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Intervenção, captura e chantagem

Arlindenor Pedro 8 de janeiro de 2026 11 minutes read
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   A madrugada de 2 de janeiro de 2026 será lembrada como um novo e controverso capítulo na história recente da América Latina.
   O governo dos Estados Unidos confirmou a realização de uma operação militar em Caracas, que culminou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, levados sob custódia para território norte-americano, sob acusações de narcotráfico e terrorismo.
   Donald Trump declarou que os EUA estavam “no controle” da Venezuela, reafirmando planos de restauração da produção petrolífera nas mãos de empresas como Chevron, ExxonMobil e outras corporações americanas. Com isso, atendeu diretamente aos desejos de um importante setor econômico que lhe deu sustentação política para alcançar um segundo mandato presidencial. Após o ocorrido, a declaração de Marco Rubio, secretário de Estado, reforçou aquilo que interpreto como a estratégia imperial em sua forma mais explícita.
   Disse ele que”os Estados Unidos não pretendem” governar” a Venezuela, mas o país condiciona qualquer normalização política e econômica a mudanças estruturais profundas, no setor energético
    Essa retórica de neutralidade administrativa, que conheço bem, encobre a imposição de preceitos estruturais do capital global como critério para a própria sobrevivência dos Estados periféricos. Trata-se de uma forma de dominação que já não depende da ocupação formal, mas da gestão indireta de ativos estratégicos por meio da coerção econômica e diplomática.
A presença permanente da Frota Naval norte-americana no Caribe aparece, aos meus olhos, como um instrumento constante de intimidação regional.     Qualquer tentativa de insubordinação à lógica do capital é imediatamente tratada como ameaça à chamada “segurança hemisférica”.
   O novo governo chavista, instaurado sob a tutela militar e diplomática, já recebeu avisos diretos de Trump: Ou se alinha às “regras do mercado”, ou enfrentará novos bombardeios e a implementação de um bloqueio total. A política externa americana opera, assim, como chantagem explícita, um sistema de extorsão travestido de legalidade e moralidade ocidental.
A operação militar contra Maduro me parece somente o ponto culminante de uma estratégia econômica de longa duração, iniciada com as sanções dos EUA e o bloqueio de ativos venezuelanos logo após a chegada dos chavistas ao poder.
   As reservas dos seus ativos no exterior há muito tempo foram congeladas. Ela foi excluída, também, do sistema SWIFT, e os bens de suas empresas no exterior foram confiscados. A Venezuela perdeu o crédito no sistema bancário internacional e houve uma tentativa de destruição deliberada da capacidade da PDVSA, estatal que controla as principais reservas de petróleo do mundo e alvo declarado do governo americano. Tudo isso com o objetivo de forçar uma reestruturação favorável às frações do capital global e restituir o controle total da produção às empresas americanas.
O que se desenrola na Venezuela, portanto, não é uma exceção, mas um modelo de intervenção contemporânea. O capital em crise busca zonas de valorização forçada, e a imposição de reformas já não se realiza por meio de pactos, mas por cerco, fome e colapso estatal. A coerção substitui o consenso, revelando a transição da hegemonia para a brutalidade sistêmica.
A reação de Rússia e China à captura de Maduro, que até o momento se limitou ao campo diplomático protocolar, não deve, a meu ver, ser interpretada como solidariedade ideológica. O apoio de Moscou e Pequim sempre se baseou em interesses geopolíticos e energéticos bem definidos. A Venezuela é somente uma peça no tabuleiro multipolar, e isso não significa que exista uma verdadeira alternativa civilizatória em disputa.
A chamada multipolaridade somente fragmenta o domínio do capital, sem jamais o questionar. O Sul Global converte-se em campo de operações das potências concorrentes, sem que nenhuma delas proponha qualquer ruptura com a lógica da valorização. O conflito entre polos capitalistas resolve-se sempre às custas das populações periféricas.
A América Latina continua  presa à sua função estrutural, na divisão global do capital: Fornecedora de matérias-primas, campo de manobra para frações extrativistas, laboratório de ajustes e zona permanente de contenção social.
   A crise venezuelana ilustra com clareza o fracasso dos projetos populistas nacionalistas que, mesmo buscando redistribuir renda e ampliar o acesso a bens sociais, não romperam com a lógica exportadora nem com o fetiche do desenvolvimento.
O bolivarismo tentou utilizar o excedente do petróleo para financiar políticas sociais, mas ao manter-se prisioneiro da forma-Estado e da dependência da renda externa, colapsou assim que a lógica do valor perdeu fôlego. Em vez de se opor à dominação, sua política acabou se adaptando aos seus limites internos, até ser tragada por eles.
Nesse vácuo de governabilidade, a atuação na economia dos chamados “ilícitos”, o narcotráfico e a corrupção passaram a funcionar como elementos estruturantes de um Estado em desintegração. Cadeias ilegais substituíram serviços básicos, enquanto a acusação de “narco terrorismo” foi mobilizada como justificativa para novas intervenções imperiais.
   O crime organizado aparece tanto como sintoma da falência estatal, quanto como pretexto funcional para a recolonização. A soberania já não é somente violada de fora: ela implode por dentro e vai corroendo o corpo da própria revolução bolivariana.
Esse padrão de coerção não é novo. Em 1890, o Império Britânico impôs um ultimato à monarquia portuguesa, exigindo a retirada de tropas da região entre Angola e Moçambique, frustrando o projeto do chamado “Mapa Cor-de-Rosa”, que previa a unificação territorial africana sob domínio luso. A ameaça de guerra forçou Portugal a recuar, deslegitimando sua monarquia e acelerando uma profunda crise interna. De repente, os portugueses viram, às portas de Lisboa e do Porto, as canhoneiras britânicas com seus canhões apontados para suas populações.
