
Eu sempre quis ter um laboratório — é um desejo de infância, rs. Quando comecei a ministrar cursos de bioarte e arte ciência, principalmente formações curtas e introdutórias, percebi que um projeto de bioarte exige algo que esses formatos não comportam: tempo, estudo, experimentação e, principalmente, a aceitação de uma certa perda de controle, já que lidamos com matéria viva.
O Laboratório de Bioarte nasce justamente da necessidade de um espaço dedicado à pesquisa e à experimentação contínua. Os laboratórios que encontrei até hoje estão, em sua maioria, dentro de ambientes acadêmicos e, pelo que pude perceber, não existe um lugar realmente aberto para receber artistas que queiram desenvolver seus processos com orientação, troca e um tempo mais dilatado. O laboratório surge para preencher essa lacuna — um espaço acolhedor, confortável e preparado para abrigar processos que demandam calma, curiosidade e maturação.
JP – Qual é a proposta do Laboratório?
A proposta do Laboratório é oferecer um espaço vivo de experimentação e reflexão para projetos que cruzam arte e ciência. É um ambiente onde pesquisa e prática caminham juntas, estimulando que cada participante aprofunde suas questões — conceituais, estéticas e técnicas.
Mais do que um lugar para “fazer”, é um espaço para pensar, trocar e construir caminhos coletivamente. Aqui, cada processo é acompanhado de discussões, referências e inquietações que ajudam a expandir tanto o trabalho quanto o olhar do artista.
JP – Você poderia comentar sobre a vivência “Arte e Micélio – do Substrato ao
Prato”?
A vivência Arte e Micélio – do Substrato ao Prato nasceu do meu encantamento pelos fungos e de tudo o que esse reino nos ensina — da importância ecológica às possibilidades criativas e materiais. É uma introdução prática e sensível ao universo funghi, pensada para quem quer conhecer esse mundo e, quem sabe, incorporá-lo ao próprio trabalho.
Durante o encontro, apresento referências de artistas que colaboram com fungos e discutimos possíveis processos por trás dessas obras. Depois, cada participante monta seu próprio bloco de cultivo e entende, com as mãos na massa, como funciona esse ciclo. Fechamos a vivência com um almoço onde saboreamos os cogumelos colhidos por nós mesmos, a partir de blocos fornecidos especialmente para a experiência.
Também exploramos os biomateriais produzidos a partir da celulose do kombucha — outra colaboração entre fungos e bactérias — e degustamos a bebida, que conversa diretamente com o tema.
JP – É possível relacionar arte, ciência e ecologia? Justifique.
Sim, definitivamente — e, para mim, é até difícil separar essas três dimensões. A arte sempre foi um campo aberto para investigar o mundo; a ciência oferece ferramentas e métodos para aprofundar essa investigação; e a ecologia nos lembra que tudo está interligado.
Quando trabalhamos com matéria viva, processos naturais e questões ambientais, essas áreas se encontram de forma quase inevitável. A arte dá linguagem e sensibilidade para essas discussões, a ciência traz entendimento e rigor, e a ecologia nos situa dentro de um sistema maior, mostrando que nossas ações têm impacto.
No meu trabalho, essa relação acontece de maneira orgânica: criar é também pesquisar, observar e compreender como fazemos parte de um ecossistema — não apenas como espectadores, mas como participantes.
JP – Como se deu a sua formação como artista visual?
Minha formação como artista visual tomou forma de verdade quando fui para a Itália fazer o mestrado em Fotografia e Visual Design na NABA. Foi ali que percebi que a fotografia contemporânea não é só sobre a imagem final, mas sobre o processo, o tempo que cada coisa pede, o tanto que a gente precisa se deixar levar.
E eu me deixei. Aos poucos fui entendendo que meu caminho estava menos na técnica pura e mais nessa relação com o vivo, com o que cresce, transforma e responde. Foi assim, quase naturalmente, que a bioarte entrou na minha vida — como uma continuação das perguntas que eu já fazia, só que agora em outro material e em outra escala.
JP – Quais são as suas principais referências (teóricas e práticas) no campo das artes visuais?
Sou super fã do César Baio e do trabalho em dupla César & Lois, principalmente pela maneira como eles aproximam arte, tecnologia e crítica de sistemas. Também me inspiro muito em Ackroyd & Harvey, tanto pelas obras construídas com elementos vivos quanto pelo caráter ativista que atravessa tudo o que fazem.
No universo dos fungos, gosto muito do projeto da Abigail Brow, com esculturas vivas criadas em colaboração com micélios, e também de artistas mais radicais, como Stelarc, com sua “orelha no braço”, e a francesa Marion Laval‑Jeantet , parte da dupla Art Orienté Objet, ela ficou conhecida por Que Le Cheval Vive en Moi, performance em que recebeu plasma de cavalo para explorar fronteiras biológicas e simbólicas entre espécies., pela coragem de testar os limites do corpo como material artístico.
E, no campo teórico e filosófico, a obra de Ailton Krenak é uma referência fundamental para mim — especialmente pela forma como ele nos convida a repensar nossa relação com a Terra, com o vivo e com as narrativas que sustentam nossa existência. Suas reflexões ecoam muito nos meus processos e na maneira como entendo arte, ecologia e interdependência.
JP – Quais são os usos da fotografia que você realiza como artista visual?
A fotografia atravessa todo o meu trabalho e pode ser entendida dentro do campo da fotografia expandida. Ela é a base, o começo e muitas vezes o fim dos meus processos — para mim, funciona como o pincel e a tinta para um pintor. Em alguns projetos aparece como obra em si; em outros, como um dispositivo de registro, acompanhamento e memória de processos vivos, mutáveis e frequentemente efêmeros.
JP – Qual é a definição de arte que você partilha?
Não acredito em uma definição fixa de arte. Para mim, a arte é um campo de investigação — um lugar onde perguntas são mais importantes do que respostas e onde podemos experimentar outras formas de perceber, sentir e nos relacionar com o mundo.
JP – Como você expressa uma consciência ecológica por meio da sua arte?
A consciência ecológica no meu trabalho não aparece como um tema ilustrado, mas como prática. Ela está na escolha dos materiais, no tempo que dou aos processos vivos, na atenção aos ciclos naturais e na compreensão de que criar é sempre um gesto de relação e responsabilidade com o ambiente.
Os temas que surgem no meu trabalho quase de forma instintiva acabam, naturalmente, permeados por essa consciência ecológica — assim como por questões que pedem um olhar sem preconceitos e com leveza, como sexualidade, diversidade e formas plurais de existência
JP – Quais são os seus planos futuros?
Existem planos e existem sonhos. Atualmente estou desenvolvendo dois projetos. O primeiro, Humanicélio, investiga a diversidade humana em colaboração com fungos — um reino igualmente diverso e fundamental para a vida no planeta.
O segundo projeto, ainda em fase embrionária, reflete sobre a nossa dimensão no universo. Ele envolve uma solução aquosa com esculturas microscópicas de figuras humanas, que representam nossas entidades particulares em uma escala invisível ao olho nu e questionam tanto o nosso tamanho diante do cosmos quanto a força dessas presenças individuais.
Como desejo de longo prazo, gostaria de viver entre residências artísticas que me permitam mergulhar profundamente em cada processo. No presente, aproveito o fato de ensinar — algo que, além de sustentar minha prática, me estimula e me obriga a estudar, experimentar e criar de forma coletiva.




