
Por William Rocha – Sócio do escritório Terra Rocha Advogados, diretor de Inclusão Digital e Inovação da OAB-RJ – Colunista convidado.
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) já formalizou o óbvio: a Inteligência Artificial é realidade no fazer acadêmico. Ao estabelecer normas que exigem transparência e responsabilidade, o órgão validou a IA como assistente de pesquisa. Contudo, enquanto a norma avança, um novo preconceito linguístico emerge, elegendo o travessão como prova de “crime” autoral.
O uso do travessão para enfatizar ideias ou isolar explicações passou a ser lido, erroneamente, como uma assinatura digital. Por um vício de percepção, o que antes era sinal de domínio da língua agora é tachado de sintoma de escrita automatizada.
Alega-se que as IAs abusam do recurso para organizar o pensamento, como se a clareza textual fosse uma exclusividade das máquinas.
Esse estigma ignora que o travessão é um fidalgo da nossa literatura. Ele não é uma invenção algorítmica, mas ferramenta de precisão de Machado de Assis e de profundidade em Dostoiévski.
Esse estigma ignora que o travessão é um fidalgo da nossa literatura. Ele não é uma invenção algorítmica, mas ferramenta de precisão de Machado de Assis e de profundidade em Dostoiévski.
Se a IA o utiliza com frequência, é justamente por ter sido treinada no que há de melhor na tradição escrita humana. O “robótico”, aqui, é o olhar de quem julga a forma sem ler o conteúdo.
No Direito e na Academia, a precisão é inegociável. O travessão cumpre uma função que nem a vírgula nem os parênteses executam com a mesma fluidez: ele destaca o essencial sem interromper o ritmo.ya
No Direito e na Academia, a precisão é inegociável. O travessão cumpre uma função que nem a vírgula nem os parênteses executam com a mesma fluidez: ele destaca o essencial sem interromper o ritmo.ya
Punir o uso de um sinal gráfico em nome de uma suposta “originalidade” é um retrocesso que apenas empobrece a norma culta e limita a expressividade do autor.
O veredito é simples: o foco deve estar na ética e na transparência, como bem aponta o CNPq, e não em uma caça às bruxas gramatical.
O veredito é simples: o foco deve estar na ética e na transparência, como bem aponta o CNPq, e não em uma caça às bruxas gramatical.
O travessão segue sendo um recurso indispensável para quem compreende que escrever é arquitetar o pensamento.
A boa escrita, seja ela assistida ou não, sempre terá na pontuação sua maior aliada.