   Humilhados, o povo português e o seu seu governo tiveram que capitular. A crise foi tamanha que, logo após, a monarquia caiu e a República foi instaurada nas terras lusitanas.
Esse episódio sempre me pareceu revelador de um traço constante da história moderna: Estados periféricos que desafiam, mesmo parcialmente, os interesses geoestratégicos do centro capitalista são punidos. O caso venezuelano atual, com sua tentativa de autonomia energética, segue a mesma lógica imperial. Sair do eixo dominante significa, quase sempre, assinar o próprio colapso.
A reorganização das elites dos Estados Unidos reflete  a crise interna do próprio projeto neoliberal. As frações industriais, militares e energéticas, representadas politicamente por Trump e sua base, impõem uma guinada autoritária e expansionista. A captura de Maduro tornou-se o símbolo dessa virada, que abandona a diplomacia tradicional e aposta no poder direto como eixo central da dominação.
Essa lógica ficou ainda mais evidente quando Trump voltou a defender, publicamente, a incorporação da Groenlândia aos Estados Unidos por motivos estratégicos e energéticos.
  Aquilo que parecia grotesco, em 2019, tornou-se coerente em 2026: O território passa a ser tratado como ativo, e o planeta, como um portfólio geopolítico. É a mesma racionalidade que rege o colapso venezuelano: O imperialismo financeiro e militar avança justamente onde o capital já não consegue mais se expandir de forma orgânica.
Desde 2008, observo que o capital enfrenta um ciclo de desvalorização que não se resolve com ajustes pontuais. A financeirização se esgotou, o endividamento generalizado tornou-se um risco sistêmico e a produtividade declinante deslocou a concorrência para o plano geopolítico. O colapso da hegemonia econômica produz uma era de militarização global, na qual OTAN, China, Rússia e Estados Unidos disputam posições em todos os continentes.
   À medida que os mecanismos artificiais de sobrevivência do capital se esgotam, sua reprodução passa a depender cada vez mais da força. O mundo transforma-se em campo de batalha: Do Mar da China ao Caribe, do Sahel ao Ártico, a guerra substitui a política, e a dominação direta substitui o mercado.
A lição central que extraio da Venezuela é clara e incômoda: Não é possível construir  bem-estar popular utilizando os mesmos fundamentos que estruturam a dominação capitalista. O valor, o dinheiro, o trabalho abstrato e o Estado moderno não são ferramentas neutras; são, em si, as formas sociais da crise.
Todos os países da periferia enfrentam hoje a tensão permanente entre uma base social pauperizada e uma classe média aspiracional, moldada pelo desejo de consumo global. A crise não é somente econômica. Ela é ontológica. A forma de vida capitalista já não consegue se realizar plenamente nem em seu centro, muito menos em suas margens.
   Em um capitalismo em crise, que aponta para um futuro distópico, automatizado e excludente, com poucas perspectivas de trabalho e estabilidade, essa contradição explode de forma cada vez mais violenta. Mesmo diante do colapso, essa classe média busca consumir, viajar, financiar, investir, exigindo estabilidade monetária e integração global ao mesmo tempo, em que o sistema que sustentava esses desejos se dissolve. Trata-se do conflito entre uma forma de vida em ruína e um imaginário que já não se realiza.
Por isso, entendo que o caminho não está em retornar ao passado nem em simplesmente ajustar erros. É necessário superar o próprio campo das alternativas capitalistas, que se estreita a cada dia. Isso significa começar a desmercantilização a vida, valorizar o valor de uso dos bens produzidos e reconstruir a autonomia material e social em bases não abstratas. Não se trata de um devaneio, mas de uma resposta racional à catástrofe real. Ser verdadeiramente independente exige sair da lógica capitalista. Trata-se, portanto, da utopia de uma sociedade emancipada que pode ser claramente realizada. Se o capitalismo, o seu modo de ser, foi criado pelo homem, ele pode ser repudiado e construído outro sistema, outro tipo de relações entre os seres humanos. Tenho a inteira convicção de que o sistema capitalista é hoje o nosso principal inimigo. Ele ameaça a própria existência dos seres humanos e, por isso, deve ser repudiado e substituído.
A Venezuela não fracassou por falta de recursos ou de vontade política, mas porque tentou resistir utilizando as mesmas categorias que estruturam a dominação mundial. Essa é, para mim, a lição mais profunda e mais urgente a ser compreendida. O caso venezuelano é mais do que um colapso nacional; é uma advertência histórica. Nenhuma economia periférica sairá da miséria por meio de renegociações com o sistema financeiro internacional, do endividamento externo ou de reformas pró-mercado. Tudo isso somente aprofunda a dependência, sob novas roupagens.
Romper com esse ciclo exige mais do que programas progressistas. Exige questionar as próprias formas sociais do capital: o valor, o trabalho abstrato, o dinheiro e o Estado. É preciso reconstituir a vida social com base em critérios não mercantis, desmercantilização das necessidades, revalorizando o“ valor uso”, a cooperação e a autonomia material. Isso não é um sonho que não pode ser realizado. Pelo contrário! É a única condição de sobrevivência que temos. A construção de um novo ideário baseado nessas premissas torna-se uma tarefa urgente, que somente o campo da esquerda pode assumir com coerência histórica. Construir tais parâmetros, construir um programa mínimo, é uma urgente tarefa histórica que pode unificar as esquerdas até o momento desmobilizadas.
O país venezuelano, ao implodir, revela a falência da modernização periférica. Ou a América Latina assume uma ruptura radical com o capital, ou continuará eternamente gerida por sanções, frotas militares e colapsos cíclicos. O tempo da escolha histórica está, a meu ver, perigosamente curto.

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