×

Contagem regressiva: “Estou bem, minha querida. Não dê crédito aos boatos”

Contagem regressiva: “Estou bem, minha querida. Não dê crédito aos boatos”

Compartilhe nas Redes sociais
Por Henrique Pinheiro  – Economista,  produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Fortaleza de Santa Cruz, 1964.
Da prisão, meu pai, João Pinheiro Neto, escreveu uma carta à minha mãe, Leda.
Começava tentando tranquilizá-la: ” Mas estou bem, minha querida. Não dê crédito aos boatos malévolos que estou doente, nervoso, etc. Alimento-me bem. Quando o sol se anima, faço exercício ao ar livre.”
E, acrescentava uma frase quase bem-humorada diante das circunstâncias: “É incrível, mas não tenho tido as costumeiras aftas, azia, etc.”
Preso, afastado de casa e dos filhos pequenos, ainda encontrava forças para proteger minha mãe da preocupação.
Mas, a carta vai muito além da intimidade familiar.
Meu pai havia presidido a SUPRA, Superintendência da Reforma Agrária. Defendia mudanças na estrutura agrária brasileira. Naquele momento, porém, suas ideias eram tratadas como subversivas.
Ele escreveu:
“Como haveria de querer condenar tudo o que aí está, assumindo atitudes extremistas ou subversivas para com uma organização social que não me negara nada? Que, ao contrário, dera-me tudo. Apenas queria aperfeiçoá-la. Fazê-la para os outros tão magnânima o quanto estava sendo para mim. Só isto. Nada mais.”
 E, então definiu suas convicções: “Sou um conservador, no fundo. Apenas, como dizem, é preciso podar o mal para conservar o bem.”
 Mas, havia uma questão de consciência:
“Não me estaria, como agora, privando de tudo e de todos, se tivesse feito o que todos ou quase todos os moços na minha posição fazem. Gastar o dinheiro dos pais, jogar golfe, viver sossegado, cruzar os braços e esperar que outros façam alguma coisa por nós.”
Esse trecho, para mim, é a essência da carta.
Ele poderia ter escolhido uma vida confortável. Não escolheu.
Queria aperfeiçoar uma sociedade que lhe dera muito para que ela pudesse dar aos outros as mesmas oportunidades.
E,  pagava por essa escolha com a prisão.
Mesmo assim, sua primeira preocupação era tranquilizar Leda:
“Estou bem, minha querida.”
Imagem:  A carta que meu pai, João Pinheiro Neto, escreveu à minha mãe, Leda, da Fortaleza de Santa Cruz. O documento foi publicado pelo Correio da Manhã em 8 de maio de 1964. Mais de seis décadas depois, suas próprias palavras permanecem como testemunho daqueles dias.