Jango e o projeto interrompido

 Por Henrique Pinheiro –  Economista e Produtor Executivo do documentário “Terra Revolta – João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária” – Colunista convidado.
No último domingo, dia 1º de março, o Brasil recordou o aniversário de João Belchior Marques Goulart. Presidente deposto em 1964, Jango permanece uma das figuras mais debatidas e complexas da história republicana. Há líderes que governam circunstâncias; outros governam ideias.
     Meu pai, João Pinheiro Neto, ex-ministro do Trabalho e da Reforma Agrária em seu governo, deixou registrado no documentário Testemunho, da cineasta Lucia Murat:  ” Ninguém tomou decisões mais importantes que João Goulart nesse país, na área social e economia. Encampou as refinarias privadas, deu início à reforma agrária, regulamentou a lei de remessa de lucros, congelou os aluguéis, criou o 13º salário. Ele foi fiel ao seu ideário político e a tudo aquilo que representava em seu governo: o apoio da classe trabalhadora.”            Não foram palavras de exaltação, mas de quem participou das decisões. O governo Goulart enfrentou polarização interna, resistência de setores econômicos e forte pressão internacional em plena Guerra Fria. Ainda assim, avançou em medidas estruturais.
      A encampação das refinarias reafirmou a soberania energética. A regulamentação da remessa de lucros buscou equilibrar capital estrangeiro e interesse nacional. A criação do 13º salário consolidou um direito trabalhista que hoje parece natural, mas que à época representou ruptura significativa.
      A proposta de reforma agrária enfrentava uma das mais antigas distorções brasileiras: a concentração fundiária. Pode-se discutir método, ritmo e contexto, mas havia projeto. Após o golpe de 1964, veio o exílio.
       Meu pai conseguiu um salvo-conduto para visitá-lo — cassados não recebiam passaporte — e foi até sua fazenda, “El Milagro”, no Uruguai.
       Ali, ele e meu pai, longe do país que governara, conversaram longamente sobre erros e acertos de seu curto e intenso governo, sobre a pressa de realizar em poucos anos transformações que talvez exigissem mais tempo. Em uma dessas conversas, Jango confidenciou algo que marcou profundamente meu pai: acreditava que não voltaria mais ao Brasil, que sua esposa retornaria viúva com os filhos. Infelizmente, estava certo.
      O exílio foi mais do que geográfico; foi político e simbólico. Jango morreu longe do país que pretendia reformar, mas suas decisões permaneceram.
      Passadas décadas, o Brasil ainda debate soberania, reforma agrária, justiça social e desenvolvimento. Recordar João Goulart não é mitificar nem absolver.  É reconhecer coerência. Governou sob tensão permanente e manteve fidelidade ao seu ideário mesmo diante do isolamento político.
     Alguns líderes administram o presente; outros tentam alterar estruturas. João Goulart pertenceu a essa segunda categoria. Seu projeto foi interrompido, mas o debate que provocou segue vivo na história brasileira.
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