Um Casal Pulsante e Romântico aos Sessenta

Estreou Coração na Boca no teatro do CCBB-RIO 2.

 

O texto de Felipe Vidal, José Karini, e Priscilla Rozenbaum tem como ponto de partida o universo do filme Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard, priorizando as questões filosóficas-existenciais do cineasta francês, e caracteriza-se por ser ficcional, filosófico, romântico, humanista, poético, sensível, fragmentado, constituído por diversas histórias, não-linear, crítico e contemporâneo. Trata de diversos temas como o amor, a vida, a morte, a liberdade, o desejo, Deus, fuga, desespero, amarguras, existência, traição, juventude, velhice, individualismo, entre outros.

 

Como o texto tem como base questões filosóficas-existenciais do universo de Godard, ele nos pareceu suspenso no ar, abstrato, valoriza demais os sentimentos, faltando uma conexão com assuntos concretos e a realidade. Fica muito fixo ao mundo das ideias. Esse caráter abstrato do texto em alguns momentos dificulta o seu melhor entendimento.

 

O elenco é constituído por Priscilla Rozenbaum e José Karini. Eles têm uma atuação de qualidade e comovente, formando um casal romântico e pulsante aos sessenta. Eles estão unidos, entrosados e afinados. Eles narram várias histórias, estabelecendo diálogos fragmentados, sentimentais, e velozes. Eles não têm personagens fixos. Partem dos personagens do filme de Godard, que se desdobra em uma multiplicidade de personas sobrepostas. E os dois artistas interpretam com verdades, e emocionam. Eles incorporam os personagens, e deixam eles falar. São sensíveis, emocionantes. Dominam o texto, transmitindo com clareza, e uma boa retórica. Suas falas são complementadas por projeções de imagens em vídeos, como filmes e poemas. Dominam o palco, se movimentando intensamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, eles têm uma atuação deferida e merecedora de elogios.

 

A direção de Felipe Vidal é potente e competente. Ele realizou as marcações certeiras e precisas, e deu uma diretriz ao excelente trabalho dos dois atores de interpretação de seus personagens.

 

Os figurinos criados por Kika Lopes são de bom gosto e adequados, roupas do quotidiano.

 

A cenografia criada por Aurora dos Campos é criativa, original, bem elaborada e bem distribuída pelo palco. Retrata um apartamento de um casal, com as suas partes, como quarto, banheiro, entre outras.

 

A iluminação de Tomás Ribas apresenta um bonito desenho de luz, e contribui para realçar a interpretação do elenco de seus personagens. Ademais, a luz, junto com o som, cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas dos atores e produzindo sensações.

 

A trilha sonora é o ponto alto do espetáculo. Ela é de uma sonoridade ímpar, tendo sido bem selecionada. Dentre as canções que integram a trilha estão: La mort Bleue, Soirée Perdue, e Sans Lendmain (filme Pierrot Le Fou); Poursuite (A Bout De Souffle);

Tire seu passado da frente; Baby (Instrumental); Wild World (Cat Stevens);

Com o coração na Boca (Cida Moreira); e

Envelhecer (Arnaldo Antunes). De qualidade! As canções se adequam às cenas e ao espetáculo.

 

Também visualizamos na tela de projeções os poemas de Antonio Cícero, deixando transparecer o tom poético do texto, como Tem o Charme do Mundo; Huis Clos; e, Nênia.

 

Coração na Boca apresenta uma dupla de atores com uma atuação de qualidade e comovente; cenografia que deixa transparecer sensibilidade artística e adequação ao espetáculo; e, uma iluminação e trilha sonora de excelência.

 

Ótima Produção Cênica!

 

 

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