
Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
No meu ensaio anterior, (Venezuela: Uma lição histórica sobre os limites de um regime reformista dentro do capitalismo). escrevi que a experiência venezuelana é uma lição histórica sobre os limites de um regime reformista que buscou se sustentar dentro das formas do capitalismo. Afirmei que, sem romper com o valor, o dinheiro e o trabalho abstrato, qualquer tentativa de soberania popular está condenada ao colapso.
Os acontecimentos se agravaram de forma ainda mais brutal. A captura de Nicolás Maduro em 2026 e a escalada da intervenção norte-americana demonstraram, com clareza, que a crise venezuelana não se resume à derrocada de um governo, mas expressa diretamente o que Robert Kurz chamou de guerra de ordenamento mundial.
O processo de destruição da Venezuela como projeto social não se dá apenas por erros internos ou autoritarismo. A lógica do capital globalizado já não tolera zonas de disfunção econômica ou tentativas de autonomia.
Quando essas zonas persistem, como no caso venezuelano, são submetidas a um cerco difuso: Bloqueios, sabotagens, chantagens financeiras e, por fim, intervenção direta. Trata-se de uma racionalidade sistêmica que abandonou as mediações políticas e se reconfigura pela violência como forma de reordenamento global.
Revisitar a teoria da crise, do filósofo alemão Robert Kurz , notadamente, em seu livro ” A Ordem de Reordenamento Mundial” , me permitiu compreender a profundidade do que está em jogo.
A Venezuela tentou implementar um modelo distributivista sem romper com a lógica da valorização capitalista. A dependência do petróleo foi mantida, o dólar continuou como referência implícita, e a forma estatal moderna seguiu como mediadora da economia. Quando a renda petroleira colapsou, o governo buscou sobreviver com controles e subsídios, mas a substância do valor, o trabalho abstrato, já havia se tornado insuficiente para sustentar qualquer ciclo de reprodução estável.
Essa crise não é exclusivamente venezuelana, nem apenas regional. É global. A terceira revolução industrial dissolveu a base ontológica do valor. O tempo de trabalho deixou de ser a medida eficaz da riqueza e, com isso, o capital entrou em colapso estrutural.
Na ausência de valorização real, restam os mecanismos de coerção e destruição. A guerra de ordenamento mundial se apresenta , então, como forma de gestão de um mundo que já não pode se reproduzir pelas vias econômicas convencionais.
A designação da Venezuela como “ameaça à segurança hemisférica” foi o rito de passagem para justificar o uso irrestrito da força. Navios foram apreendidos, rotas comerciais bloqueadas, a moeda nacional sabotada.
O que se viu foi a imposição de uma nova forma de dominação que Kurz descreve como estado de exceção permanente. As normas do direito internacional foram contornadas, instituições multilaterais silenciadas, e a força passou a ser mecanismo ordinário de regulação econômica.
Nesse contexto, o uso do comando econômico tornou-se ainda mais explícito quando o presidente Donald Trump afirmou que, como condição para o “acordo” sobre a renda petrolífera, a Venezuela , sob o cerco de sua poderosa força militar, só poderia gastar as receitas da venda de seu próprio petróleo em produtos fabricados nos Estados Unidos: Alimentos, medicamentos, infraestrutura energética, excluindo compras de tecnologia ou armamentos da Rússia, da China ou de qualquer outro parceiro geoestratégico.
Essa imposição é mais que um embargo: É uma nova forma de escravidão econômica.
Um país com as maiores reservas de petróleo do mundo transformado em comprador compulsório de seus próprios agressores. Uma experiência em curso de submissão total. O máximo da humilhação. E a pergunta que ecoa entre nós é inevitável: quanto tempo a Venezuela poderá resistir?
Saberá o seu povo encontrar a saída para sair deste atoleiro?
Porque o mais alarmante é que essa experiência não termina na Venezuela.
Ela pode ser replicada em outros países da América Latina. Cuba e Colômbia já estão ameaçadas. E o Brasil, certamente, já está na linha de visada.
Se o modelo aplicado à Venezuela se transformar em norma, o Brasil pode ser o próximo alvo. Ainda preservamos certa autonomia comercial e política no contexto do bloco dos BRICS, mas até quando? Seremos autorizados a manter nossas relações estratégicas com a China? Continuaremos vendendo alimentos, minérios e petróleo para o mercado asiático? Poderemos importar tecnologia russa ou firmar acordos energéticos com a Índia? A política de coerção aplicada à Venezuela sinaliza que, em um mundo sob reordenamento forçado, alianças autônomas e comércio alternativo serão tratados como ameaças à segurança do centro. O que está em curso é uma doutrina imperial que transforma qualquer tentativa de soberania econômica em motivo para punição exemplar.
Diante disso, a ideia de que bastaria ao Brasil escolher entre ocidente e oriente, entre EUA e China, é profundamente ilusória. O verdadeiro dilema é mais radical: ou permanecemos dentro do sistema global de valorização, sob hegemonia dos EUA, aceitando os limites impostos pelo capital em crise, ou buscamos uma ruptura categorial que nos permita pensar formas de vida para além da economia, pois de nada nos adianta sair para uma zona de influência para cair em outra, pois sabemos que esta crise tem um caráter global.
Neste momento, visitar os conceitos da crítica do valor-dissociação desenvolvida pela pensadora alemã Roswitha Scholz ilumina os efeitos mais profundos da crise.
A destruição do tecido social venezuelano atingiu em cheio os sujeitos historicamente relegados à esfera da reprodução da vida. Mulheres, sobretudo, foram lançadas à informalidade, à migração forçada, à sobrecarga do cuidado familiar não remunerado. A precariedade de serviços básicos recaiu sobre elas, enquanto o discurso oficial seguia centrado na abstração do “povo soberano”.
