Fragmentos da Memória de uma Comunidade Ribeirinha e Desastre Ambiental

A realização é do  Grupo Teatral Moitará.

 

O texto de autoria de Fidelys Fraga, livremente inspirado no texto ‘Alumbramentos’ da escritora Nathercia Lacerda, é fragmentado, apresenta narrativa entrecortada e não linear, mescla distintas temporalidades, reforça a importância da memória, conservacionista, ancestral, poético, emocionante, crítico, reflete sobre as relações entre o homem e a natureza, denuncia os desastres ambientais, a empatia com o “outro”, utiliza a linguagem do realismo fantástico, valoriza os saberes das culturas tradicionais, recupera lendas e tradições locais, incorpora a acessibilidade cultural e artística em Libras, e contemporâneo. Narra como a instalação de uma fábrica num vilarejo afetou a vida local, suas tradições, seu quotidiano, a identidade do grupo. Sublinha a importância de se manter a comunhão entre ser humano e natureza, coexistência afetada quando se fala em nome do progresso.

 

O elenco tem uma atuação de qualidade e emocionante. Ele é constituído por Gustavo Vieira e Joyce Araújo. Os dois apresentam uma atuação refinada, e emocionam. Ele dominam o palco apresentando uma linguagem clara, concisa, e de fácil compreensão. Eles comovem a plateia ao mostrar as mazelas que a instalação de uma fábrica trouxe para o vilarejo, causando um desastre ambiental e destruindo a conectividade existente entre homem e natureza. Eles narram fragmentos de memória de personagens, histórias, afetos e paisagens. Ao mesmo tempo, resgatam com sensibilidade o legado das ancestralidades, das lendas amazônicas, e dos saberes tradicionais. Dominam o palco, se movimentando intensamente  e ocupando todos os espaços. Apresentam uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação comovente e merecedora de elogios.

 

Os dois atores acima referidos contracenam com dois intérpretes, Ricardo Boaretto e Jhonatas Narciso. Eles estão no palco o espetáculo integral, acompanhando passo a passo a fala dos atores, importante ação de inclusão do público surdo e mudo. A acessibilidade integra a dramaturgia.

 

A direção de Erika Rettl é potente, realizando as marcações certeiras e precisas, e dando uma direção à atuação de qualidade do elenco, que incorpora também a acessibilidade cultural e artística naquela ribalta.

 

Os figurinos e a cenografia foram criados por Carlos Alberto Nunes.

 

Os figurinos são criativos, rústicos, adequados ao espetáculo, e facilitam o deslocamento dos atores pelo palco. São todos sujos de lama, ganhando destaque um que é todo esfarrapado.

 

A cenografia é rústica, utiliza materiais alternativos, e apresenta os elementos cenográficos dispostos de forma correta pelo palco. Pelo palco visualizamos diversos latões e galhos secos. Suspensas no teto vemos as casas em miniatura do vilarejo. E, ao fundo, a imagem da lua.

 

A iluminação de Djalma Amaral apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. O desenho de luz, em que oscila momentos de claridade, predominando uma luz em tom âmbar, ora momentos de penumbra, acompanha o contexto das cenas, e complementa as falas do elenco.

 

A direção musical de Caio Padilha é adequada e funcional.

 

O espetáculo apresenta uma dramaturgia fragmentada e poética para refletir sobre a necessidade urgente de se conectar de forma mais profunda com a vida e com a natureza; um elenco de qualidade e que emociona; e cenografia e figurinos criativos e marcados pela rusticidade.

 

Excelente produção cênica!

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