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Mônica Salmaso canta Elizeth Cardoso: A Cigarra e a Enluarada

Mônica Salmaso canta Elizeth Cardoso: A Cigarra e a Enluarada

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Um dia, mamãe anunciou:
— A Divina vem aqui fazer uma sirizada!
Divina, para mim, era a pizzaria onde se reuniam Roberto, Erasmo e companhia. Nadica disso! A Divina era sim-ples-mente Elizeth Cardoso, a Enluarada, que vinha à nossa casa, um apartamento de fundos na Tijuca, preparar uma sirizada.
Ela fazia o siri, tomava seu uisquinho e, como quem não quer nada, cantava à capela. A cena se repetiu algumas vezes. Aos poucos, fui sendo adotada como afilhada: mandava roupas, sapatos, presentes. Nunca esqueci uma sandália prateada.
Mas hoje o assunto é Mônica Salmaso, que chega ao Rio para um espetáculo dedicado às canções de Elizeth Cardoso. Extraordinária Cigarra. Uma voz doce, de afinação rara, postura elegante e uma capacidade de escolha de repertório que a coloca em um lugar muito especial entre as grandes intérpretes brasileiras. Para mim, a maior cantora deste século.
Mônica escolhe suas canções com um empenho e um cuidado que lembram aqueles artesãos capazes de construir barcos dentro de garrafas. Uma vez, perguntei por que fazia aquilo. A resposta foi simples: porque quero me sentir como co-autora..
Ouvi-la cantar é uma experiência rara. Há a voz, naturalmente, mas também o sorriso, a leveza, a delicadeza de sua presença. Um cristal fino, quase uma folha de papel, mas de precisão impressionante.
É esse universo que se encontra com a obra de Elizeth Cardoso em um espetáculo que volta ao Rio de Janeiro, cidade onde nasceu. Duas intérpretes separadas por gerações, mas unidas pelo rigor, pela dedicação ao ofício e pelo respeito absoluto à música. Elizeth, a Divina, tinha uma presença de palco impecável, uma elegância e uma beleza que não precisavam de artifícios. Mônica carrega essa mesma nobreza de interpretação, sem imitar, sem tentar reproduzir: encontra seu próprio caminho dentro da obra da outra.
A homenagem nasceu de uma visita de Mônica à Casa do Choro, onde encontrou Luciana Rabello e Mauricio Carrilho, músicos que também haviam acompanhado Elizeth nos anos 1980. A partir dali, começou uma pesquisa cuidadosa na extensa discografia da cantora. O resultado é um repertório que percorre sambas, sambas-canções, clássicos, pérolas esquecidas e até uma composição da própria Elizeth.
E que músicos! Luciana Rabello, no cavaquinho, Mauricio Carrilho, no violão de sete cordas, e Paulo Aragão, no violão, direção musical e arranjos, estão entre os grandes nomes do choro, gênero nascido no Rio de Janeiro e parte essencial da identidade musical carioca. Ao lado deles, Teco Cardoso, Nailor Proveta, Aquiles Moraes, Magno Julio e Marcus Thadeu formam um conjunto de excelência. Não são apenas acompanhantes: são artistas que compreendem profundamente o repertório e dão a ele novas possibilidades.
O projeto, que estreou em 2022, ganhou registro em disco pela Biscoito Fino. As 16 canções foram gravadas ao vivo em estúdio, em um único dia, durante a temporada carioca de 2025. Mônica conta que foi uma das sessões mais bonitas de que participou. E há uma história deliciosa em torno de “Carta de Poeta”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, que quase ficou de fora do álbum. Depois de conhecer a gravação de Elizeth, Mônica se apaixonou pela canção e decidiu incluí-la.
Termino com uma confissão. Foi a primeira vez em que fui a um show de Chico Buarque, na turnê Que Tal um Samba?, em 2023, sem fazer aquilo que sempre faço: cantar todas as músicas, gritar, aplaudir, participar de cada instante como uma fã completamente entregue. A abertura escolhida por Mônica foi tão encantadora que meu desejo mais sincero era que o show inteiro fosse dela. Virei Presidente de Fã-Clube.
Serviço
Mônica Salmaso canta Elizeth Cardoso
Teatro Riachuelo Rio
4 de novembro — única apresentação.
Com Mônica Salmaso e os músicos Luciana Rabello, Mauricio Carrilho, Paulo Aragão, Teco Cardoso, Nailor Proveta, Aquiles Moraes, Magno Julio e Marcus Thadeu.

Carioca, professora, publicitária, colunista e doutora em Artes e Indústria do Entretenimento, Claudia Chaves vive entre teatros, restaurantes, bares e museus em busca de boas histórias. Já escreveu para a Mastercard Black, Veja Rio, Jornal do Brasil e outros veículos. Nesta coluna, junta gastronomia e teatro como quem sabe que grandes espetáculos também acontecem à mesa. Observadora profissional da vida carioca, ela acredita que uma boa conversa pode começar num palco e terminar num bar. E faz um ótimo camarãozinho com chuchu