Entrevista exclusiva com Sirlea Aleixo, vencedora do Prêmio Shell 2026

Minha convidada dessa semana é nascida e criada no Jacarezinho, Zona Norte do Rio, onde vive até hoje. Sirlea Aleixo teve uma  trajetória atípica até chegar ao palco. Apesar de fomentar a cultura local desde os 13 anos, quando criou um programa de dublagem na comunidade, a chegada a vida adulta  fez com que ela se dedicasse integralmente à família: “Eu era mãe e dona de casa, era essa a minha rotina”, diz. O encontro decisivo com a arte aconteceu por acaso, no dia que foi acompanhar a filha para uma inscrição em um curso de teatro. Incentivada por pessoas que a observavam no local, decidiu fazer o teste também. Passou. A partir deste dia não saiu mais de cena. “Disseram que eu era uma joia rara e eu pedi que então me lapidassem”, relembra.
Esse ano Sirlea Aleixo  foi a vencedora do 36º Prêmio Shell de Teatro, na categoria Melhor Atriz, por sua atuação em Furacão, e assim  despontatou como relevante nome para o teatro brasileiro contemporâneo. Em cena, a atriz dá vida à Joséphine Linc Steelson, “uma velha negra de quase 100 anos”, sobrevivente do furacão Katrina, em uma interpretação arrebatadora que transcende o evento climático para abordar a violência histórica do racismo ambiental.  Em nosso bate-papo ela falou sobre a importância do Prêmio Shell, da vida na comunidade do Jacarezinho, do futuro e muito mais. Confira!

JP –  Olá Sirlea Aleixo! Qual foi a importância de ter sido agraciada com o 36º Prêmio Shell de Teatro, na categoria Melhor Atriz, por sua atuação em Furacão?

A sensação que eu tenho é um respiro de reconhecimento no teatro.

JP – Qual é o balanço que você faz da sua trajetória como atriz?

Olhar para minha trajetória como atriz é perceber uma caminhada feita de descobertas, desafios e muita persistência. Nunca imaginei que acabaria nos palcos. Tudo começou de forma inesperada, acompanhando minha filha a um curso de teatro e me inscrevendo também. Com o tempo, percebi que ali estava meu lugar, e cada personagem que interpretei foi uma forma de aprender, de me conectar com a minha história e com a memória de tantas mulheres da minha vida., cada papel me ensinou algo novo sobre mim mesma e sobre o mundo. Vejo minha carreira como uma construção contínua: orgulhosa do que já conquistei, mas sempre aberta a novos desafios, especialmente no cinema e na televisão, onde ainda sonho em expandir minha voz e presença artística.

JP – Quando surgiu o seu interesse em ser atriz?

Não houve um interesse especifico em ser atriz, houve um encontro meu e da arte. A arte me resgatou, me desabrochou, me despertou como mulher negra e como mulher mesmo, como uma pessoa no mundo. Meu encontro com a arte foi um casamento, até agora bem feliz.

JP – Como se deu a sua formação como atriz?

Começou no curso Nossa Senhora do Teatro e depois fui aprendendo na prática com as oficinas do Amok Teatro, estudei as técnicas de Ivana Chubbuck com Marina Rigueira, oficina Mergulho em cena com Cris Moura e aprendi bebendo diretamente da fonte de Ariane Mnouchkine monstra do Théâtre du Soleil. Carrego um pouco de cada atriz e ator com quem pude ter uma troca, e as cicatrizes de cada personagem que interpretei, como diz Matheus Nachtergaele.

JP – Quais são as suas referências (teóricas e práticas) no campo teatral?

Minhas referências teóricas incluem Ariane Mnouchkine, Antonin Artaud, Étienne Decroux, Stanislavski, Ivana Chubbuck, e Michael Chekhov, que influenciam minha visão sobre corpo, interpretação e dramaturgia. Tem também o Bertolt Brecht com o teatro político, que é bem o que eu faço na minha vida desde o início, mesmo quando eu ainda não tinha noção. E eu também trabalho muito a questão da energia, como se fosse energia magnética, a energia que a gente se coloca no espaço. Quando eu vou me apresentar eu aciono uma energia, como se por detrás de mim tivesse uma imagem minha bem grande daquele personagem, assim que eu entro nos espetáculos. E se de repente a personagem está murcha, para baixo, eu tendo a fazer uma imagem magnética minha, que ela está bem pequenininha ali, contraída. É doideira mesmo as nossas construções, a gente aprende um pouco aqui e um pouco ali, e é assim que a gente se constrói e se transforma.

JP – O que é ser preto no Brasil?

Hoje eu posso dizer como o teatro me trouxe esse orgulho de ser negra, através do teatro eu me vi orgulhosa de ser negra. Até entao eu tinha vergonha por causa do racismo estrutural que tem no nosso país. Então hoje eu te diria que ser preto no Brasil é orgulho acima de tudo e consequentemente é resistência.

JP – Como atriz, você teve de enfrentar preconceitos raciais?

E qual ator ou atriz preto não teve que enfrentar? Não só teve como tem que enfrentar no dia a dia. Essa é a nossa luta nesse mundo.

JP – Você nasceu e vive na comunidade do Jacarezinho. Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelos cidadãos que vivem no Jacarezinho?

Resumindo é a invisibilidade, porque nos olham, mas não nos veem realmente.

IMG-20260407-WA0071-300x200 Entrevista exclusiva com Sirlea Aleixo, vencedora do Prêmio Shell 2026

JP – O fato de você ser preta e residir numa comunidade te trouxe dificuldades?

Foi um fator que fez você resistir e lutar?
Só o fato de ser uma mulher preta, a palavra dificuldade já faz parte do nosso dia a dia. Quanto mais uma mulher preta de comunidade, então essa dificuldade se potencializa, mas é sobre isso: resistência. É sobre lutar pra resistir, permanecer viva e não ser apagada.

JP –  Quais são os seus projetos futuros?

A peça Querida Mamãe, um texto de Dario Fo e direção de Yuri Negreiros, com três apresentações marcadas para o final de abril em Campos dos Goytacazes.
O espetáculo Incondicional, da Amok, que vai abordar histórias de presas em uma penitenciária feminina no Brasil, com estreia prevista entre junho e julho.
Tem outros trabalhos que já estão no forninho, mas ainda não podem ser divulgados
Espero que venham ainda muitos trabalhos pra que eu possa dizer que eu vivo de arte. É o que eu desejo pra conquistar os meus sonhos. Que eu tenha saúde pra prosseguir com fé e o resto a gente corre na frente.

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