
Por Henrique Pinheiro – Economista e Produtor Executivo de “Terra Revolta-João Pinheiro Neto” e autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Para quem tem memória, o título evoca um slogan inesquecível da Caixa Econômica Federal, “Vem pra Caixa você também”.
Durante décadas, a frase simbolizou segurança, poupança e o papel do banco público como abrigo do dinheiro do povo.
Hoje, a ironia é amarga.
O convite parece ter mudado de destinatário. Não é mais o cidadão que leva sua economia para um porto seguro — são bancos em dificuldade que acabam recorrendo, direta ou indiretamente, ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Uma inversão reveladora do Brasil contemporâneo.
O FGC funciona como um “seguro” do sistema bancário. Cobre depósitos de até R$ 250 mil por CPF e por instituição, evitando pânico financeiro e corridas bancárias.
Mas esse seguro não é público nem gratuito.
Ele é financiado pelos próprios bancos — sobretudo os grandes — que repassam esse custo aos clientes. No fim da cadeia, quem paga é a sociedade.
Nos últimos anos, a sucessão de crises em bancos médios expôs um problema estrutural: o fundo é robusto, mas não infinito.
Agora surge mais um nome no radar: o banco Digimais, ligado ao conglomerado do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, proprietário de um império de mídia e figura de grande influência política associada ao partido Republicanos, que possui bancada expressiva no Congresso Nacional.
A instituição atuava fortemente no crédito consignado — empréstimos descontados diretamente da folha de aposentados e servidores públicos. Um dos negócios mais lucrativos do sistema financeiro, baseado numa clientela cativa e vulnerável.
Após a pandemia, a inadimplência subiu, o custo do dinheiro disparou e diversos bancos médios passaram a pagar taxas muito acima do mercado para captar recursos via CDBs.
Isso é o chamado funding caro — dinheiro captado a qualquer preço para manter a engrenagem girando.
Mesmo assim, a propaganda vinha sempre acompanhada de um tranquilizante poderoso. “Pode investir. Tem garantia do FGC.”
É aqui que entra o mecanismo perverso conhecido como moral hazard — o risco moral.
Quando agentes econômicos sabem que não arcarão sozinhos com as consequências de suas apostas, tendem a assumir riscos cada vez maiores.
Se der certo, os lucros são privados. Se der errado, o prejuízo é socializado.
Fala-se em passivos do Digimais na casa de R$ 8 bilhões a R$ 9 bilhões, valores que, em caso de intervenção ou liquidação, pressionariam ainda mais o fundo.
Importante lembrar: o FGC não é dinheiro do Tesouro nem do Banco Central. Mas seus principais contribuintes são justamente os grandes bancos — incluindo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal — instituições com forte presença estatal e milhões de clientes.
Na prática, o custo retorna à população na forma de crédito mais caro, tarifas elevadas e spreads abusivos.
O fundo é essencial para a estabilidade financeira. Sem ele, qualquer boato poderia desencadear pânico sistêmico.
O problema é quando essa rede de proteção passa a funcionar como incentivo indireto para estratégias arriscadas de crescimento rápido, crédito agressivo e captação a juros irreais.
Não é um seguro neutro. É um amortecedor que permite quedas mais altas.
Se episódios desse tipo se multiplicarem, o debate deixa de ser técnico e passa a ser político: quem se beneficia dos lucros e quem arca com os prejuízos?
O investidor ganha tranquilidade.
Os bancos problemáticos ganham tempo. E a sociedade paga a conta. No fim, a ironia do antigo slogan se completa:
Se antes o convite era para o cidadão proteger sua poupança, hoje parece existir um chamado silencioso para que problemas privados encontrem abrigo numa estrutura coletiva de proteção.
” Vem para o FGC você também…”
Durante décadas, a frase simbolizou segurança, poupança e o papel do banco público como abrigo do dinheiro do povo.
Hoje, a ironia é amarga.
O convite parece ter mudado de destinatário. Não é mais o cidadão que leva sua economia para um porto seguro — são bancos em dificuldade que acabam recorrendo, direta ou indiretamente, ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Uma inversão reveladora do Brasil contemporâneo.
O FGC funciona como um “seguro” do sistema bancário. Cobre depósitos de até R$ 250 mil por CPF e por instituição, evitando pânico financeiro e corridas bancárias.
Mas esse seguro não é público nem gratuito.
Ele é financiado pelos próprios bancos — sobretudo os grandes — que repassam esse custo aos clientes. No fim da cadeia, quem paga é a sociedade.
Nos últimos anos, a sucessão de crises em bancos médios expôs um problema estrutural: o fundo é robusto, mas não infinito.
Agora surge mais um nome no radar: o banco Digimais, ligado ao conglomerado do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, proprietário de um império de mídia e figura de grande influência política associada ao partido Republicanos, que possui bancada expressiva no Congresso Nacional.
A instituição atuava fortemente no crédito consignado — empréstimos descontados diretamente da folha de aposentados e servidores públicos. Um dos negócios mais lucrativos do sistema financeiro, baseado numa clientela cativa e vulnerável.
Após a pandemia, a inadimplência subiu, o custo do dinheiro disparou e diversos bancos médios passaram a pagar taxas muito acima do mercado para captar recursos via CDBs.
Isso é o chamado funding caro — dinheiro captado a qualquer preço para manter a engrenagem girando.
Mesmo assim, a propaganda vinha sempre acompanhada de um tranquilizante poderoso. “Pode investir. Tem garantia do FGC.”
É aqui que entra o mecanismo perverso conhecido como moral hazard — o risco moral.
Quando agentes econômicos sabem que não arcarão sozinhos com as consequências de suas apostas, tendem a assumir riscos cada vez maiores.
Se der certo, os lucros são privados. Se der errado, o prejuízo é socializado.
Fala-se em passivos do Digimais na casa de R$ 8 bilhões a R$ 9 bilhões, valores que, em caso de intervenção ou liquidação, pressionariam ainda mais o fundo.
Importante lembrar: o FGC não é dinheiro do Tesouro nem do Banco Central. Mas seus principais contribuintes são justamente os grandes bancos — incluindo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal — instituições com forte presença estatal e milhões de clientes.
Na prática, o custo retorna à população na forma de crédito mais caro, tarifas elevadas e spreads abusivos.
O fundo é essencial para a estabilidade financeira. Sem ele, qualquer boato poderia desencadear pânico sistêmico.
O problema é quando essa rede de proteção passa a funcionar como incentivo indireto para estratégias arriscadas de crescimento rápido, crédito agressivo e captação a juros irreais.
Não é um seguro neutro. É um amortecedor que permite quedas mais altas.
Se episódios desse tipo se multiplicarem, o debate deixa de ser técnico e passa a ser político: quem se beneficia dos lucros e quem arca com os prejuízos?
O investidor ganha tranquilidade.
Os bancos problemáticos ganham tempo. E a sociedade paga a conta. No fim, a ironia do antigo slogan se completa:
Se antes o convite era para o cidadão proteger sua poupança, hoje parece existir um chamado silencioso para que problemas privados encontrem abrigo numa estrutura coletiva de proteção.
” Vem para o FGC você também…”
Imagem Janela Publicitária




