Sons do Rio de Janeiro
O Rio também se fotografa com os ouvidos. Antes mesmo de abrir os olhos, a cidade já fala. Há um trem passando ao longe. O ferro contra o ferro. O apito breve. A composição que corta a manhã levando gente, sonhos, pressa. Um som que atravessa bairros e janelas. E anuncia que mais um dia começou junto com o apito da fábrica de tecidos.
Na praia, o ritmo é outro. Em Ipanema, as ondas quebram na areia com uma música antiga. Vai. Volta. Espuma. Silêncio. Outra onda. O mar não tem pressa. Talvez por isso o carioca goste tanto de escutá-lo. Mais acima, nas árvores, os sabiás e os bem-te-vis ensaiam a alvorada. Um canto responde ao outro. Pequenos músicos invisíveis entre folhas e galhos. O bem-te-vi anuncia seu próprio nome. O sabiá não precisa dizer quem é. Seu canto basta.
No céu, as fragatas passam quase sem ruído. Grandes asas abertas, desenhando círculos sobre o azul. Às vezes, apenas o vento parece tocá-las. Lá embaixo, porém, a cidade acelera. Buzinas. Motores. Freios. Ônibus. Motocicletas. Sirenes. Um concerto frenético de avenidas cheias, onde cada veículo parece tocar seu próprio instrumento. O Rio que engarrafado também tem música. Uma música nervosa. Desafinada. Humana. E, no meio dela, surge outra voz: ‘É tomate! É laranja! É abacaxi!”.
O feirante apregoa sua mercadoria como quem canta para a rua. Seu grito atravessa a feira. Passa pelas barracas. Entra nas janelas. Mistura-se ao barulho das sacolas, das conversas, dos passos, das moedas trocando de mãos. É uma voz que vem de longe. Dos antigos pregões.
Da cidade que ainda conversa na calçada. E há tantos outros sons. O vendedor de mate. O apito do guarda. A bola batendo no chão. O sino da igreja. O samba escapando de uma janela. O copo pousando sobre a mesa do botequim. O riso. A gargalhada. O silêncio. Sim. Até o silêncio tem seu lugar no Rio. Ele aparece depois da chuva. Na praia quase vazia. Num domingo muito cedo. Naquele instante em que a cidade parece respirar antes de começar novamente. Talvez seja isso que torne o Rio tão particular.
Não existe uma única trilha sonora para a Cidade Maravilhosa. Existem muitas. A cidade dos trens. A cidade do mar. A cidade dos pássaros. A cidade das avenidas. A cidade das feiras. A cidade dos botequins. Cada bairro tem seu ruído. Cada rua, sua voz. Cada esquina, sua pequena música. O Rio é feito de contrastes. Do estrondo do trem ao sussurro da onda. Do motor à asa da fragata. Do canto do sabiá ao grito do feirante. Da buzina ao silêncio. Talvez por isso, quando fechamos os olhos diante da cidade, ainda conseguimos enxergá-la. Porque o Rio não é apenas uma paisagem. É uma sinfonia. Uma sinfonia sem maestro. Plural. Desigual.
Barulhenta. Delicada. Carioca. E, talvez, seja justamente nessa mistura de sons que o Rio encontre sua voz. Uma voz que nunca é uma só. É muitas. E todas são Rio.





















