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A Economia da Barbárie-Crise do valor e as novas formas de reprodução do capitalismo. O Brasil como laboratório da economia da barbárie

A Economia da Barbárie-Crise do valor e as novas formas de reprodução do capitalismo. O Brasil como laboratório da economia da barbárie

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Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas e militante histórico.
 A eleição como sintoma.
 O primeiro turno das eleições de 2026 produziu uma cena que ultrapassa em muito a disputa entre dois candidatos. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, que obteve 45,16%. Ao mesmo tempo, o PL ampliou fortemente sua presença no Congresso e consolidou-se como uma das principais forças políticas nacionais. O bolsonarismo, portanto, não apenas sobreviveu à derrota presidencial de 2022. Reorganizou-se, ampliou sua presença institucional e voltou ao centro da disputa pelo poder.
A leitura imediata desses números conduz às perguntas habituais: por que o lulismo perdeu terreno, por que a extrema direita voltou a crescer e quais erros políticos, econômicos ou comunicacionais produziram esse resultado? Essas questões são legítimas, mas permanecem insuficientes para alcançar o que considero mais importante. O resultado eleitoral revela uma transformação da própria sociedade brasileira, mais profunda do que a alternância entre governos. O que emerge diante de nós não é apenas uma nova correlação eleitoral, mas uma sociedade na qual antigas formas de integração perderam parte de sua capacidade de organizar a vida coletiva. O trabalho estável tornou-se menos abrangente, a informalidade converteu-se em condição permanente para milhões de pessoas, a autoridade das instituições se enfraqueceu, o sentimento de insegurança disseminou-se e diferentes formas de poder privado passaram a disputar funções que, durante boa parte da modernidade, foram atribuídas ao Estado.
É nesse terreno que situo a ascensão do bolsonarismo. Não como causa primeira dessa transformação, nem como simples expressão eleitoral de um conservadorismo histórico, mas como uma forma política que encontrou extraordinária capacidade de organização numa sociedade marcada pela fragmentação.
Sua linguagem de autoridade, propriedade, empreendedorismo, segurança, pertencimento e combate aos inimigos encontra ressonância num mundo em que o universal perde força e o particular passa progressivamente a ocupar seu lugar.
Do outro lado dessa disputa encontra-se o lulismo, que durante duas décadas procurou administrar as contradições brasileiras pela reconstrução de mecanismos de integração: emprego, salário, consumo, políticas públicas, direitos sociais, negociação institucional e presença redistributiva do Estado. Seu horizonte permaneceu sendo, em grande medida, o de uma sociedade capitalista capaz de combinar crescimento econômico e inclusão social. A diferença entre essas duas formas políticas não deve ser reduzida a uma oposição moral entre civilização e barbárie.
O lulismo procura preservar mediações sociais pertencentes à tradição integradora da modernidade capitalista.
 O bolsonarismo encontra maior compatibilidade com uma sociedade na qual essas mediações estão se decompondo. Um procura reconstruir o universal; o outro organiza politicamente uma realidade cada vez mais fragmentada.
A eleição deixa, assim, de ser apenas eleição. Ela se transforma numa janela através da qual se observa o Brasil contemporâneo. Enquanto milhões de eleitores depositavam seus votos nas urnas, outra sociedade continuava funcionando por baixo da sociedade institucional. Territórios urbanos permaneciam submetidos a facções e milícias. Redes de garimpo, grilagem e extração ilegal atravessavam extensas regiões do país. Capitais provenientes de atividades ilícitas procuravam ingresso em empresas, imóveis, postos de combustíveis, cadeias produtivas e ativos financeiros. O próprio Estado passou a reconhecer a existência de verdadeiros ecossistemas do crime, nos quais tráfico de drogas, mineração ilegal, grilagem, exploração clandestina de recursos naturais e outras atividades compartilham infraestrutura, rotas, intermediários e mecanismos de financiamento.
