meu avô” em um colégio.

O garotinho na fila perguntou:

– Pode dedicar pra mim e pro meu avô?

– Claro. Como é o seu nome.

– Thiago, com h.

– E o dele?

– Vovô!

 

 

  • Related Posts

    Mestre Zu, a doçura mais gentil que conheci

    Há pessoas que a gente fotografa com os olhos. Mestre Zu era uma delas. Zuenir Ventura chegava sem fazer barulho. Um sorriso discreto. O olhar atento. A palavra sempre pronta,…

    Leia mais

    Religiões

    A extrema direita usava o slogan: Deus pátria e família. Deus, faz parte da fé religiosa de todas religiões e no Brasil as religiões têm total liberdade de professar sua…

    Leia mais

    O que você perdeu

    Charge do Dia

    Charge do Dia

    Mestre Zu, a doçura mais gentil que conheci

    Mestre Zu, a doçura mais gentil que conheci

    Simpósio Online 161, no XI Congresso de Direitos Humanos em Coimbra

    Simpósio Online 161, no XI Congresso de Direitos Humanos em Coimbra

    Leilões de relógios e joias reúnem peças de marcas reconhecidas e itens para colecionadores

    Leilões de relógios e joias reúnem peças de marcas reconhecidas e itens para colecionadores

    Religiões

    Religiões

    Charge do Dia

    Charge do Dia