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Para Ler na Rede: Os entusiasmantes sotaques latinos

Luiz Claudio de Almeida 11 de novembro de 2023 4 minutes read
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As vozes dos povos têm mais semelhanças do que expressam idiomas e infinitos sotaques. A cultura se entranha na forma de boa parte de seus escritores, o que se notabiliza, geralmente, em biografias. As confidências — uma constante na atual onda de autoficção — de duas escritoras italianas podem provocar a mesma reação de enlevo nos leitores. Os textos de ambas as   Teresas – Cremisi, uma jornalista que recusou a classificação de autobiografia para A triunfante (Ayiné, R$ R$ 20,90 – a editora está fazendo uma excelente promoção para reduzir seus estoques), um romance “inspirado”, em sua vida,  e Ciabatti, que apresenta personagens exuberantes ao reconstruir a trajetória de sua família em A mais amada (Ayinê, R$  39,95) — são totalmente arrebatadores. Daqueles que quase impedem desempenho de tarefas cotidianas para a entrega absoluta à leitura.

As duas Teresas descrevem suas diferentes experiências com um entusiasmo cativante, uma tradição que escritoras italianas mantêm desde Elsa Morante, passando pela grande Natalia Ginzburg e chegando à enigmática Elena Ferrante.  Enquanto a filha única Teresa Cremisi cresceu no Egito dentro de uma família harmoniosa, Teresa Ciabatti participou de um núcleo familiar agitado. O pai, diretor de um hospital em Orbetello, na Toscana, era figura importante na região, de ligações políticas e com a contravenção insinuadas, porém desconhecidas para a mulher e os filhos. A pequena Teresa se considera a favorita do pai, privilegiada como uma princesa na sociedade local. Já Teresa Cremisi, nascida italiana em solo estrangeiro, decide abraçar o catolicismo na infância para se integrar ao grupo de colegas – e vem a descobrir, adolescente, que tem origem judaica, embora a família não professasse qualquer religião.

Apesar de seus questionamentos quanto à real identidade do pai, médico de origem humilde com especialização em hospitais norte-americanos – quem teria custeado esses estudos? —, sequestrado à mão armada na frente dos filhos — crime jamais esclarecido ou registrado —, tratado como um aristocrata por seus subordinados e pela população da cidade provinciana, Teresa Ciabatti dedica a ele seu livro, no qual apaga ao máximo a figura do irmão gêmeo e oblitera a da mãe, uma anestesista que sofre de depressão, apaixonada pelo marido bem mais velho,  um adúltero contumaz. Com uma narrativa de retorno às sensações da infância e adolescência, requerendo a proteção paterna, hostilizando a mãe, o livro obteve a segunda colocação do Prêmio Strega, o mais relevante da literatura italiana, em 2017.

Teresa Cremisi, que escolheu viver na França, enfrenta a falta de pertencimento comum tanto aos filhos únicos quanto aos estrangeiros em solos não-nativos.  O romance é dedicado aos pais, com quem manteve uma relação intensa, apesar da solidão de menina sem irmãos, que se fortalecia pela leitura de inadequados sociais como Josef Conrad (o marinheiro polonês que virou inglês) e Lawrence da Arabia (o inglês que amou a cultura árabe), tornados referências pessoais.  A Triunfante do título está longe de ser a protagonista. É o nome de uma corveta do século XIX, cuja imagem a narradora relaciona à inquietação dos embarcados distantes da segurança da terra firme.

Há três anos, a Câmara Brasileira do Livro criou a categoria “romance de entretenimento” no Prêmio Jabuti, que seria destinado a narrativas que prendem o leitor pelo enredo, não pela arte no uso da língua. A distinção é um tanto preconceituosa, mas se adequa com perfeição a Três  (Intrínseca, R$  89,90), da francesa Valerie Perrin, que aborda uma amizade ao longo de trinta anos e vai agradar em cheio quem procura uma leitura agradável e nem tão escapista assim. Nina e os garotos Étienne e Adrien tornam-se inseparáveis até a idade adulta, quando saem em busca de ideais próprios.  Ao se reencontrarem, voltam a se entender quase por instinto, prontos a defenderem uns aos outros diante de preconceitos e crises diversas. Autora do best-seller Água fresca para as flores, Valerie Perrin, que colaborou em quatro roteiros de filmes de seu marido, o cineasta Claude Lelouch, monta uma história delicada e romântica, que revela gradualmente os segredos de cada protagonista.

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