
Por Henrique Pinheiro – Economista e Produtor Executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto” e autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
Em 1964, o movimento trabalhador no Brasil era força central da vida política. Sindicatos organizavam categorias, mobilizavam greves e influenciavam governos. O ex-deputado Clodesmidt Riani, presidente do Comando Geral dos Trabalhadores, representava essa força. Era a expressão de uma classe organizada, com capacidade real de pressão.
Riani esteve no centro daquele momento. No comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, estava ao lado de João Pinheiro Neto, ex-ministro do Trabalho e da Reforma Agrária no governo de João Goulart. Ali se consolidava uma aliança entre Estado e movimento sindical.
Poucas semanas depois, veio a ruptura. No dia 4 de abril, Riani foi preso. Julgado e condenado a 19 anos por “subversão da ordem social”, teria, segundo o regime, buscado instaurar um “regime de classe”. Passou seis anos em regime fechado. Foi tratado como um preso de alta periculosidade. Sua verdadeira “ameaça” era outra: representava organização, mobilização e voz coletiva. Havia conflito, mas organizado.
Havia liderança. Havia canal. As greves eram instrumentos legítimos de pressão coletiva, através dos quais o trabalho organizado buscava participação nos resultados gerados pelo próprio esforço produtivo. Esse modelo se esgotou. O trabalho mudou.
A indústria foi fragmentada pela automação, pela terceirização e pela globalização. O chão de fábrica perdeu centralidade.
Em seu lugar, surgiu o trabalhador uberizado — sozinho, sem vínculo, sem representação. Motoristas, entregadores e prestadores de serviço estão conectados por plataformas, mas isolados entre si. Não há base, há algoritmo.
Não há liderança, há aplicativo. Não há negociação, há termos de uso. O resultado não é a paz social — é o silêncio. O conflito permanece, mas sem forma e sem voz. Em 1964, o Estado temia sindicatos fortes. Hoje, convive com uma força de trabalho dispersa, incapaz de organizar pressão. E isso pode ser igualmente perigoso. Sociedades não se estabilizam pela ausência de conflito, mas pela capacidade de organizá-lo.
Quando o trabalhador perde a voz, a insatisfação não desaparece — apenas deixa de ser ouvida. Riani foi condenado porque representava organização.
Hoje, o desafio é a desorganização. E os momentos mais delicados não são aqueles em que há greves nas ruas. Mas aqueles em que já não há quem possa convocá-las.
Foto ( Instituto João Goulart): Clodesmidt Riani discursa na posse de João Goulart, em 1962.



