Tiradentes e a corda que arrebenta do lado mais fraco

 Por Henrique Pinheiro  –  Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”  – Colunista convidado.
     A Inconfidência Mineira não nasceu de um ideal abstrato de liberdade, mas de uma crise econômica concreta.
     Minas Gerais já não era mais a terra do ouro fácil. As jazidas superficiais tinham sido exploradas ao limite, a produção caía e o custo de extração subia.
      A riqueza que sustentou o ciclo minerador começava a desaparecer.
      A Coroa portuguesa, no entanto, não ajustou sua cobrança. Manteve a meta de arrecadação como se a abundância ainda existisse.
      E quando o ouro não aparecia, vinha a ameaça da “derrama”.
      Não era apenas um imposto. Era a expropriação direta. Casas, terras, bens.
       O Estado cobrava o que a economia já não entregava. É nesse ambiente que surge a conspiração.
       Mas é preciso desfazer um mito conveniente. Tiradentes não criou a Inconfidência.
      Ele não era o cérebro do movimento, nem seu principal articulador. Era um alferes, sem fortuna, sem grande influência política.
      O núcleo da conspiração era formado por magistrados, padres, proprietários de terra e intelectuais. A elite local. Sem essa elite, não haveria sequer conversa sobre ruptura.
     O que Tiradentes fez foi outra coisa. Ele acreditou. Foi um dos mais entusiasmados, dos mais ativos, dos que mais circularam e falaram. Enquanto muitos calculavam riscos, ele avançava na ideia.
      E o que eles queriam afinal “Separação de Portugal”.Uma independência regional, não um projeto de Brasil.
      Alívio da pressão fiscal que sufocava a economia local. A motivação imediata era clara. Imposto. Derrama. Sobrevivência econômica.
     Não se falava em ruptura social profunda. Não havia um projeto consistente de abolição da escravidão. Não era uma revolução social.
       Era uma reação de uma elite pressionada por um sistema que já não funcionava. E então vem o ponto central.
      Quando a conspiração é descoberta, a Coroa precisa reagir. Não apenas punir, mas dar exemplo. E aí aparece a lógica do poder. Tiradentes foi o único executado, em 1792.
     Os outros não. As penas de morte foram trocadas por outras punições. Vieram o exílio forçado, a prisão. Muitos foram poupados. Alguns, inclusive, posteriormente anistiados pela rainha Maria I de Portugal.
   Porque eram socialmente relevantes.             Tinham patrimônio, relações, influência. Porque destruir essa elite significaria desorganizar a própria engrenagem colonial.
      A Coroa não quis desmontar o sistema. Quis preservá-lo. E, para preservar, escolheu sacrificar. A corda arrebenta sempre do lado mais fraco.       Tiradentes não foi executado por ser o mais perigoso. Foi executado por ser o mais vulnerável.
      Não tinha proteção, não tinha peso político, não tinha o que negociar. Era o nome ideal para virar exemplo. E virou. Com o tempo, a República o transformou em mártir.
      A figura foi reconstruída, elevada, quase santificada. Mas por trás do símbolo existe um dado mais duro e mais incômodo.
      Tiradentes morreu não apenas pelo que fez. Morreu pelo lugar que ocupava na hierarquia. E talvez seja essa a leitura mais atual.
     A Inconfidência não foi uma revolução popular. Mas a sua repressão revelou, com clareza, como o poder escolhe quem paga a conta.
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