
por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônica de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Anticomunismo, denuncismo e medo fabricado mobilizaram a classe média contra João Goulart em 1964. Sessenta anos depois, a deslegitimação das eleições e a busca por apoio externo mostram que a história brasileira insiste em rimar- não por destino, mas por falta de memória .
Nos meses que antecederam abril de 1964, o Brasil já havia sido politicamente incendiado. O golpe militar foi apenas o ato final de um processo de desestabilização cuidadosamente construído por setores da elite política e midiática, tendo a UDN como protagonista.
Carlos Lacerda foi o principal operador dessa engrenagem. Governador da Guanabara e dono da Tribuna da Imprensa, combinava talento oratório raro com uma campanha diária de denúncias e acusações.
João Goulart era descrito como corrupto, subversivo e agente do comunismo internacional, supostamente empenhado em transformar o Brasil numa nova Cuba.
A ofensiva não se limitava ao presidente. O jornal Última Hora, de Samuel Wainer, alinhado ao trabalhismo e ao legado varguista, tornou-se alvo permanente. A lógica era simples e devastadora: manter o país em estado de crise contínua até que a ruptura parecesse inevitável.
Outras figuras da UDN ampliaram esse cerco. Bilac Pinto denunciava uma suposta “guerra revolucionária” em curso. Magalhães Pinto articulava politicamente a oposição e fornecia apoio decisivo ao movimento que derrubaria o governo. O discurso moralista encobria uma estratégia clara de deslegitimação.
Pouco depois, em entrevista ao Los Angeles Times publicada por volta de 20 de março de 1964, Lacerda pediu abertamente apoio internacional para derrubar o presidente brasileiro, alegando que o país caminhava para uma ditadura comunista. Não era apenas retórica interna — buscava-se legitimação externa para uma mudança de regime.
O contraste com a realidade era evidente. João Goulart não era um revolucionário de barricada, mas um grande estancieiro gaúcho, herdeiro de família rica do sul. Ainda assim, foi transformado em ameaça existencial à nação.
A classe média urbana, bombardeada por esse discurso alarmista, tornou-se base social da ruptura. Grandes manifestações expressaram o medo de que o Brasil se transformasse numa nova Cuba — medo alimentado pela Guerra Fria e amplificado pela propaganda política.
Sessenta anos depois, é impossível não reconhecer ecos desse roteiro.
Às vésperas das eleições de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro, repetindo a lógica de internacionalizar conflitos internos e questionar preventivamente o resultado das urnas. Durante meses, difundiu-se a narrativa de fraude num sistema utilizado há décadas — inclusive para elegê-lo.
A recusa em reconhecer o resultado eleitoral, a tentativa de produzir um vácuo de poder e ações que dificultaram o deslocamento de eleitores em determinadas regiões ampliaram a tensão institucional.
A ofensiva não se limitava ao presidente. O jornal Última Hora, de Samuel Wainer, alinhado ao trabalhismo e ao legado varguista, tornou-se alvo permanente. A lógica era simples e devastadora: manter o país em estado de crise contínua até que a ruptura parecesse inevitável.
Outras figuras da UDN ampliaram esse cerco. Bilac Pinto denunciava uma suposta “guerra revolucionária” em curso. Magalhães Pinto articulava politicamente a oposição e fornecia apoio decisivo ao movimento que derrubaria o governo. O discurso moralista encobria uma estratégia clara de deslegitimação.
Pouco depois, em entrevista ao Los Angeles Times publicada por volta de 20 de março de 1964, Lacerda pediu abertamente apoio internacional para derrubar o presidente brasileiro, alegando que o país caminhava para uma ditadura comunista. Não era apenas retórica interna — buscava-se legitimação externa para uma mudança de regime.
O contraste com a realidade era evidente. João Goulart não era um revolucionário de barricada, mas um grande estancieiro gaúcho, herdeiro de família rica do sul. Ainda assim, foi transformado em ameaça existencial à nação.
A classe média urbana, bombardeada por esse discurso alarmista, tornou-se base social da ruptura. Grandes manifestações expressaram o medo de que o Brasil se transformasse numa nova Cuba — medo alimentado pela Guerra Fria e amplificado pela propaganda política.
Sessenta anos depois, é impossível não reconhecer ecos desse roteiro.
Às vésperas das eleições de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro, repetindo a lógica de internacionalizar conflitos internos e questionar preventivamente o resultado das urnas. Durante meses, difundiu-se a narrativa de fraude num sistema utilizado há décadas — inclusive para elegê-lo.
A recusa em reconhecer o resultado eleitoral, a tentativa de produzir um vácuo de poder e ações que dificultaram o deslocamento de eleitores em determinadas regiões ampliaram a tensão institucional.
O desfecho foi o ataque de 8 de janeiro de 2023 à Praça dos Três Poderes, expressão extrema da negação da legitimidade democrática.
Há diferenças entre os períodos. A UDN reunia quadros intelectualmente sofisticados e líderes de grande capacidade retórica. Lacerda dominava a tribuna como poucos na história brasileira. Ainda assim, sua atuação deixou marcas profundas: esteve no centro da crise que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas e foi protagonista decisivo na queda de Goulart.
O que impressiona não é a semelhança entre personagens, mas entre métodos.
Num país marcado pelo apagamento da memória política — consequência direta de duas décadas de censura e autoritarismo — velhas fórmulas reaparecem como se fossem novidades. Anticomunismo difuso, denuncismo permanente, deslegitimação das instituições e mobilização emocional da classe média formam um repertório conhecido.
A história brasileira não se repete mecanicamente, mas rima. Sempre que o medo substitui o debate e a crise é estimulada em vez de resolvida, a democracia entra em zona de risco.
O golpe de 1964 não começou com tanques nas ruas. Começou quando parte significativa da sociedade passou a acreditar que a democracia já não era capaz de resolver seus problemas.
Reconhecer esse processo é essencial para que o país não continue refém dos mesmos ciclos de instabilidade — e dos mesmos erros.
Há diferenças entre os períodos. A UDN reunia quadros intelectualmente sofisticados e líderes de grande capacidade retórica. Lacerda dominava a tribuna como poucos na história brasileira. Ainda assim, sua atuação deixou marcas profundas: esteve no centro da crise que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas e foi protagonista decisivo na queda de Goulart.
O que impressiona não é a semelhança entre personagens, mas entre métodos.
Num país marcado pelo apagamento da memória política — consequência direta de duas décadas de censura e autoritarismo — velhas fórmulas reaparecem como se fossem novidades. Anticomunismo difuso, denuncismo permanente, deslegitimação das instituições e mobilização emocional da classe média formam um repertório conhecido.
A história brasileira não se repete mecanicamente, mas rima. Sempre que o medo substitui o debate e a crise é estimulada em vez de resolvida, a democracia entra em zona de risco.
O golpe de 1964 não começou com tanques nas ruas. Começou quando parte significativa da sociedade passou a acreditar que a democracia já não era capaz de resolver seus problemas.
Reconhecer esse processo é essencial para que o país não continue refém dos mesmos ciclos de instabilidade — e dos mesmos erros.
Foto Mídias sociais





