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Quem terá coragem de discutir a terra?

Quem terá coragem de discutir a terra?

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Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta”,  autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.

Em 1964, João Goulart tentou enfrentar um dos problemas mais antigos do Brasil: a concentração da propriedade da terra.
Não pretendia acabar com a propriedade privada. Queria democratizar seu acesso, criar milhões de pequenos proprietários, ampliar a produção de alimentos e formar uma classe média rural.
Meu pai, João Pinheiro Neto, presidia a SUPRA, órgão responsável pela execução da reforma agrária.
Jango chegou a oferecer suas próprias fazendas para iniciar o processo. Queria demonstrar que a reforma deveria começar pelo exemplo.
Em 13 de março de 1964, no histórico comício da Central do Brasil, assinou o decreto que declarava de interesse social, para fins de desapropriação, determinadas terras às margens de rodovias, ferrovias e açudes federais.
Dezoito dias depois, veio o golpe militar.
A reforma agrária foi interrompida. Meu pai foi preso, cassado e afastado da vida pública.
Sessenta e dois anos depois, o Brasil tornou-se uma potência agrícola. Modernizamos máquinas, desenvolvemos tecnologias e conquistamos mercados internacionais.
Mas a estrutura fundiária continua profundamente concentrada.
A agricultura familiar, apesar de sua importância para o abastecimento interno e o emprego rural, ainda enfrenta dificuldades de acesso à terra, crédito e infraestrutura.
A questão nunca foi simplesmente dividir propriedades. Era democratizar oportunidades, ampliar o mercado consumidor e permitir que milhões de brasileiros participassem do desenvolvimento nacional.
Celso Furtado compreendia que não haveria desenvolvimento verdadeiro enquanto a riqueza permanecesse concentrada.
Jango também compreendia.
Hoje discutimos produtividade, exportações e recordes de safra. Mas quase ninguém pergunta quem se beneficia dessa prosperidade.
Em 1964, disseram que a reforma agrária ameaçava o Brasil.
Sessenta e dois anos depois, a pergunta permanece: ameaçava o Brasil ou os privilégios de quem sempre concentrou a terra?

Foto João Pinheiro Neto, presidente da SUPRA, examinando o mapa das áreas previstas para a reforma agrária. Dois protagonistas de um projeto de transformação do Brasil, interrompido pelo golpe de 1964.