
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta – João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária” – Colunista convidado.
A visita presidencial a Seul reacende uma pergunta inevitável: como dois países que partiram de níveis semelhantes tomaram caminhos tão diferentes?
A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Coreia do Sul, acompanhada de fóruns empresariais e anúncios de cooperação em tecnologia, fármacos, agroindústria e setor aeroespacial, vai além da agenda diplomática. Ela nos obriga a revisitar 1960. Naquele início de década, o Brasil tinha economia maior, parque industrial relevante e mercado interno robusto.
A Coreia do Sul saía devastada pela guerra, com infraestrutura destruída e renda per capita inferior à brasileira. Poucos imaginariam que, seis décadas depois, os papéis estariam invertidos. Hoje, a Coreia do Sul é potência tecnológica, líder em semicondutores, construção naval, baterias e inovação industrial. O Brasil permanece forte no agronegócio e na mineração, mas distante das cadeias globais de maior valor agregado.
A diferença não foi geográfica. Nem cultural. Foi estratégica. A partir dos anos 1960, a Coreia adotou política coordenada de desenvolvimento sob o governo de Park Chung-hee. Investiu maciçamente em educação básica universal, ensino técnico e formação em engenharia. As universidades foram alinhadas às necessidades industriais. O ensino de matemática e ciências tornou-se prioridade nacional. Educação deixou de ser política social isolada e passou a ser instrumento de competitividade. Empresas como Samsung Electronics e Hyundai Motor Company não surgiram por acaso. Foram resultado de um projeto nacional articulado entre Estado, indústria e formação técnica.
No Brasil dos anos 70, também houve expansão educacional. A reforma do ensino de 1971 buscou ampliar o acesso e profissionalizar o ensino médio. Contudo, a massificação ocorreu com forte desigualdade regional e queda de qualidade. A profissionalização muitas vezes foi superficial e desconectada da indústria.
O regime brasileiro priorizou infraestrutura pesada, energia e indústria de base. A educação avançou em número, mas não se tornou eixo estruturante de um projeto exportador tecnológico.
Desenvolvimento exige continuidade e coerência. O dado é eloquente: em 1960, o PIB per capita brasileiro superava o sul-coreano. Hoje, o da Coreia é mais que o dobro do brasileiro.
A visita presidencial pode gerar acordos relevantes. Exportações, cooperação farmacêutica, parcerias aeroespaciais são positivas. Mas acordos comerciais não substituem projeto nacional. Sem ensino básico de qualidade, formação técnica robusta e engenheiros em escala, não há reindustrialização consistente, nem salto tecnológico, nem produtividade sustentável.
A Coreia decidiu investir em capital humano quando ainda era pobre. O Brasil preferiu adiar escolhas estruturais. A diferença entre 1960 e hoje não é fruto do acaso. É resultado de prioridade.
E a pergunta que permanece após a visita a Seul não é quantos memorandos foram assinados, mas se teremos coragem de colocar educação no centro do desenvolvimento — ou se continuaremos lembrando, década após década, que um dia já fomos maiores. Foto Ricardo Stuckert



