
Estreou Kintsugi – 100 Memórias no teatro do CCBB-RIO 3.
Espetáculo do Grupo Lume Teatro.
A Criação é de Ana Cristina Colla, Emilio García Wehbi, Jesser de Souza, Pedro Kosovski, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini.
O texto de Pedro Kosovski é uma autoficção, potente, denso, poético, bem pesquisado e desenvolvido, mescla momentos de humor e tensão, dialoga com o par memória/desaparecimento, lembranças/esquecimentos, valoriza o coletivo, crítico e contemporâneo.
O texto apresenta-se estruturado em treze versões. A primeira começa com a chegada do mestre Alfa, diretor e coreógrafo internacional, que veio trabalhar por um mês com o grupo. No último dia, houve uma confraternização na casa de um dos integrantes do grupo, onde todos se confraternizaram e o mestre solicitou que falassem sobre o futuro do grupo. Desta primeira versão a narrativa se processa.
O espetáculo tem início com os atores brindando. A seguir, um deles pega um vaso de cerâmica que está sob o piso, e o arremessa ao chão, que ao cair se esfacela. O grupo de atores recolhe os pedacinhos, e começa a reconstituir as fraturas, os fragmentos do vaso por meio da arte japonesa de reparar cerâmicas com ouro, Kintsugi. Até o fim do espetáculo, o vaso será restaurado.
Concomitantemente, os atores iniciam um processo de construção de narrativas da memória do grupo teatral Lume; das memorias coletivas dos atores participando e atuando no grupo; e das suas próprias memorias individuais que integram as suas respectivas trajetórias de vidas. As suas narrativas são complementadas por objetos (camisola, retratos, caixa de maquiagem, caixa de moedas, livros, óculos, …), os testemunhos de suas histórias e memórias.
O texto também serve para ativar as nossas memórias com relação à história do nosso país, as lembranças recentes do período do golpe civil-militar que implantou anos repressivos, e o seu slogan: Brasil, Ame-o ou Deixe-o. A lembrança desse momento deixa transparecer o caráter crucial da memória, lembrar para não esquecer, não repetir os erros cometidos na vida política do país. As dinâmicas sociais e políticas são passíveis de revisão e reformulação.
Se, por um lado, o texto fala de memória, lembranças e recordações, por outro lado, ele trata também de apagamentos e esquecimentos. Transparece o trabalho de pesquisa do grupo com pessoas com Alzheimer, vítimas da progressiva perda da memória. O texto é complementado com imagens fotográficas destes indivíduos, em que os mesmos são apresentados ao público e comenta-se sobre suas trajetórias, e o convívio com a enfermidade. O texto também constrói a memória desses homens e mulheres que por uma enfermidade foram perdendo as suas respectivas capacidades cognitivas.
Da perda da memória provocada pela doença, o texto expande a patologia para o contexto social mais amplo.
Um momento reflexivo do texto quanto á destruição da memória foi a recuperação do incêndio do Museu Nacional, instituição responsável por guardar a memória da ciência nacional, com suas coleções botânicas, zoológicas, mineralógicas, antropológicas, de antiguidades, entre outras, todas queimadas, apagamento total da memória, produto direto do descaso dos homens de Estado, que agem de forma irracional no mundo da politica. São as memórias de um país destruídas.
O texto ainda destaca as memórias do próprio processo de criação, constituídas por objetos, cenas, narrativas e canções.
A costura de todo esse conjunto de memórias se dá por meio do trinômio memória-esquecimento-apagamento. Ele é o fio que amarra todas as narrativas de memórias, dando uma coerência e uniformidade, passando de fragmentário para ter uma unidade, um todo integrado.
No nosso ponto de vista, a melhor versão foi a décima segunda quando ocorre, de forma intensa e tensa, um momento de conflito no grupo. Eles se xingam, se ofendem, se atacam. Foi emocionante e, ao mesmo tempo, tenso!
O elenco é integrado por
Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel
Scotti Hirson, e Renato Ferracini. Eles são competentes, e estão unidos, entrosados e afinados. Eles interpretam com qualidade, cantam, tocam instrumentos (acordeom, bumbo, lira e caixa), e correm. E emocionam também, transmitindo alegrias e sofrimentos, e narrando um conjunto de memórias com clareza, e utilizando uma linguagem acessível. Dominam o palco, se movimentando intensamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação comovente e empolgante, e merecedora de elogios.
A direção de Emilio García Wehbi focou no texto, e deixou os atores a vontade no palco, dando-lhes liberdade de ação e interpretação.
Os figurinos são simples, adequados, e facilitam a locomoção dos atores.
A cenografia é criativa e original. No início temos apenas no centro do palco um vaso de cerâmica. Este ao se esfacelar e seus fragmentos coletados, forma-se um vazio. A medida que o texto se desenvolve, a ribalta vai sendo preenchida pelos inúmeros objetos que os atores vão inserindo. Estes ajudam a narrar as suas memórias e têm história, que pode ser individual ou coletiva. São fotografias, roupas, objetos cenográficos de peças já encenadas, entre outros. Eles preenchem o palco.
A iluminação de Eduardo Albergaria apresenta um bonito desenho de luz, e contribui para realçar a interpretação do elenco de seus personagens. Ademais, a luz cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas dos atores e produzindo sensações.
A trilha sonora de Janete El Haouli e José Augusto Mannis é adequada ao espetáculo, trazendo uma leveza e emoção, nos levando a viajar por aquele predominante som instrumental de piano, por um mundo de sonhos e imaginações.
Texto, elenco, direção, cenografia, figurinos, iluminação e trilha sonora formam um conjunto adequado, harmônico e equilibrado, tendo como resultado a excelência da apresentação.
Excelente e Imperdível produção cênica!