Esses fenômenos costumam ser tratados separadamente. A eleição pertence à política, o narcotráfico à segurança pública, o garimpo ilegal à questão ambiental, a lavagem de dinheiro ao sistema financeiro, a precarização do trabalho à economia e a crise das instituições à ciência política. É justamente essa separação que precisa ser abandonada. Todos esses fenômenos participam de uma mesma transformação histórica. É a partir dela que formulo a hipótese deste capítulo: o Brasil funciona como um laboratório particularmente avançado da economia da barbárie.
A periferia como antecipação.
 A palavra laboratório não deve ser entendida como lugar de origem. O Brasil não inventou a privatização do poder, a espoliação, os mercados ilícitos ou a decomposição das instituições universais. Essas tendências atravessam o capitalismo mundial. A particularidade brasileira está em outra parte: elas aparecem aqui combinadas, condensadas e antecipadas de maneira especialmente visível.
A periferia não cria necessariamente o futuro do capitalismo. Ela o manifesta antes do centro.
Essa perspectiva modifica a forma de olhar para aquilo que costumamos chamar de criminalidade. Narcotráfico, milícias, garimpo ilegal, grilagem de terras, extração clandestina de madeira e outras atividades ilícitas não podem ser compreendidos apenas como mundos autônomos que prosperam nas margens da economia regular. São estruturas capazes de compartilhar rotas, tecnologias, mecanismos financeiros, territórios e agentes, formando circuitos econômicos cada vez mais complexos. A ilegalidade começa, assim, a adquirir uma forma sistêmica.
Esses circuitos não permanecem confinados à economia subterrânea. Em algum momento precisam tocar a superfície. O ouro retirado ilegalmente precisa encontrar compradores, atravessar intermediários, receber documentação e ingressar em cadeias comerciais. A madeira precisa de transporte e mercado. A terra apropriada pela violência precisa transformar-se em propriedade negociável. O dinheiro do tráfico necessita abandonar sua origem clandestina e reaparecer sob a forma de empresas, imóveis, postos de combustíveis, comércio, ativos ou investimentos. É nesse momento que a imagem de dois mundos separados começa a ruir.
A Faria Lima e a economia clandestina não constituem territórios econômicos incomunicáveis. Entre eles podem existir bancos, empresas, intermediários, imóveis, fundos, operadores financeiros, escritórios e mecanismos de lavagem capazes de transformar riqueza de origem ilícita em patrimônio formal. A fronteira jurídica permanece, mas a fronteira econômica torna-se porosa. É precisamente essa porosidade que interessa à ideia de economia da barbárie.
Isso não significa que toda economia formal tenha se tornado criminosa, nem que o mercado regular possa ser reduzido a uma extensão da ilegalidade. O fenômeno é mais preciso. O capitalismo contemporâneo produz zonas de circulação nas quais riqueza legal e ilegal podem encontrar-se, transformar-se e retornar ao processo geral de acumulação. Nesse movimento, a barbárie deixa de habitar apenas o exterior do mercado e começa a estabelecer relações permanentes com ele.
A Faria Lima é parte integrante da economia da barbarie
Soberania fragmentada
O território constitui outra dimensão fundamental desse processo. A sociedade moderna imaginou o Estado como poder soberano capaz de aplicar uma mesma ordem jurídica sobre determinado espaço. No Brasil contemporâneo, essa soberania permanece formalmente intacta, mas materialmente tornou-se profundamente desigual. Existem territórios nos quais o Estado exerce plenamente suas funções, outros nos quais sua presença é parcial e outros ainda nos quais divide, negocia ou disputa funções com poderes privados.
Facções estabelecem regras sobre comunidades. Milícias controlam mercados de transporte, imóveis, telecomunicações, gás, proteção e outros serviços. Redes de garimpo organizam extensas áreas de exploração e circulação. A grilagem transforma violência territorial em apropriação econômica. Em diferentes escalas, surgem formas particulares de regulação da vida que não substituem completamente o Estado, mas coexistem com ele. Temos então algo que pode ser definido como soberania fragmentada.
O Estado continua formalmente soberano, mas sua capacidade de determinar universalmente as regras diminui. O mesmo território nacional passa a conter diferentes formas de autoridade. Num espaço prevalece a administração pública; em outro, um grupo armado; em outro, uma rede empresarial; em outro, interesses fundiários ou minerários. Em todos eles, contudo, a moeda circula, mercadorias são compradas e vendidas, patrimônios são constituídos e riqueza é acumulada.
