
Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
Escrevo estas linhas não como quem comenta uma descoberta científica à distância, mas como alguém que carrega no corpo da memória duas experiências de dor radical, separadas por décadas, mas unidas por um mesmo fio.
A brutalidade do acaso, a insuficiência da medicina de seu tempo e a longa espera, quase sempre solitária, por aquilo que chamamos, talvez de modo impreciso, de esperança.
Na minha adolescência, na Tijuca, no Rio de Janeiro, dos anos 1960, havia um amigo que todos conheciam, Sérgio.
Na minha adolescência, na Tijuca, no Rio de Janeiro, dos anos 1960, havia um amigo que todos conheciam, Sérgio.
Mas ninguém o chamava assim. Para nós, que circulávamos pela Praça Saens Peña ele era o “Vovô”, não por idade, mas pelos cabelos precocemente prateados, que lhe davam um ar sereno, quase sábio, em contraste com a vitalidade que o tornava tão querido e popular.
” Vovô” era presença. Era riso fácil, conversa na esquina, coragem juvenil. Até que a vida, sem aviso e sem sentido, resolveu interromper tudo.
O acidente aconteceu na Pedra da Onça, na Ilha do Governador. Um escorregão. Um segundo. O corpo despencou.
O acidente aconteceu na Pedra da Onça, na Ilha do Governador. Um escorregão. Um segundo. O corpo despencou.
E, com ele, despencou também o futuro tal como o imaginávamos. ‘Vovô” ficou tetraplégico.
Lembro-me do choque coletivo, nós, adolescentes, subitamente confrontados com algo para o qual ninguém nos preparara: A -constatação de que o corpo pode se tornar prisão, e de que a vontade, sozinha, não move membros paralisados.
Tentou-se tudo. Cirurgias. Tratamentos. Promessas médicas. Cada nova intervenção reacendia uma chama frágil, logo apagada pela realidade implacável. Nada foi suficiente. “Vovô” nunca mais recuperou os movimentos.
Tentou-se tudo. Cirurgias. Tratamentos. Promessas médicas. Cada nova intervenção reacendia uma chama frágil, logo apagada pela realidade implacável. Nada foi suficiente. “Vovô” nunca mais recuperou os movimentos.
Viveu, sim, mas dentro de limites estreitos, impostos não apenas pela lesão, mas por uma sociedade que só reconhece valor pleno nos corpos que produzem, correm e performam. Até a sua morte, a paralisia permaneceu. E, conosco ficou a sensação de impotência, essa palavra que, anos depois, voltaria a me assombrar.
Décadas se passaram. O tempo, dizem, cura. Não cura. O tempo acumula.
Já nos dias atuais, outro golpe. Agora não mais na juventude, mas na maturidade política e intelectual.
Décadas se passaram. O tempo, dizem, cura. Não cura. O tempo acumula.
Já nos dias atuais, outro golpe. Agora não mais na juventude, mas na maturidade política e intelectual.
Um grande amigo e companheiro de lutas: Doutor Marcelo Cerqueira. Jurista brilhante, escritor,advogado de presos políticos durante a ditadura militar, deputado federal, figura central da resistência democrática, homem que enfrentou o autoritarismo quando fazê-lo significava risco real de prisão, tortura ou morte. Um homem que nunca se curvou.
E, ironicamente, não foi a repressão que o derrubou. Foi uma queda banal, doméstica, no banheiro de seu próprio apartamento. Mais uma vez, o corpo traído pelo acaso. Mais uma vez, a sentença cruel: tetraplegia.
E, ironicamente, não foi a repressão que o derrubou. Foi uma queda banal, doméstica, no banheiro de seu próprio apartamento. Mais uma vez, o corpo traído pelo acaso. Mais uma vez, a sentença cruel: tetraplegia.
Hoje, Marcelo vive recluso no Rio de Janeiro, imobilizado, carregando no corpo as marcas de uma história que insiste em cobrar caro daqueles que a enfrentaram.
Digo isso a você, leitor, porque não falo de ciência como abstração. Quando escutei a entrevista da Doutora da UFRJ Tatiana Sampaio, quando ouvi falar da polilaminina, não pensei apenas em neurônios, proteínas ou protocolos clínicos. Pensei em “Vovô”. Pensei em Marcelo Cerqueira. Pensei em todos aqueles que ficaram pelo caminho, antes que a ciência pudesse chegar.
Digo isso a você, leitor, porque não falo de ciência como abstração. Quando escutei a entrevista da Doutora da UFRJ Tatiana Sampaio, quando ouvi falar da polilaminina, não pensei apenas em neurônios, proteínas ou protocolos clínicos. Pensei em “Vovô”. Pensei em Marcelo Cerqueira. Pensei em todos aqueles que ficaram pelo caminho, antes que a ciência pudesse chegar.
