
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária” autor de “Crônica de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Em 19 de março de 1964, seis dias após o Comício da Central do Brasil, São Paulo foi palco da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Sob o lema “Deus, Pátria e Família”, milhares foram às ruas mobilizados por empresários, organizações civis e parte da Igreja Católica contra uma suposta ameaça comunista.
Poucos dias depois, a democracia seria derrubada. A marcha não foi apenas um ato religioso ou cívico. Foi a organização do medo como força política.
Ao invocar valores absolutos — fé, nação e família — construiu-se uma narrativa emocional que dispensava argumentos racionais. Quem discordasse não era adversário, mas inimigo da pátria e da ordem. O país se partia em dois.
De um lado, trabalhadores e movimentos populares pedindo reformas estruturais para reduzir desigualdades históricas. Do outro, setores médios e elites econômicas convencidos de que tais mudanças levariam ao caos social e à perda de privilégios.
Entre esperança e medo, venceu o medo. E com ele vieram 21 anos de autoritarismo, censura e repressão. O comunismo nunca esteve prestes a tomar o poder no Brasil. Mas o fantasma era útil. Permitia justificar qualquer ruptura institucional em nome da “salvação nacional”.
Sessenta anos depois, o mesmo lema reaparece, ressuscitado pelo bolsonarismo como instrumento de mobilização política. Não como memória histórica, mas como identidade ideológica baseada na ideia de guerra permanente contra inimigos internos.
A retórica é praticamente idêntica: defesa da família, da religião e da pátria contra uma ameaça difusa — ora chamada de comunismo, ora de globalismo, ora simplesmente de esquerda.
O auge dessa lógica ocorreu em 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, milhares invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília convencidos de que estavam salvando o país. Muitos carregavam símbolos religiosos, bandeiras nacionais e slogans patrióticos. A cena foi ao mesmo tempo chocante e familiar: a democracia atacada em nome da própria democracia. O comunismo que justificou o golpe de 1964 desapareceu há décadas.
A União Soviética acabou em 1991. A China integra o capitalismo global. Cuba sobrevive isolada e sem capacidade de exportar revolução. Ainda assim, o discurso anticomunista continua sendo o principal combustível político de parte da direita brasileira. Fantasmas não precisam existir — basta que provoquem medo. O bolsonarismo transformou insegurança social, ressentimento e desconfiança institucional em identidade política. Mais do que um projeto de país, construiu uma narrativa de salvação nacional baseada na eliminação simbólica do inimigo. O resultado é um Brasil preso a batalhas ideológicas do século XX enquanto enfrenta desafios urgentes do século XXI: desigualdade persistente, baixo crescimento, precarização do trabalho e atraso educacional.
A Marcha de 1964 e o 8 de janeiro não são eventos idênticos, mas pertencem à mesma tradição histórica: momentos em que o medo coletivo é instrumentalizado para legitimar soluções autoritárias. Democracias raramente colapsam apenas por ação de militares. Elas se enfraquecem quando parcelas significativas da sociedade deixam de acreditar nas regras do jogo e passam a enxergar adversários como inimigos irreconciliáveis. Ignorar essa continuidade é perigoso. O passado brasileiro não está enterrado; ele reaparece sempre que crises sociais e políticas alimentam discursos de salvação nacional.
O 8 de janeiro não surgiu do nada. Foi o sintoma mais visível de uma radicalização construída ao longo de anos. Um país que não enfrenta seus fantasmas acaba governado por eles.




