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Lula tem uma única arma: O povo brasileiro nas ruas

Lula tem uma única arma: O povo brasileiro nas ruas

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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta”,  autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 As urnas falaram. Lula venceu mais uma eleição presidencial.
 Mas a pergunta que devemos fazer agora é outra: terá condições de governar e enfrentar os interesses que há décadas impedem as transformações estruturais do Brasil?
 A história oferece uma lição que não podemos ignorar.
 Em 1964, João Goulart compreendeu que não conseguiria realizar as reformas de base dependendo exclusivamente de um Congresso dominado por interesses conservadores.
 Decidiu então buscar apoio diretamente no povo brasileiro.
 Planejou uma série de grandes comícios pelo país. O primeiro aconteceu em 13 de março de 1964, na Central do Brasil, diante de uma multidão que exigia reformas agrária, urbana, educacional e tributária.
 Meu pai, João Pinheiro Neto, presidia a Superintendência de Política Agrária (SUPRA), órgão do governo João Goulart responsável pela execução da reforma agrária, uma das principais reformas de base propostas naquele período.
 Dezoito dias depois, veio o golpe militar.
 Jango não teve tempo de consolidar aquela mobilização. Mas deixou uma lição: reformas que contrariam privilégios dificilmente avançam sem participação popular.
 Lula conhece como poucos os mecanismos do poder brasileiro. Já governou, negociou com o Congresso, enfrentou crises e conhece os limites das alianças políticas.
 Agora, diante de mais um mandato, precisa compreender que sua maior força não está nos acordos de gabinete, mas nos milhões de brasileiros que o elegeram.
 Principalmente nos jovens.
 A mobilização estudantil e popular que vimos nesta eleição não pode desaparecer no dia seguinte à vitória.
 O Brasil precisa discutir permanentemente educação, juros, desigualdade, reforma agrária, reindustrialização e os privilégios que sobrevivem a todos os governos.
 Não se trata de desrespeitar o Congresso Nacional, mas de lembrar aos parlamentares que o poder emana do povo.
 Lula tem uma oportunidade histórica de transformar o apoio eleitoral em participação política organizada, pacífica e permanente.
 Não basta convocar o povo para votar de quatro em quatro anos. É preciso convidá-lo a participar das decisões sobre o futuro do país.
 Meu pai costumava dizer: “Ninguém quer mudar nada neste país.”
 Referia-se, naturalmente, àqueles que sempre se beneficiaram das estruturas de poder.
 Talvez tenha chegado a hora de provar que ele estava errado.
 Porque, no Brasil, político só respeita o povo quando o povo ocupa as ruas.