Essa constatação revela algo fundamental: a economia da barbárie não necessita abolir o mercado, porque precisa dele. Também não necessita destruir completamente o Estado, porque pode necessitar dele. Precisa de documentos, registros, estradas, bancos, empresas, contratos, tribunais, sistemas de propriedade e mecanismos jurídicos capazes de converter situações de fato em direitos reconhecidos. Pode simultaneamente confrontar o Estado e utilizar suas instituições, corromper agentes públicos, capturar parcelas administrativas, explorar brechas regulatórias e mobilizar relações políticas.
Por isso, a ideia de um Estado simplesmente ausente é insuficiente. Muitas vezes o Estado está presente, mas de maneira seletiva, contraditória ou capturada. Pode ser rigoroso com determinados grupos e permissivo com outros, abandonar uma população e proteger um empreendimento, exercer violência num território e tolerar poderes privados em outro.
A economia da barbárie não cresce apenas no vazio deixado pelo Estado. Ela cresce dentro das próprias fissuras do Estado.
Capitalismo de compadres e poder privado.
É nesse ponto que a noção de capitalismo de compadres ganha importância. Durante muito tempo ela serviu para identificar sistemas nos quais relações pessoais, proximidade política, favores e acesso privilegiado aos recursos públicos interferem na concorrência econômica. No Brasil, essa lógica possui longa história. Mas aquilo que observamos ultrapassa a velha relação entre empresários e governos.
Quando interesses privados não procuram apenas vantagens econômicas, mas passam a controlar territórios, serviços, estruturas coercitivas e parcelas da administração pública, já não estamos diante apenas de favoritismo econômico. Entramos numa região em que poder econômico, poder político e força privada começam a misturar-se. O limite entre formalidade, informalidade e ilegalidade torna-se, então, particularmente importante. Parte dos poderes econômicos e políticos contemporâneos procura operar exatamente nessa zona.
A legalidade construída pelo Estado liberal, com suas regulações, controles institucionais, limites à concentração de poder e mecanismos de fiscalização, passa a ser percebida por determinados grupos como obstáculo à expansão de seus interesses. Não é necessário que a lei seja simplesmente violada. Pode-se atuar nas lacunas da regulamentação, explorar interpretações favoráveis, pressionar por mudanças legislativas, capturar organismos reguladores ou modificar as próprias regras. A legalidade continua existindo, mas transforma-se também em território de disputa.
É nesse aspecto que experiências recentes da extrema direita internacional, o trumpismo e a ascensão das grandes oligarquias tecnológicas oferecem um paralelo importante. Grandes corporações que controlam dados, redes digitais, infraestrutura computacional, inteligência artificial e comunicação adquiriram capacidades que anteriormente pertenciam quase exclusivamente aos Estados. Ao mesmo tempo, forças políticas autoritárias apresentam tribunais, controles administrativos, regulamentações e outras mediações como obstáculos à ação do poder.
A sociedade liberal havia construído instituições destinadas simultaneamente a proteger a propriedade e limitar a concentração excessiva de poder. Agora, setores extremamente poderosos da própria sociedade capitalista começam a considerar essas mediações uma camisa de força. A extrema direita contemporânea não precisa destruir imediatamente as instituições liberais. Pode esvaziá-las, contorná-las, submetê-las ou transformá-las. A barbárie não começa necessariamente quando desaparece a lei. Ela avança quando determinados poderes se tornam suficientemente fortes para influenciar até onde a lei consegue alcançá-los.
No Brasil, essa transformação encontra uma sociedade historicamente marcada pela profunda proximidade entre poder econômico, poder político e relações pessoais de mando.
É aí que o país deixa de ser apenas exemplo de desigualdade e adquire interesse como laboratório de uma transformação mais profunda do capitalismo.
Lulismo, bolsonarismo e formas de administrar a crise
O resultado do primeiro turno de 2026 exige, portanto, uma reflexão que ultrapasse a aritmética eleitoral. O bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como acidente histórico, manipulação comunicacional ou sobrevivência de um conservadorismo tradicional. Sua capacidade de reorganizar-se depois de 2022 e retornar com enorme força eleitoral demonstra que ele expressa experiências sociais efetivamente existentes.
