
Vamos viajar na garupa leve do vento macio. Em tempos de viagem rodoviárias, tinha o hábito de, no fim da tarde, me deslocar para a cidade que visitaria no dia seguinte. À tardinha, a temperatura ficava mais amena e, dessa forma, menos cansativa. Outra questão é que já amanhecendo no local seguinte, fazendo pouso por lá, o dia fluía melhor sem a correria de ter de acordar na madrugada.
Nos bailes da vida ou num bar. O mais interessante disso tudo e, talvez, o principal motivo desses deslocamentos vespertinos estava em jantar nas churrascarias, pensões, cabarés, postos de gasolina, bares, restaurantes e tudo mais que servisse comida de primeira, fosse seguro, e, de quebra, tivesse um órgão elétrico Yamaha ou Korg tonitruante, com seu maestro, enfurecido, se sentindo o próprio Rick Wakeman. Naturalmente em solo ou acompanhado de uma cantora ou de uma dupla.
Aprendi por observação e dicas colhidas ao longo do tempo, que os melhores locais para se comer na estrada são aqueles onde há muitos caminhões estacionados e, por conseguinte gente com fome procurando comida boa, preços justos e boa diversão.
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela, está no seguro, picharam no muro. Estávamos atravessando os anos 1980. Sinhozinho Malta e a Viúva Porcina, quando Regina Duarte era somente atriz e fazia rir o Brasil, eram protagonismo, ímpar, de uma Asa Branca, microcosmo antagônico do país não muito diferente do atual. Regina ali, já era prenúncio da Regina atual. Roque Santeiro parava terras tupiniquins depois do JN, naqueles quarenta minutos não se ouvia pio em lugar nenhum. Descobri que caminhoneiros, mascates e vendedores viajantes eram noveleiros e dos bons. Discutiam personagens, imitavam gestual, compunham falas, num laboratório realizado em meio a espetos-corridos (rodízio) e pratos-feitos. Se houvesse música ao vivo era o momento do intervalo. As caixas de som passavam transmitir, não mais os vaneirões, forrós, sertanejo e, na maioria das vezes, MPB para estrepituar a estrondosa gargalhada da viúva e o guizado-cascavel, emitidos pelo atrito entre o relógio e as pulseiras, de ouro, de Malta.
Gente é para brilhar, não para morrer de fome. Gente, absolutamente politizada, engajada, ciente de seu importante papel na sociedade. Conheci o Padre João Luiz da Pastoral da Terra e seu brilhante trabalho social-espiritual. Sempre nos encontrávamos pelos caminhos. Muitas vezes parei na estrada para assistir às suas missas, pregações e um café coado. Conheci o mineiro José Eduardo que puxava cargas de café entre Minas e São Paulo. Após um acidente na empresa que trabalhava, passado o prazo legal, foi demitido por ‘incapacidade’. Sem muitas perspectivas, resolveu investir sua indenização num Mercedes e cair na estrada. Sujeito interessantíssimo, autodidata, com cultura muito acima da média, se dizia o homem mais feliz do universo, pois fez, dos limões amargos da vida, uma doce limonada temperada com amor e mel – não fez caipirinha, pois álcool e rodovias não combinam mesmo. Fazia poemas, declamava Drummond e conhecida de cor, salteado e trás para frente a obra pessoana, cujo versos enfatizava durante suas falas.
Foram tantos os personagens que não cabem em uma só crônica. Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, seguirei esses caminhos de encontros e despedidas. Mandarei notícias.

















