Inteligência artificial sofre com a vitória dos democratas
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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
A vitória dos democratas nas eleições americanas trouxe uma preocupação inesperada para Wall Street: o custo ambiental e energético da revolução da inteligência artificial.
Na reação dos mercados ao resultado eleitoral, o Nasdaq 100, índice que reúne cem das maiores empresas negociadas na bolsa Nasdaq, com predominância das empresas de tecnologia, chegou a perder mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado.
Mas o que a política tem a ver com isso?
Durante anos, as gigantes da tecnologia convenceram investidores de que a inteligência artificial seria a próxima grande revolução econômica. Microsoft, Google, Amazon e Meta passaram a anunciar investimentos bilionários na construção de enormes data centers, instalações que abrigam milhares de servidores responsáveis pelo processamento e armazenamento de dados.
O problema é que essa revolução não funciona apenas com algoritmos. Precisa de quantidades extraordinárias de eletricidade e água.
Os servidores operam ininterruptamente, exigindo sistemas de refrigeração capazes de impedir o superaquecimento dos equipamentos. Dependendo da tecnologia utilizada, um grande data center pode consumir milhões de litros de água diariamente.
E, a eletricidade? Quem vai fornecê-la?
Em várias regiões americanas, a expansão desses empreendimentos já provoca resistência das comunidades, preocupadas com a capacidade das redes elétricas, o aumento das tarifas de energia e a utilização dos recursos hídricos.
Enquanto os gigantes da tecnologia projetam lucros extraordinários, famílias americanas enfrentam dificuldades para pagar contas de luz, alimentação e moradia.
A pergunta é inevitável: quem vai pagar pela revolução da inteligência artificial?
Os democratas perceberam que essa insatisfação também poderia se transformar em votos. Fortalecidos pelo resultado eleitoral, prometem investigar acordos do governo Trump com empresas de energia e ampliar a fiscalização sobre a construção de novos data centers.
Wall Street entendeu o recado.
Se os novos projetos enfrentarem restrições ambientais, exigências de infraestrutura ou atrasos na obtenção de licenças, parte dos investimentos previstos poderá ser adiada. Isso comprometeria as expectativas de crescimento das empresas que fornecem chips, equipamentos e sistemas de armazenamento.
Não significa que a inteligência artificial deixou de ser uma revolução tecnológica. Significa que os investidores começaram a questionar quanto custará sustentá-la e quando os investimentos produzirão os lucros prometidos.
Existe ainda uma contradição geopolítica.
Enquanto os Estados Unidos discutem os limites ambientais e energéticos dessa expansão, a China continua investindo pesadamente em geração de eletricidade, infraestrutura digital e desenvolvimento tecnológico.
Pequim dispõe de instrumentos de planejamento estatal que permitem coordenar investimentos de longo prazo. Isso não elimina seus próprios problemas ambientais e energéticos, mas pode representar uma vantagem numa disputa em que velocidade e capacidade de execução são fundamentais.
Restrições americanas mal planejadas poderão, involuntariamente, favorecer a China na corrida pela liderança mundial da inteligência artificial.
É evidente que a queda das ações também reflete avaliações excessivas, juros elevados e dúvidas sobre o retorno dos investimentos bilionários. Seria simplista atribuir toda a correção à vitória democrata.
Mas a eleição trouxe uma discussão que estava sendo deixada em segundo plano: o progresso tecnológico não pode ser medido exclusivamente pelo valor das ações nas bolsas.
Quem constrói um data center precisa responder de onde virá a eletricidade, quem financiará a expansão das redes e como será preservado o abastecimento de água das comunidades.
Não se trata de ser contra a inteligência artificial, muito menos de impedir a inovação. Trata-se de estabelecer responsabilidades e impedir que os custos sejam transferidos à população enquanto os lucros permanecem concentrados.
O desafio dos democratas será encontrar esse equilíbrio sem comprometer a liderança tecnológica americana.
Afinal, de que adianta desenvolver máquinas cada vez mais inteligentes se não houver inteligência suficiente para administrar os recursos naturais?
A inteligência artificial pode transformar o futuro da humanidade. Mas não deveria fazer isso às custas da água e da eletricidade de quem já tem dificuldades para pagar suas contas.