O bolsonarismo não cria a fragmentação.Ele a politiza.
Isso não significa responsabilizá-lo pelo narcotráfico, pelas milícias, pelo garimpo ilegal ou pela grilagem. Essa identificação direta seria intelectualmente inconsistente. A questão é outra: que forma política se torna funcional numa sociedade em que antigas mediações universais perdem força e poderes particulares ganham importância crescente?
A resposta aparece quando observamos uma característica central dessa corrente política: a combinação entre forte discurso de ordem e defesa de amplos espaços de desregulação. De um lado, reivindicam-se autoridade, disciplina, policiamento e soberania. De outro, valorizam-se o empreendedor individual, a propriedade, a redução das regulações estatais e a desconfiança diante das instituições mediadoras. A contradição é apenas aparente. A ordem desejada não precisa ser universal. Pode ser seletiva: mais força para determinados grupos e mais liberdade para outros, mais coerção sobre populações vulneráveis e menos regulação sobre capitais, mais Estado como instrumento de autoridade e menos Estado como instância universal de proteção.
Essa configuração aproxima-se do terreno no qual a economia da barbárie se desenvolve, porque a barbárie contemporânea não significa simplesmente ausência de normas. Ela surge também quando as normas deixam de possuir efetivamente caráter universal e passam a ser aplicadas de maneira desigual conforme a posição econômica, social e territorial.
É aqui que o lulismo reaparece como elemento importante desta reflexão. Durante sua trajetória histórica, procurou administrar as contradições brasileiras preservando ou reconstruindo algumas das mediações clássicas da sociedade moderna: trabalho assalariado, valorização salarial, consumo, políticas públicas, proteção social, negociação institucional e presença redistributiva do Estado. Seu horizonte permaneceu sendo o de um capitalismo capaz de produzir crescimento e simultaneamente ampliar integração.
Isso não significa que tenha superado as contradições capitalistas ou que esteja fora delas. Significa que pode ser compreendido como uma tentativa de preservar mecanismos universais de integração numa sociedade cada vez mais fragmentada.
O lulismo procura reconstruir mediações. O bolsonarismo organiza politicamente sua decomposição.
Essa formulação não estabelece uma equivalência simples entre um campo político e civilização, outro e barbárie. O problema encontra-se num nível mais profundo. O lulismo ainda opera dentro da expectativa de que emprego, crescimento, renda, consumo e políticas públicas podem recompor o tecido social. O bolsonarismo mostra maior capacidade de atuar numa sociedade em que essa expectativa perdeu credibilidade para parcelas significativas da população.
A Crítica do Valor e os limites da integração.
É nesse ponto que a Crítica do Valor retorna ao centro da análise, porque as mediações defendidas pelo lulismo não enfrentam apenas adversários políticos. Elas enfrentam limites estruturais. O trabalho abstrato, que durante grande parte da modernidade constituiu uma das principais formas de integração social, perde progressivamente capacidade de incorporar contingentes crescentes de trabalhadores de maneira estável e rentável. Automação, racionalização produtiva e desenvolvimento tecnológico aumentam a produtividade enquanto reduzem relativamente a necessidade de trabalho vivo.
Ao mesmo tempo, a reprodução econômica passa a depender cada vez mais de crédito, endividamento, valorização financeira e antecipação de riqueza futura. Os Estados precisam sustentar políticas públicas, infraestrutura e direitos enquanto sua capacidade fiscal permanece dependente de uma economia submetida a tensões crescentes. Nesse ambiente cresce uma população cuja inserção social já não se organiza predominantemente através do trabalho assalariado estável.
Informalidade não significa criminalidade. Um trabalhador informal não pertence, por isso, à economia da barbárie. Milhões de pessoas produzem, trabalham e sobrevivem fora do emprego formal sem qualquer relação com economias ilícitas. O problema começa quando a perda da capacidade integradora do trabalho abre territórios sociais em que renda, proteção, pertencimento e acesso a recursos passam a ser organizados por poderes particulares. É nesse terreno que facções, milícias, economias clandestinas e redes territoriais encontram condições para expandir-se.
