Em “Chico Vartulli Convida” um bate-papo com a bióloga Daniela Cordeiro

Fui conversar com a bióloga, educadora, escritora e palestrante, Daniela Cordeiro de Almeida Lemos  que transita por diferentes caminhos, unindo Educação, Ciência, sensibilidade e movimento. Confira!

JP –  Olá, Daniela. Como você consegue administrar todas essas tarefas?

Confesso que, às vezes, também me faço essa pergunta! (risos) Acho que o segredo está em organizar o tempo, estabelecer prioridades e, principalmente, gostar do que faço. Sou uma pessoa inquieta, estou sempre envolvida com novos projetos e tenho dificuldade de ficar parada.
A Biologia, a Educação, a escrita e as palestras parecem atividades diferentes, mas, para mim, elas se encontram em um mesmo ponto: o desejo de aprender, compartilhar conhecimento e, de alguma forma, tocar pessoas. Quando aquilo que fazemos tem propósito, encontramos espaço até onde parecia não caber mais nada.

JP – Qual a sua visão, como educadora, do ensino no Brasil?

A Educação vem trilhando caminhos áridos. Entre tantos desafios, percebo uma fragilização da parceria entre escola e família, que considero fundamental no processo educativo. Muitas vezes, deixamos momentaneamente o lugar de professores para sermos ouvintes de vozes tão perdidas, que buscam apoio, colo, atenção e pertencimento.
E isso me leva a uma pergunta que considero essencial: o que vem a ser, de fato, a Educação?
Educar não pode ser apenas transmitir conteúdos, cumprir currículos ou preparar para avaliações. Educação é formação humana. É conhecimento, claro, mas também é escuta, limite, responsabilidade, autonomia e afeto. Escola e família possuem papéis diferentes, mas precisam caminhar juntas na formação de nossos jovens.

JP – Como foi sua escolha pela Biologia?

A Biologia surgiu quase por acaso. Na verdade, meu desejo inicial era cursar Medicina Veterinária, mas, na época, não passei no vestibular por apenas um ponto. Foi então que comecei o curso de Ciências na PUC Minas e, aos poucos, fui me encantando por aquele universo.
A vontade de ser veterinária foi ficando para trás, enquanto crescia em mim o desejo de trabalhar com Educação, especialmente com as disciplinas de Biologia e Química.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquele único ponto que me separou de uma escolha acabou me aproximando do caminho que realmente faria parte da minha história. Às vezes, a vida simplesmente recalcula a nossa rota — e nos surpreende com o destino.

JP – Entre tantas tarefas, com qual você mais se identifica?

Difícil responder… Tudo o que faço, faço com entrega, paixão e emoção. Não consigo separar completamente a educadora, a bióloga, a escritora ou a palestrante, porque todas elas fazem parte de quem sou.
Mas acredito que a Educação seja o fio que costura todas essas facetas. Ela norteia minhas escolhas, inspira minha escrita, atravessa minhas palestras e me faz observar o mundo com um olhar sempre curioso.
A Educação me inspira a todo momento. Até quando estou correndo! Muitas ideias surgem entre uma passada e outra. Talvez porque, para mim, educar também seja isso: estar em movimento, observar, aprender e transformar aquilo que vivemos em algo que possa alcançar o outro.

JP – Com este mundo de Internet, você tem percebido muitas mudanças nos jovens?

A Internet é encantadora! E talvez aí esteja justamente o nosso grande desafio. Na Educação, precisamos dialogar com algo que gera prazer, desperta curiosidade e sabe mexer com as emoções de maneira muito eficiente.
A geração do século XXI já nasceu interagindo e vivendo também no ambiente virtual. Para esses jovens, não existe uma separação tão nítida entre o mundo conectado e o mundo real como existia para as gerações anteriores. Por isso, acredito que todos nós ainda temos muito a aprender sobre como transitar com equilíbrio entre o virtual e o real.
E a Inteligência Artificial acrescentou um novo capítulo a essa história. Durante muito tempo, a escola valorizou quem sabia responder. Hoje, talvez precisemos ensinar nossos jovens também a saber perguntar. Afinal, diante da IA, construir uma boa pergunta, elaborar um bom prompt, exige conhecimento, pensamento crítico, criatividade e intenção.
A tecnologia pode nos oferecer inúmeras respostas. O grande desafio da Educação será formar pessoas capazes de fazer boas perguntas — e de pensar sobre as respostas que recebem.

JP – A que tipo de palestra você se dedica?

Adoro falar sobre Neurociência e Educação. Vejo um casamento perfeito entre elas, porque compreender um pouco mais sobre como o cérebro aprende nos ajuda também a repensar a maneira como ensinamos.
A partir desse encontro, surgem temas que fazem parte do meu cotidiano e dos meus estudos, como inclusão, TDAH, aprendizagem e as tantas diversidades que encontramos na vida.
Gosto de palestras que provoquem reflexão, mas que também conversem com a realidade. Mais do que apresentar conceitos, gosto de despertar perguntas e mostrar que, quando compreendemos que cada pessoa aprende, sente e percebe o mundo de maneira singular, nosso olhar sobre a Educação também se transforma.

JP – E a sensibilidade, como você a define em seu ponto de vista?

A sensibilidade floresceu de maneira inesperada. Tudo começou com a provocação de um amigo, que me pediu um texto poético. Até então, minha escrita transitava muito mais pelo universo acadêmico e educacional.
Aceitei o desafio e descobri uma nova forma de me expressar. Descobri a escrita como uma dança: às vezes conduzida pelas palavras, outras vezes pelas emoções. Aos poucos, fui deixando a rigidez da escrita acadêmica um pouco de lado e me permitindo brincar com versos, sentimentos e imagens.
Hoje percebo que a sensibilidade sempre esteve presente em mim; talvez apenas faltasse espaço para que ela se transformasse em palavras. E escrever passou a ser também uma maneira de olhar para a vida, perceber suas delicadezas e compartilhar aquilo que, muitas vezes, sentimos, mas não conseguimos dizer.

JP – Qual é o seu hobby favorito?

Atualmente, tem sido a corrida. É o momento em que consigo me desligar dos problemas, organizar os pensamentos e simplesmente seguir em frente, uma passada de cada vez.
Mais do que uma atividade física, correr se tornou um encontro comigo mesma. É um espaço de silêncio, liberdade e, curiosamente, também de inspiração. Muitas ideias surgem enquanto corro.
Talvez seja por isso que gosto tanto: enquanto o corpo percorre caminhos, a mente também encontra novas rotas.

JP – Quais são seus projetos futuros?

Um dos meus principais projetos é concluir o mestrado e continuar aprofundando meus estudos em Neurociência, Psicologia e Comportamento. Quero transformar cada vez mais esse conhecimento em práticas que possam contribuir para a Educação, especialmente no acompanhamento dos estudantes de inclusão.
Quero continuar escrevendo, palestrando, aprendendo e compartilhando aquilo que aprendo. Não tenho a pretensão de saber exatamente quais serão os próximos caminhos, porque aprendi que a vida também gosta de recalcular nossas rotas.
E, claro, pretendo correr cada vez mais! (risos) Afinal, ainda existem muitos caminhos para percorrer — dentro e fora da Educação.

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