De Nossa Senhora Aparecida à Madre Maurina: quando a fé entra na política
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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – colunista convidado.
Às vésperas de mais uma eleição presidencial, Nossa Senhora Aparecida entrou no centro do debate político brasileiro.
Uma informação falsa, segundo a qual o candidato Flávio Bolsonaro pretenderia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil, espalhou-se pelas redes sociais e alcançou milhões de brasileiros.
O candidato reagiu. A Justiça foi acionada. A CNBB acabou envolvida na controvérsia e negou participação na produção ou divulgação da desinformação.
Não pretendo aqui discutir quem ganhou ou perdeu eleitoralmente com o episódio.
O que me interessa é outra coisa.
Ao acompanhar essa discussão sobre Nossa Senhora Aparecida e o papel da Igreja Católica no debate público, lembrei-me de uma história infinitamente mais grave, ocorrida há quase sessenta anos.
A história de Madre Maurina Borges da Silveira.
Recebi de minha amiga, a jornalista Denise Assis, o depoimento que ela prestou, em outubro de 2013, numa audiência pública da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”.
É um documento impressionante.
Madre Maurina era uma freira franciscana e dirigia o Lar Santana, um orfanato para meninas carentes em Ribeirão Preto.
Em outubro de 1969, aos 43 anos, foi arrancada de sua vida religiosa e presa pelos órgãos de repressão da ditadura, acusada de envolvimento com atividades consideradas subversivas.
Foi submetida a torturas, humilhações e abusos sexuais.
Uma religiosa. Uma mulher. Nas mãos do Estado brasileiro.
Denise Assis começou a investigar essa história em 1977, ainda muito jovem e recém-formada. Procurou Frei Leonardo Boff e começou a juntar as primeiras peças de um quebra-cabeça que levaria muitos anos para ser reconstruído.
A história permanecia cercada de silêncio.
Na década de 1990, com a abertura dos arquivos do DOPS, novas peças começaram a aparecer. Documentos ajudaram a iluminar aquilo que durante anos permanecera escondido nos arquivos da repressão.
E o que Denise encontrou não dizia respeito apenas a Madre Maurina.
Dizia respeito às mulheres submetidas à repressão política e àquilo que ela descreveu, em seu comovente depoimento, como uma invasão dos corpos femininos, moral e sexualmente.
É impossível ouvir essas palavras em 2026 sem pensar no presente.
Hoje, falamos diariamente de violência contra a mulher, feminicídio, intolerância religiosa, liberdade de crença e direitos humanos.
E, novamente, a religião ocupa espaço numa campanha presidencial.
É preciso deixar clara uma diferença fundamental.
Não existe equivalência entre uma controvérsia eleitoral ocorrida em plena democracia e uma religiosa presa e torturada por agentes de uma ditadura.
Mas, existe uma pergunta que atravessa as duas épocas:
Qual deve ser o limite entre religião e poder político?
Em 1969, Madre Maurina descobriu da maneira mais brutal o que acontece quando o Estado acredita que pode ultrapassar todos os limites.
Hoje, Nossa Senhora Aparecida, símbolo da fé de milhões de brasileiros e Padroeira do Brasil, reaparece no centro de uma disputa política amplificada pelas redes sociais.
Talvez seja justamente este o momento de lembrar Madre Maurina.
Não para explorar politicamente sua dor. Muito menos para comparar o incomparável.
Mas para compreender o preço que uma sociedade pode pagar quando intolerância, religião e poder deixam de reconhecer fronteiras.
Durante muito tempo houve quem preferisse que a história de Madre Maurina permanecesse esquecida. Não permaneceu.
Em grande parte graças à obstinação de uma jovem jornalista que começou a investigá-la em 1977 e não abandonou o assunto.
Seu nome é Denise Assis.
Quase meio século depois, seu trabalho nos obriga a olhar novamente para aquela freira arrancada de sua vida religiosa e entregue à violência dos aparelhos de repressão do Estado.
Memória não é vingança. Memória é uma forma de impedir que o silêncio absolva a história.
Nossa Senhora Aparecida pertence à fé de milhões de brasileiros.
Madre Maurina pertence à memória do Brasil. Uma merece respeito.A outra, exige que não esqueçamos.
Foto : Madre Maurina.


