Quem terá coragem de mudar o Brasil?
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Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Celso Furtado defendia uma ideia fundamental: nenhum país é verdadeiramente desenvolvido
enquanto a maioria da população não participa dos benefícios do crescimento econômico.
Não basta aumentar o PIB, expandir a produção ou acumular riquezas. É preciso saber quem efetivamente se beneficia desse crescimento.
O Brasil industrializou-se, modernizou sua agricultura e multiplicou suas riquezas.
Mas, quanto desse progresso chegou aos trabalhadores?
Para Furtado, desenvolvimento significava transformar estruturas econômicas e sociais,
reduzir desigualdades e melhorar os salários, especialmente daqueles que ganham menos.
Na década de 1960, Celso Furtado,
San Tiago Dantas e João Goulart discutiam como conciliar estabilidade, crescimento e reformas estruturais.
O Plano Trienal procurava combater a inflação e recuperar a capacidade de investimento.
Mas, as Reformas de Base pretendiam ir além: modificar as estruturas que impediam o desenvolvimento econômico e social.
Leonel Brizola compreendia essa necessidade.
Recentemente, assisti a um vídeo em que convocava a juventude a participar das transformações estruturais do Brasil.
Sua mensagem permanece atual: não podemos esperar mudanças profundas daqueles que se acomodaram nas estruturas do poder.
Brizola fez da educação pública uma prioridade, defendeu a soberania nacional e enfrentou interesses econômicos poderosos.
Tinha um projeto de país.
E, o que temos hoje?
Passadas seis décadas, continuamos enfrentando concentração de renda, salários insuficientes, juros elevados e desigualdades profundas.
A dívida pública exige recursos expressivos para o pagamento de juros, enquanto educação,
saúde e investimentos disputam o orçamento.
Precisamos discutir o custo dessa dívida e como financiar o desenvolvimento nacional.
Entretanto, nossas eleições transformaram-se numa disputa entre grupos pelo poder.
As acusações substituem os programas.
Os ressentimentos ocupam o lugar das propostas.
Quem terá coragem de enfrentar os juros, estimular a produção, melhorar os salários e promover uma verdadeira reforma educacional?
Responsabilidade fiscal é indispensável, mas não constitui, sozinha, um projeto nacional.
Precisamos de crescimento com distribuição de renda, oportunidades e justiça social.
Celso Furtado pensava o desenvolvimento.
Brizola acreditava na mobilização popular.
Ambos compreendiam que transformar o Brasil
exigia coragem para enfrentar privilégios.
O Brasil não precisa apenas trocar governantes.
Precisa transformar suas estruturas.
E, talvez esteja nas novas gerações a coragem que continua faltando aos que disputam o poder.
Fotos ( Acervo pessoal): Celso Furtado e Leonel Brizola.


