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Contagem regressiva: ” É o único ex-político que não fugiu”

Contagem regressiva: ” É o único ex-político que não fugiu”

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Por Henrique Pinheiro  –  Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 Maio de 1964.
Meu pai, João Pinheiro Neto, na época do golpe contra João Goulart,  estava preso na Fortaleza de Santa Cruz.
 Minha mãe, Leda, tinha 24 anos e três filhos pequenos. As cartas que escrevia ao marido eram entregues a um soldado na porta da Fortaleza. Ela nunca tinha a certeza de que chegariam às mãos dele.
Era assim, entre a esperança e a incerteza, que tentava manter algum contato com o marido preso.
Em uma dessas cartas, escreveu:
“As suas intenções eram tão boas que até o Exército foi solicitado a colaborar com o decreto da SUPRA. A hipótese de ser comunista parece ter sido abandonada como absurda que é.”
A frase é reveladora.
Meu pai havia presidido a SUPRA, Superintendência da Reforma Agrária, no governo João Goulart. Depois do golpe, sua atuação passou a ser investigada sob a acusação de subversão e a suspeita de ligação com o comunismo.
Mas, como registrava minha mãe na própria carta, a hipótese de que ele fosse comunista já parecia ter sido abandonada pelos seus interrogadores.
Ela prosseguia:
“Restam as denúncias publicadas que necessitam provas com a presença dos delatores.”
E, demonstrava confiança:
“O seu inquiridor é um homem bom porém duro, o que nos favorece já que desejamos apenas justiça.”
No final da carta, surge a dimensão mais íntima daqueles dias:
“P.S. Na 2a f.,  passarei o dia na igreja rezando para que termine este sofrimento.”
E, então escreveu:
“Se você tivesse alguma culpa ou consciência pesada teria se exilado, o que teve tempo de sobra. Mas não o fez. É o único ex-político que não fugiu.”
Meu pai permaneceu no Brasil. Foi preso e enfrentou as acusações.
Mais de sessenta anos depois, as palavras da minha mãe permanecem como testemunho daquele tempo.

Na foto, minha mãe, Leda, aos 24 anos, cerca de dois meses antes da prisão do meu pai. Ao lado, um trecho da carta que escreveu a ele durante a prisão.