Pensei, sobretudo, em quantas vidas são atravessadas pela esperança tarde demais.
Foi a partir desse lugar, não neutro, não distante, profundamente marcado, que assisti ao programa conduzido pela jornalista Hildgard Angel,no seu canal no YouTube.E preciso dizer: Não se tratou apenas de uma entrevista científica. Foi um gesto político, no sentido mais profundo do termo. Confesso: Fiquei profundamente emocionado!
É preciso que seja dito: Ao abrir espaço para que a Doutora Tatiana Sampaio narrasse sua trajetória, sua pesquisa e suas dúvidas, o programa rompeu com dois vícios recorrentes do debate público sobre ciência. O primeiro é o sensacionalismo, que transforma descobertas em milagres e pesquisadores em figuras messiânicas. O segundo é o tecnicismo estéril, que separa o conhecimento da vida concreta das pessoas. Ali, não havia espetáculo nem promessa fácil. Havia ciência real, feita por gente real, atravessada por limites materiais, angústias éticas e persistência coletiva.
A entrevista evidenciou algo que a lógica dominante insiste em ocultar: as grandes transformações científicas não nascem de atalhos nem de apostas imediatistas. A polilaminina é fruto de mais de duas décadas de pesquisa básica, silenciosa e paciente, resultado de trabalho cooperativo e de uma produção de conhecimento que nasce como bem coletivo. Nasce numa universidade pública-na UFRJ.No entanto, em uma sociedade regida pela mercadoria, esse conhecimento corre permanentemente o risco de ser expropriado, apropriado por monopólios, convertido em patente e submetido ao critério da rentabilidade.E isto deve ser contido!
Tatiana explicou, com rigor e simplicidade, que sua descoberta não foi pensada desde o início como produto ou cura comercializável. Ela surgiu da investigação fundamental sobre proteínas, suas estruturas e seus comportamentos. Foi o acaso, aliado à persistência, que abriu uma possibilidade inédita: permitir que neurônios, antes interrompidos por uma lesão medular, encontrem novos caminhos e desafiem o que durante décadas foi considerado irreversível. O drama é que, no capitalismo, até mesmo esse tipo de avanço pode ser sequestrado pelo mercado ou descartado se não se mostrar lucrativo.
Para quem, como eu, carrega a memória de “Vovô” e a dor presente de Marcelo Cerqueira, ouvir isso não é exercício intelectual. É confronto. É emoção contida. É perceber que a ciência avança, mas nem sempre avança no tempo da vida, porque seu ritmo é subordinado a interesses que pouco têm a ver com o cuidado.
Ao dar voz à cientista, Hildgard Angel também deu visibilidade ao sofrimento social que cerca essas descobertas: o assédio de famílias desesperadas, a expectativa quase religiosa projetada sobre a pesquisadora, a confusão entre ciência e salvação. Longe de ridicularizar esse desespero, o programa revela sua origem estrutural: uma sociedade que transforma o direito à saúde em mercadoria e a esperança em consumo.Urge que esta descoberta chegue ao usuário no SUS!
Talvez seja este, afinal, o ponto a que toda essa reflexão nos conduz. Pensar a ciência como bem comum é romper com a falsa escolha entre mercado e Estado, ambos hoje atravessados pela mesma racionalidade que transforma conhecimento em ativo, cura em produto e sofrimento em oportunidade de negócio.
Quando a pesquisa científica, produzida coletivamente ao longo de décadas, é apropriada por monopólios, patenteada e submetida à lógica da rentabilidade, o que ocorre não é progresso, mas expropriação do comum. A patente fetichiza o conhecimento e cria escassez onde poderia haver partilha, fazendo com que a ciência deixe de responder à pergunta essencial como aliviar a dor humana para se submeter a outra, mais estreita e brutal quanto isso pode render.
É necessário então imaginarmos e lutarmos por um horizonte possível, não como abstração, mas como necessidade histórica. Uma civilização orientada à vida, na qual a medicina tenha como finalidade o cuidado, a dignidade e a autonomia, e não a acumulação. Uma sociedade em que o conhecimento circule, em que a cura seja responsabilidade coletiva e em que o tempo da ciência se aproxime, tanto quanto possível, do tempo da vida. Desta forma um resultado dado a sociedade como o da pesquisa da Doutora Tatiana será a regra e não uma exceção, em um mundo dominado pela lógica da produção de mercadorias.
