Uma presença graciosa

Para um artista, um músico, o palco é um lugar seguro. De lá, a maioria afirma que não se sente exposta. Pelo contrário, muitos alegam se sentirem protegidos, acolhidos, completos. Jeff Buckley afirmava o mesmo. Desse espaço, sempre encarou a platéia com sua guitarra sendo tudo o que era possível ser, ali. E nunca se sentiu entediado enquanto se apresentava. Buckley cresceu em Los Angeles. Viu sonhos serem alimentados com falsas promessas e desde cedo admirava quem se permitia falhar. Foi um compositor que chegou às paradas no auge do grunge. Tinha uma admiração tremenda por esse gênero e foi um contrapeso ao mesmo, no início dos anos 90. De acordo com sua mãe, ela o criou tanto quanto ele cuidou dela. Tiveram um ao outro e nada mais. Seu pai, um músico talentoso, nunca esteve disponível para fazer parte da família e partiu cedo, como o filho.

O talento de Buckley foi reconhecido de imediato tão logo ele lançou seu primeiro álbum. David Bowie, Ben Harper, Chris Cornell e inúmeros outros músicos se renderam às suas letras e jeito único de cantar. O californiano emulava cadências vocais e inflexões de quem ouvia com maestria, desde a adolescência. Cresceu ouvindo Judy Garland e Led Zeppelin, numa casa onde a música era presente desde as primeiras horas do dia, antes mesmo da cafeteira estar ligada.

Amy Berg conta como a vida breve de Buckley foi intensa e preenchida de momentos genuinamente espontâneos no belíssimo It’s Never Over, Jeff Buckley (Prime Video). Da infância até o primeiro contrato assinado e a gravação do lendário álbum Grace. Passando por sua releitura de Hallelujah de Leonard Cohen, que redefiniu a canção do autor canadense, tantas vezes entoada por outros artistas. Até a morte do cantor aos 31 anos, por afogamento. 

Berg é sensível como o seu biografado. Evidencia suas nuances em relação ao material que teve acesso e apresenta a intimidade do músico com muito respeito.

Buckley foi o que quis. Escreveu músicas, rodou o mundo e teve muito mais reconhecimento por seu trabalho, longe de casa, como diversos outros nomes estadunidenses. Deixou um material extraordinário que marcou uma década e se mantém como um presente aos que seguem descobrindo um jovem que tinha na música a forma mais profunda de se comunicar. Se foi muito, muito cedo, mas nunca se ausentou, de fato. A potência de sua voz graciosa, segue nos alcançando até hoje.

 

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