×

Contagem regressiva: “Se aquela mulher vier na nossa direção, o senhor é um homem morto”

Contagem regressiva: “Se aquela mulher vier na nossa direção, o senhor é um homem morto”

 Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza”Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Petrópolis e Rio de Janeiro, 3 e 4 de abril de 1964.

Quando os militares chegaram para prender meu pai no seu esconderijo em Petrópolis, Leda, minha mãe, perguntou:
“Os senhores têm ideia de para onde estão levando meu marido e a título de quê?”
A resposta foi seca:
“Olhe, minha senhora, a título de quê não sabemos. Militar cumpre ordens sem perguntar.”
Disseram que o destino provavelmente seria o Ministério da Guerra ou o Comando do Estado-Maior do Primeiro Exército, chefiado pelo general Vasconcelos Torres.
Meu pai, então, pediu um minuto ao delegado. Puxou Leda para um canto escondido da casa e falou baixinho:
“Vamos combinar o seguinte: você vai dirigindo o fusca atrás do carro dos oficiais, o que está me levando, para saber qual será o meu paradeiro. Certo?”
Era a única maneira de tentar descobrir para onde o levariam.
Minha mãe tentou seguir o comboio, mas, sozinha no fusca, perdeu os carros antes da descida da serra de Petrópolis. Voltou para casa desolada.
Meu pai foi levado para o Comando do Estado-Maior do Primeiro Exército. Lá encontrou o general Vasconcelos Torres, amigo da família. O general recordou que seu pai, Alberto Torres, e meu bisavô João Pinheiro haviam ajudado a fundar a República que, segundo ele, a “canalha comunista” pretendia destruir.
Meu pai compreendeu que qualquer discussão seria inútil.
O general então anunciou:
“O senhor vai para o Forte de Copacabana.”
No Forte, dividiu uma cela com o major Fonseca Hermes, até poucos dias antes integrante do Gabinete Militar de Jango.

 Ao ler o jornal que o coronel Montanha, gentilmente, lhe cedera, encontrou a primeira lista de cassações. Entre os nomes estavam Abelardo Jurema, Expedito Machado, o brigadeiro Francisco Teixeira e o dele próprio. Era o Ato Institucional nº 1, o AI-1.
A promessa de que tudo terminaria em quinze dias começava a desmoronar.
Na manhã seguinte, um oficial entrou na cela:
“Seu Pinheiro, arrume a mala. Vamos partir.”
“Que mala? Os senhores não me deixaram trazer nada. Sequer uma escova de dentes.”
Foi colocado num carro preto, escoltado por militares armados. No caminho, um automóvel surgiu em alta velocidade. Os militares imaginaram uma tentativa de resgate.
Um deles apontou o revólver e ordenou:
“Não se mexa! Se aquela mulher vier na nossa direção, o senhor é homem morto!”
O carro passou sem sequer perceber a escolta. Os militares aceleraram e o alcançaram.
Meu pai reconheceu a motorista. Era Carmem Verônica, uma das vedetes mais conhecidas da época.
O susto terminou em constrangimento.
Mas, a viagem continuou. Na Praça XV, embarcaram numa lancha. O destino era a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói.
Ao chegar, meu pai encontrou tropas armadas e o comandante, coronel Tíndaro Gouveia do Amaral.
A prisão entrava em uma nova fase.
 Essas histórias estão no livro de meu pai, João Pinheiro Neto, “Jango, um depoimento pessoal”.

Foto: Leda Pinheiro com os filhos. A prisão de João Pinheiro Neto, em abril de 1964, deixou a família sem notícias de seu paradeiro.