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A direita não chegou sozinha

A direita não chegou sozinha

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 Por Henrique Pinheiro  –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Há uma onda de direita atravessando o mundo.
 Na Europa, partidos de extrema direita, que durante décadas, permaneceram à margem voltaram a ocupar espaço político, alimentados pela xenofobia, pelo medo da imigração, pela insegurança econômica e pelo desencanto com os partidos tradicionais.
 Na América do Sul, o movimento também ganhou força.
 Argentina, Chile, Colômbia e agora o Brasil mostram, cada um à sua maneira, uma mudança de humor do eleitor.
 Seria fácil explicar tudo dizendo que o mundo ficou conservador.
 Acho simplista.
 Talvez seja mais importante perguntar por que tanta gente deixou de acreditar na esquerda e na centro-esquerda.
 Durante décadas, elas prometeram governar principalmente para aqueles que mais necessitavam do Estado.
 Chegaram ao poder.
 E,  muitas vezes, acabaram deslumbradas pelo próprio poder.
 Administraram melhor ou pior a máquina existente, criaram programas sociais importantes, distribuíram benefícios, mas raramente enfrentaram as estruturas que produzem a desigualdade que prometiam combater.
 No Brasil, continuamos convivendo com uma brutal concentração de renda e patrimônio, educação deficiente, saneamento incompleto, serviços públicos precários e uma violência que passou a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros.
 E, a violência talvez seja um dos maiores combustíveis dessa guinada.
 Quando o Estado não consegue garantir segurança, cresce o espaço para quem promete resolver o problema pela força.
 É nesse ambiente que El Salvador passou a ser cantado em verso e prosa como exemplo de combate ao crime: endurecer penas, prender em massa, construir presídios e mais presídios.
 Os resultados na redução dos homicídios tornaram o modelo atraente para muita gente.
 Mas,  existe uma pergunta que quase desaparece no entusiasmo:
 Que sociedade queremos construir depois que as celas estiverem cheias?
 Prisão pode retirar criminosos das ruas. Não substitui escola, oportunidade, prevenção, justiça eficiente e presença do Estado onde o crime organizado costuma chegar primeiro.
 Quando uma sociedade começa a acreditar que construir presídios é mais urgente do que construir escolas, talvez esteja combatendo a consequência sem enfrentar a origem.
 Mudaram os governos.
 A estrutura resistiu.
 Quando a política deixa de oferecer transformação, aparece quem oferece ruptura.
 Não importa, num primeiro momento, se essa ruptura será verdadeira.
 Importa que milhões de pessoas desesperançadas acreditem que ela seja possível.
 Na América Latina existe ainda uma velha ilusão: a de que uma aproximação quase incondicional com os Estados Unidos nos permitirá participar das benesses da maior potência econômica do mundo.
 Nossa própria história deveria recomendar cautela com essa esperança.
 Na Europa, o combustível tem características diferentes. A imigração tornou-se o alvo mais visível para sociedades angustiadas com emprego, renda, segurança e identidade.
 Mas existe algo comum aos dois fenômenos: a desesperança procura um culpado.
 E a direita soube compreender esse sentimento. Ofereceu respostas simples para problemas complexos.
 A esquerda respondeu com discursos, promessas e a defesa das próprias realizações.
 Não percebeu que boa parte da população não estava perguntando o que havia sido feito. Estava perguntando por que sua vida continuava tão difícil. Agora a onda chegou.
 Veremos culpados escolhidos, inimigos apresentados e talvez até a cabeça de algum juiz oferecida para saciar a fome de justiça de uma sociedade cansada.
 Mas as perguntas fundamentais continuarão esperando resposta.
 Quem controla a riqueza? Quem paga a conta? Quem recebe os juros?
 Quem tem acesso à melhor educação, saúde e segurança?
 Quem continua protegido quando chegam as crises?
 Porque os remendos anunciados como grandes transformações inevitavelmente acabam cobrados daqueles que menos podem pagar. A direita chegou.
 Os governos podem mudar. Os discursos também.
 Mas as estruturas de poder continuarão onde sempre estiveram: