
Sob pseudônimo, em 2007, a argentina Aurora Venturini (1921-2015) inscreveu o romance “As primas” (Fósforo, R$ 55,40) em um concurso literário para novos autores do jornal Página/12. Tinha 85 anos, uma carreira consolidada como escritora e tradutora, havia vivido na França e feito amizade com o grupo de intelectuais mais celebrados da época – Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Eugene Ionesco e Albert Camus, entre outros. Circunscrita, até então, ao meio editorial, ganhou o concurso, surpreendendo pela atualidade e vitalidade do tema. Ambientou “As primas” em época bem anterior às comodidades tecnológicas contemporâneas. E montou uma trama incômoda e instigante, narrada pela menina Yuna, cuja falta de habilidades cognitivas é compensada pelo talento na pintura.
Criada pela mãe, “uma professorinha mixuruca”, ao lado da irmã que sofre de graves deficiências mentais e motoras, a menina cresce como prodígio artístico, incentivada por um professor que se infiltra na família e pela pragmática prima Petra, cujo nanismo não impede suas atividades profissionais como prostituta. Homens têm participação episódica – mas intensa – no meio da família. O pai de Yuna se foi quando as filhas eram pequenas. Um vizinho engravida uma prima adolescente, que morre em consequência do aborto. Um tio é mencionado mais como provedor e ausente das decisões daquelas mulheres que encontram formas de se impor ao mundo exterior, apesar de fugirem a padrões físicos e mentais dos vizinhos.
O talento de Yuna permite que tome a frente do sustento da casa, e, ao lado de Petra, define os rumos da família inteira. A ascensão social e material através da arte forjam sua maturidade – auxiliada pela sempre surpreendente Petra. Quando a pobreza e as debilidades deixam de defini-las, também se reduzem as descrições escatológicas do cotidiano que inclui cuidados com a irmã-bebê. A ingenuidade de Yuna lembra a da personagem Bella Baxter, do livro “Pobres criaturas”, cuja adaptação cinematográfica deu o Oscar à atriz Emma Stone. Bella, uma mulher que recebe um transplante de cérebro de um bebê, raciocina como uma criança pequena, reagindo intensamente às descobertas do cotidiano – exatamente como Yuna.
Se Aurora Venturini demorou a ser reconhecida na Argentina, no Brasil só veio a ser publicada em 2022. No ano passado foi lançado aqui “Nós, os Caserta” (Fósforo, R$ 58), que traz mais um grupo de pessoas esquisitas. É narrado por Chela, uma superdotada com personalidade perversa, cuja aparência da menina, morena, de cabelos escuros, não corresponde ao ideal da família esnobe e racista, descendente de italianos, espanhóis, nativos e afro-argentinos. Se “As primas” trata da visão social dispensada aos pobres e enjeitados, “Nós, os Caserta” desnuda a elite argentina que se via como branca e europeia. Uma história que continua atual, embora lançada nos anos 1960.
Mitos Yorubás – O outro lado do conhecimento (Civilização Brasileira, R$ 79,90), do historiador e especialista em religiões de matriz africana José Beniste, ganha nova edição e preenche uma lacuna cultural brasileira: o conhecimento sobre as divindades mitológicas que norteiam boa parte da população no país. Para continuar professando suas crenças, os escravizados africanos passaram a usar os nomes dos santos católicos no lugar das entidades que cultuavam, popularizando os ritos. No entanto, as noções sobre origem do mundo, a criação do homem e a relação com o sagrado ficaram quase restritas a seus fiéis. Na base desses rituais está a cultura yorubá, nascida na Nigéria, que chegou ao Brasil na forma do candomblé Ketu, inspirador das práticas religiosas no País e que tanto contribuíram para a formação do povo brasileiro.
Bibliotecas públicas e de escolas de alguns estados norte-americanos podem, desde 2022, excluir livros de seus acervos por temáticas consideradas inadequadas para jovens. Segundo o francês Marc Levy, 30% dos títulos censurados abordam o racismo ou são protagonizados por negros, entre eles o clássico “O sol é para todos”. Outros livros no índex são as distopias “Laranja mecânica”, “Admirável mundo novo” e “1984”, além de “O diário de Anne Frank” e “O apanhador no campo de centeio”. A censura inspirou o francês Marc Levy a criar “A livraria dos livros proibidos” (Faro Editorial, R$ 64,90). No romance, um livreiro acaba na cadeia por reservar uma sala para leitores interessados na leitura desses títulos.
Finalista do prêmio Jabuti deste ano, Jefferson Tenório aborda o racismo brasileiro – que lhe garantiu a premiação em 2020, com “O avesso da pele” – em “De onde eles vêm” (Companhia das Letras, R$ 67,90), romance que acompanha a trajetória ficcional de um dos primeiros cotistas em universidade pública brasileira. Joaquim, que mora com a avó inválida em Porto Alegre, precisa enfrentar toda sorte de dificuldades financeiras e sociais para não desistir da graduação no curso de Letras. Visto com complacência por professores e colegas, ele se agarra à oportunidade de estudar para realizar o sonho de ser escritor, enquanto supera as críticas silenciosas quanto à inadequação das políticas que tentam amenizar as desigualdades sociais.