Sabemos que essa sociedade ainda não existe plenamente. Mas, ela começa a nascer toda vez que recusamos a naturalização do lucro como destino da ciência e afirmamos, sem ingenuidade, que o saber produzido por muitos deve retornar a todos como direito.
É nesse momento que a ciência deixa de ser apenas técnica e volta a ser, finalmente, projeto humano.
É preciso que seja dito: Ao abrir espaço para que a Doutora Tatiana Sampaio narrasse sua trajetória, sua pesquisa e suas dúvidas, o programa rompeu com dois vícios recorrentes do debate público sobre ciência. O primeiro é o sensacionalismo, que transforma descobertas em milagres e pesquisadores em figuras messiânicas. O segundo é o tecnicismo estéril, que separa o conhecimento da vida concreta das pessoas. Ali, não havia espetáculo nem promessa fácil. Havia ciência real, feita por gente real, atravessada por limites materiais, angústias éticas e persistência coletiva.
A entrevista evidenciou algo que a lógica dominante insiste em ocultar: as grandes transformações científicas não nascem de atalhos nem de apostas imediatistas. A polilaminina é fruto de mais de duas décadas de pesquisa básica, silenciosa e paciente, resultado de trabalho cooperativo e de uma produção de conhecimento que nasce como bem coletivo. Nasce numa universidade pública-na UFRJ.No entanto, em uma sociedade regida pela mercadoria, esse conhecimento corre permanentemente o risco de ser expropriado, apropriado por monopólios, convertido em patente e submetido ao critério da rentabilidade.E isto deve ser contido!
Tatiana explicou, com rigor e simplicidade, que sua descoberta não foi pensada desde o início como produto ou cura comercializável. Ela surgiu da investigação fundamental sobre proteínas, suas estruturas e seus comportamentos. Foi o acaso, aliado à persistência, que abriu uma possibilidade inédita: permitir que neurônios, antes interrompidos por uma lesão medular, encontrem novos caminhos e desafiem o que durante décadas foi considerado irreversível. O drama é que, no capitalismo, até mesmo esse tipo de avanço pode ser sequestrado pelo mercado ou descartado se não se mostrar lucrativo.
Para quem, como eu, carrega a memória de “Vovô” e a dor presente de Marcelo Cerqueira, ouvir isso não é exercício intelectual. É confronto. É emoção contida. É perceber que a ciência avança, mas nem sempre avança no tempo da vida, porque seu ritmo é subordinado a interesses que pouco têm a ver com o cuidado.
Ao dar voz à cientista, Hildgard Angel também deu visibilidade ao sofrimento social que cerca essas descobertas: o assédio de famílias desesperadas, a expectativa quase religiosa projetada sobre a pesquisadora, a confusão entre ciência e salvação. Longe de ridicularizar esse desespero, o programa revela sua origem estrutural: uma sociedade que transforma o direito à saúde em mercadoria e a esperança em consumo.Urge que esta descoberta chegue ao usuário no SUS!
Talvez seja este, afinal, o ponto a que toda essa reflexão nos conduz. Pensar a ciência como bem comum é romper com a falsa escolha entre mercado e Estado, ambos hoje atravessados pela mesma racionalidade que transforma conhecimento em ativo, cura em produto e sofrimento em oportunidade de negócio.
Quando a pesquisa científica, produzida coletivamente ao longo de décadas, é apropriada por monopólios, patenteada e submetida à lógica da rentabilidade, o que ocorre não é progresso, mas expropriação do comum. A patente fetichiza o conhecimento e cria escassez onde poderia haver partilha, fazendo com que a ciência deixe de responder à pergunta essencial como aliviar a dor humana para se submeter a outra, mais estreita e brutal quanto isso pode render.
É necessário então imaginarmos e lutarmos por um horizonte possível, não como abstração, mas como necessidade histórica. Uma civilização orientada à vida, na qual a medicina tenha como finalidade o cuidado, a dignidade e a autonomia, e não a acumulação. Uma sociedade em que o conhecimento circule, em que a cura seja responsabilidade coletiva e em que o tempo da ciência se aproxime, tanto quanto possível, do tempo da vida. Desta forma um resultado dado a sociedade como o da pesquisa da Doutora Tatiana será a regra e não uma exceção, em um mundo dominado pela lógica da produção de mercadorias.
Sabemos que essa sociedade ainda não existe plenamente. Mas, ela começa a nascer toda vez que recusamos a naturalização do lucro como destino da ciência e afirmamos, sem ingenuidade, que o saber produzido por muitos deve retornar a todos como direito.
É nesse momento que a ciência deixa de ser apenas técnica e volta a ser, finalmente, projeto humano.





