Morticínio dissecado
Pode parecer difícil de acreditar que a população brasileira tenha perdido algum flagrante da CPI da COVID em 2021. Ao longo de quase seis meses, a Comissão Parlamentar de Inquérito, transmitida em tempo real pela TV e acompanhada como um dos piores episódios de Black Mirror de todos os tempos, proporcionou alguns dos momentos mais aterrorizantes da pandemia. Médicos e supostos especialistas, juntamente com deputados, executivos de planos de saúde e servidores públicos, apresentaram relatos que chocaram o país e expuseram que, além do vírus, era preciso resistir também ao governo naquele momento. Até mesmo o Zé Carioca, fantasiado de empresário, compareceu para dar explicações sobre sua participação no atentado contra a sociedade, que encarava atônita o crescimento diário do número de mortos. Eram episódios diários que terminavam sempre com o relatório do dia, informando quantas vidas haviam sido perdidas em um país que tinha no comando uma das figuras mais perigosas já eleitas. Mas, entre sessões trazendo novas revelações inacreditáveis, reuniões entre parlamentares que se debruçaram sobre a elucidação desse crime contra o povo brasileiro e manifestações do mandatário contra as medidas de isolamento aconteciam quase simultaneamente, enquanto equipes médicas por todo o país lutavam para tentar salvar vidas.
Um dos documentários mais esperados do ano chega às plataformas digitais, não por acaso, em um dos momentos mais tensos da história recente brasileira. Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, soma-se ao conjunto de registros essenciais produzidos a respeito dos tempos de obscurantismo enfrentados pelo Brasil e com os quais, infelizmente, ainda flertamos. Ao acompanhar as reuniões sobre as decisões relativas a quem deveria depor e as descobertas envolvendo a inação na compra de vacinas e na garantia do fornecimento de oxigênio em territórios onde o número de óbitos crescia vertiginosamente, Dandara faz nossos olhos alcançarem os hiatos entre os momentos que acompanhamos ao vivo, quando toda sorte de apoiadores do governo zombava da desgraça que resultou em mais de 700 mil mortos, em rede nacional.
Após sua estreia nos cinemas, Anatomia do Caos está disponível gratuitamente no YouTube desde 16 de outubro, permanecendo assim até 25 de outubro. Trata-se de um recorte duro e necessário para a compreensão da gravidade do momento atual. Mesmo após um atentado contra a nação em meio a uma crise sanitária sem precedentes e uma tentativa de golpe de Estado poucos anos depois, o mesmo grupo político que arquitetou um projeto de poder à custa da população ainda tenta regressar para concluir seu plano de ruptura com a democracia, acompanhado de personagens reeleitos e oriundos do governo mais desgraçado que o Brasil já viu. Entre essas figuras, está um homem de alta patente militar que afirmou que sua missão havia sido cumprida ao deixar o Ministério da Saúde em um dos momentos mais sensíveis da pandemia. É o mesmo que indagou à nação por que havia tanta pressa para iniciar a vacinação. Dandara produz um documento capital para compreender mais um dos escândalos envolvendo a ascensão de uma das famílias mais parasitárias e corruptas do país. Trata-se de uma investigação sobre uma tragédia que produziu milhares de mortes, cujo relatório foi engavetado e que não resultou em nenhuma prisão ou condenação. A importância de revisitar esse capítulo, assim como a relevância da realização deste filme, encontra significado já na primeira voz em off deste registro: “Não se elabora o luto no silêncio do esquecimento”.


