
Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
A megaoperação policial, deflagrada nos últimos dias de agosto, contra o Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, foi celebrada como a maior da história brasileira.
A situação é ainda mais alarmante quando se considera que hoje cerca de 26% da população brasileira, ou cerca de 50 a 60 milhões de pessoas, vive sob o domínio direto de facções criminosas ou milícias.
Não é, então, por acaso que a operação tenha sido vazada. Quando Estado e crime se entrelaçam estruturalmente, a repressão se torna seletiva, tratada internamente: Há policiais que alertam alvos, parlamentares que intercedem por aliados, juízes que interpretam a lei ao sabor do cliente.
Esse arranjo define o capitalismo brasileiro: Um capitalismo de compadres! Convenhamos: Aqui, nunca houve mercado impessoal ou Estado neutro, como exalta o capitalismo de mercado.
E as milícias reforçam esse quadro!
O que escandaliza não é somente o vulto dos recursos ou a sofisticação dos esquemas, mas a naturalidade com que o crime atravessa a Faria Lima. Finanças legais, Fintech e fundos se tornam lavanderias sofisticadas para dinheiro ilícito.
O Parlamento, por sua vez, cristaliza este cenário dantesco. Longe de ser ator regulador, tornou-se balcão de negócios financiado pelos mesmos agentes que operam com imunidade. Bancos, agronegócio, mineradoras, empreiteiras, milícias e facções financiam campanhas e compram influências.
Mas é importante deixar bem claro que esse quadro não é somente nacional. Ele se apresenta em escala global e reflete a crise estrutural do capitalismo contemporâneo. Estarrecidos, vemos nos últimos tempos a ascensão do poder das oligarquias como força política direta. O caso de Donald Trump nos Estados Unidos é sintomático: Um bilionário do setor imobiliário e do entretenimento convertido em chefe de Estado, símbolo da captura populista do poder por frações do capital. O mesmo vale para a emergência de oligarquias na Rússia, na Índia ou em países latino-americanos, onde fortunas privadas comandam partidos, mídias e milícias digitais. Ao lado disso, temos o domínio transnacional das Big Techs, que hoje são tão ou mais poderosas que Estados nacionais. Google, Apple, Amazon, Meta e Microsoft não são somente empresas: controlam infraestruturas essenciais, acumulam dados de bilhões de pessoas e exercem poder regulatório de fato.
No Brasil, a intermediação de discursos políticos como o do Pix de Nikolas Ferreira só alcançou efeito de massas porque circula dentro dessas plataformas — que, ao mesmo tempo, lucram com a viralização e moldam a esfera pública. Portanto, este cenário não é exceção, mas o retrato de uma modernização periférica em colapso que se conecta à crise global do capital. Instituições fazem-se de aparência; o país perde soberania sobre territórios, cadeias produtivas e circuitos financeiros. A grande verdade é que o Estado brasileiro não é soberano pleno, mas mediador frágil entre compadres que disputam fragmentos de ordem. A megaoperação não expôs o poder da lei, mas a fragilidade de quem já não distingue repressão de conivência, combate de parceria.
O futuro que se vislumbra não é de um Estado que derrota o crime, mas de um Estado que administra sua convivência: ora encenando repressão espetacular, ora garantindo continuidade silenciosa dos negócios. Banqueiros e traficantes, parlamentares e milicianos, empresários e policiais corruptos não são opositores, mas sócios assimétricos. O espetáculo repressivo oculta que, por trás da farda e do terno, não existe distinção clara entre quem governa e quem delinque — e que até mesmo vídeos virais ou campanhas eleitorais de bilionários se convertem em engrenagens da mesma máquina.
Diante disso, é importante compreender que não há saída possível nos quadros do capitalismo. Promessa de repressão eficaz, regulação transparente ou reforma institucional legítima é pura ilusão — o sistema já incorpora crime, finança, oligarquia e Big Tech como solicites do mesmo tabuleiro. Está tudo dominado! Essa engrenagem não pode ser moralizada, corrigida ou reformada: só pode ser superada.
O desafio histórico é romper a lógica que torna crime e capital indissociáveis, e buscar outros caminhos fora do império irracional da valorização do valor. Se 26% da população vive sob facção e 25% dos negócios globais são ilícitos, esses números não são estatísticas dispersas — são sinais de que o capitalismo entrou em seu limite histórico. Chega de ilusões! A questão não é como consertar o sistema, mas como abandoná-lo. Temos que pensar e construir outros caminhos para sairmos deste inferno !






