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A ironia dos privilégios

A ironia dos privilégios

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Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta, filho de João Pinheiro Neto”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Há mais de 60 anos, meu pai, João Pinheiro Neto, pagou com a liberdade por querer um Brasil mais justo.
Quando presidia a Superintendência de Política Agrária
(SUPRA), durante o governo João Goulart, advertiu: “Quem tem privilégios não os abandona sem reação.”
Era uma frase simples, mas que traduzia uma das
maiores dificuldades históricas do Brasil: enfrentar os interesses daqueles que sempre concentraram a terra, a riqueza e o poder político.
Meu pai conhecia bem essa realidade.
Aos 33 anos, havia sido ministro do Trabalho. Aos 34, dirigia a SUPRA, responsável pela política agrária do governo João Goulart.
Defendia as Reformas de Base, que pretendiam modernizar o país, ampliar oportunidades e reduzir desigualdades históricas.
Em 4 de abril de 1964, poucos dias após o golpe que depôs João Goulart, foi preso e levado à Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói.
Um mês depois, escreveu uma carta à minha mãe,
Leda, publicada pelo Correio da Manhã em 8 de maio de 1964.
Na carta, refletiu sobre sua condição privilegiada.
Tinha uma família, uma vida confortável e uma
carreira política promissora. Poderia ter escolhido a tranquilidade e a acomodação.
Mas, escreveu: “Como haveria de querer condenar tudo o que aí está, assumindo atitudes extremistas ou subversivas para com uma organização social que não me negara nada? Que, ao contrário, dera-me tudo. Apenas queria aperfeiçoá-la. Fazê-la para os outros tão magnânima o quanto estava sendo para mim. Só isto. Nada mais.”
Essa passagem resume seu pensamento político. Meu pai não lutava para conquistar privilégios
que lhe haviam sido negados. Lutava para que outros brasileiros tivessem as mesmas oportunidades.
Não pretendia destruir a sociedade que lhe dera tanto.
Queria torná-la mais justa para aqueles que tinham recebido tão pouco.
Por defender essas ideias, foi preso, perseguido e cassado por dez anos.
Há uma ironia cruel nessa história.
Aqueles que defendiam seus privilégios conservaram o poder. Quem queria compartilhá-los perdeu a liberdade.
Passaram-se mais de seis décadas.
O Brasil mudou, modernizou sua economia, mas continua convivendo com profundas desigualdades e resistências às reformas estruturais.
Anos depois, desiludido com os rumos da política,bmeu pai costumava repetir:
“Ninguém quer mudar nada neste país.”
Talvez porque mudar de verdade signifique enfrentar privilégios que atravessam gerações.
NMais de 60 anos depois, a pergunta permanece: Será que aprendemos alguma coisa?

Foto Correio da Manhã, 8 de maio de 1964.