A economia da barbárie oferece aquilo que a sociedade formal deixa de garantir para determinados grupos: renda, proteção, acesso a mercados e inserção. Mas cobra seu preço sob a forma de submissão, violência e dependência.
Isso permite compreender por que uma eventual derrota eleitoral do lulismo possuiria significado maior do que a simples substituição de um governo. Ela indicaria que uma tentativa histórica de administrar a crise através da reconstrução das antigas mediações de integração encontrou limites políticos cada vez maiores. A Crítica do Valor obriga também a reconhecer algo mais incômodo: mesmo uma vitória eleitoral do lulismo não eliminaria as determinações estruturais da crise.
Poderia conter formas de devastação, reconstruir políticas públicas, ampliar direitos, combater mercados ilícitos e fortalecer instituições. Isso possui consequências concretas e importantes. Mas não eliminaria, por si só, a crise do trabalho abstrato, os limites da valorização, a expansão do capital fictício, a precarização estrutural ou as dificuldades crescentes do Estado em sustentar sua antiga capacidade integradora.
Essa constatação impede que a reflexão se transforme numa defesa eleitoral de um campo ou numa simples denúncia de outro. O problema é maior.
O Brasil entra numa fase em que a disputa política passa a ocorrer entre diferentes formas de administrar uma crise cuja origem ultrapassa os próprios atores eleitorais. Uma procura recompor o antigo pacto de integração capitalista. A outra aprende a governar uma sociedade fragmentada.
É precisamente nessa segunda possibilidade que a noção de economia da barbárie alcança sua dimensão política. A barbárie não precisa chegar ao poder carregando uma bandeira que anuncie seu nome, abolir eleições, fechar bancos ou destruir tribunais. Pode administrar, regulamentar, legislar, participar dos mercados, ocupar governos e transformar em normalidade aquilo que anteriormente aparecia como exceção.
Quando a ordem continua funcionando
O futuro brasileiro não deve ser pensado através da imagem de um colapso repentino. Essa imagem ainda pressupõe que a barbárie começará quando a ordem deixar de funcionar. O processo diante de nós é mais inquietante justamente porque a ordem pode continuar funcionando. A Bolsa abrirá pela manhã, bancos continuarão processando bilhões de operações, shoppings permanecerão cheios, plataformas digitais organizarão pagamentos, entregas, trabalho e comunicação, empresas produzirão, governos cobrarão impostos, parlamentos votarão leis e eleições continuarão sendo realizadas.
Simultaneamente, territórios permanecerão submetidos a poderes privados, recursos naturais serão apropriados violentamente, mercados ilícitos penetrarão circuitos formais, populações inteiras viverão fora das antigas promessas do trabalho e parcelas do Estado poderão converter-se em instrumentos particulares de acumulação. Essa é a hipótese que o Brasil coloca diante de nós: não a de um capitalismo que desaparece, mas a de um capitalismo que continua existindo enquanto perde progressivamente parte das formas civilizatórias através das quais aprendeu a legitimar-se.
Nesse sentido, o Brasil permite enxergar antes aquilo que outras sociedades ainda percebem apenas parcialmente.
A periferia não cria o futuro do capitalismo. Ela o manifesta antes do centro
E aquilo que se manifesta aqui possui um nome que, ao longo destes ensaios, ganha contornos cada vez mais precisos: economia da barbárie.
O próximo passo será compreender como essa forma de reprodução ultrapassa as fronteiras brasileiras e se articula com uma transformação mais ampla do capitalismo mundial. A questão deixa então de ser apenas por que a periferia produz configurações tão extremas de violência, informalidade, poder privado e espoliação. Passa a ser outra: em que medida aquilo que se tornou visível primeiro nas periferias começa agora a avançar sobre o próprio centro do sistema, reorganizando Estados, guerras, finanças, tecnologias e relações internacionais?
É nessa passagem da periferia ao centro que a economia da barbárie revela sua verdadeira dimensão histórica.