A guerra contra a Venezuela não foi apenas militar ou econômica, mas também dirigida contra a esfera dissociada do capital: aquela que o sistema não reconhece como produtiva, embora dela dependa. A destruição da reprodução social, dos ecossistemas e dos corpos racializados é parte orgânica da crise do capital. Sem valor suficiente sendo produzido, essas zonas tornam-se alvos indiretos da violência sistêmica. Esta crise atinge diretamente as mulheres !
A grande ilusão do chavismo foi acreditar que seria possível construir justiça social por meio do Estado-Nação moderno, do controle de recursos e da redistribuição da renda petroleira. Contudo, como mostram Kurz e Scholz, o Estado não é exterior ao capital: Ele é uma de suas formas constitutivas. Ao operar segundo a lógica da mercadoria e da administração da escassez, acaba por reproduzir a dominação que deveria combater.
Hoje, não basta denunciar o imperialismo ou exigir respeito à soberania. A forma política moderna esgotou sua capacidade de garantir emancipação. O trabalho abstrato não sustenta mais a vida. A natureza colapsa sob o peso da exploração.
A reprodução social segue invisibilizada. E os corpos dissociados (mulheres, negros, indígenas, migrantes ) continuam sendo os mais afetados pela crise.
A lição da Venezuela é inegável. Não há mais espaço para reformas dentro das formas sociais do capital. Estado, trabalho, dinheiro, política representativa, todos esses elementos, herdados da modernidade, não oferecem saídas. São parte do problema. A única alternativa é uma ruptura categorial: Recusar o valor como mediador social, a dissociação como princípio organizador, e a economia como lógica da vida.
Aqui é importante frisar: Esta ruptura não virá de vanguardas tradicionais ou de novas gestões do poder, mas da emergência de outras formas de vida, já em curso nos subterrâneos da crise. Redes de cuidado, práticas autônomas, resistências comunitárias: É nessas experiências que se gestam possibilidades reais de outro mundo.
A Venezuela me ensinou que não se trata de vencer o capital com suas próprias armas, mas de abandoná-las. E de forjar outras, nascidas da dignidade dos corpos e da memória das resistências.
A guerra de ordenamento mundial está em marcha. Ela não se restringe à Venezuela, e sim projeta o destino de todos os povos que tentarem responder à crise do capitalismo com as categorias do próprio sistema. O reformismo, mesmo bem-intencionado, tornou-se funcional à reprodução do colapso. E o capital, diante do impasse da valorização, já não faz concessões. Apenas impõe a exceção como regra.
A América Latina precisa reagir a essa realidade com lucidez e radicalidade. Persistir em soluções baseadas no desenvolvimento, na industrialização ou na inserção competitiva nos mercados é apenas prolongar o desmonte. Esses conceitos pertencem a uma era finda.
A nossa região, rica em natureza, em saberes comunitários e em experiências históricas de resistência, deve ousar construir um outro horizonte.
Negar o capitalismo e o sistema financeiro global não é palavra de ordem, mas necessidade histórica. É preciso recusar a ideia de que a vida deve ser subordinada à lógica da acumulação. Precisamos de novos conceitos, forjados nas práticas concretas de nossos povos. Conceitos que partam do valor de uso, da cooperação, da reprodução da vida. O diálogo com saberes indígenas, camponeses e feministas não é complemento, mas condição dessa nova elaboração.
Por isso, é urgente a construção de encontros, congressos e redes de articulação que superem as fronteiras herdadas do Estado moderno. A fragmentação territorial e política do continente sempre serviu à dominação. Superá-la é dar um passo em direção a um programa mínimo comum, enraizado nas necessidades reais de nossos povos.
Devemos concentrar a nossa arte e ensinamentos , com os artistas e professores que acreditam nessa forma de ver o mundo, apontando para o vislumbre de uma nova sociedade e de repulsa total a sociedade erigida pela lógica do consumo e da mercadoria. Nossos cientistas devem concentrar os seus esforços intelectuais para a construção de novas formas de agrupamentos, locais de moradias e de comunidades auto sustentáveis com o uso da tecnologia voltada para o bem estar e a vida na sua plenitude. É hora das utopias. É hora da criação do novo, ainda dentro do velho. Em um mundo em fragmentação torna-se necessário a construção de pontos de luz que orientem aqueles que buscam a liberdade e uma sociedade se seres emancipados.
Esse programa não busca a tomada do poder estatal, mas a transformação radical das formas de vida. Deve pautar a desmercantilização dos bens comuns, o uso coletivo da terra, formas de produção orientadas por necessidades e não pelo mercado, e redes de cooperação transfronteiriça. Deve também romper com a lógica patriarcal do capital, reconhecendo que a emancipação exige visibilizar e sustentar a reprodução social.
A Venezuela nos convoca, com sua dor, à urgência de outra via. Não há mais tempo para meias soluções. O capital em colapso não recua. Ele responde com mais destruição. A América Latina deve escolher: ou administra o fim com os instrumentos do sistema, ou inaugura um novo começo. A primeira escolha repete a tragédia. A segunda é arriscada, mas é a única que ainda aponta para o futuro.
A guerra está posta. A questão decisiva é se seguiremos como objetos desse reordenamento ou se ousaremos interrompê-lo com a força da recusa e da imaginação. Com suas riquezas naturais e humanas, sua história de luta e seus sonhos coletivos, a América Latina tem em mãos não só os motivos, mas também os meios para transformar essa negação crítica em um projeto civilizatório alternativo.
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