Em Chico Vartulli convida: As multifaces de Edgar Mandarino

Essa semana fui conversar com Edgar Mandarino  que atua de forma multifacetada como arquiteto, urbanista, decorador e artista plástico.  Além disso,  é  também conhecido por suas apresentações musicais, participando de projetos como o “Um Cantinho, Um Violão” e interpretando clássicos da música nacional e internacional.  O homem é uma máquina! Confira nosso bate-papo que tá uma delícia.
JP –  Olá Edgard! Você é um misto de design de interiores e cantor. Como você concilia esses dois perfis?

 Em ambas atividades, sou conduzido pela emoção. Quem dá a última palavra é minha alma. E minha emoção é uma explosão diária. Tudo toca minha alma: Um pássaro que pousa perto de mim, uma luz que atravessa uma janela ou uma árvore, um olhar penetrante e sedutor, um gesto meigo, um gesto ríspido, um cumprimento e uma indiferença…E cada percepção, de alguns forma, me incita reflexão e desejo de expressão, às vezes, visando algo que se torna claro e urgentemente necessário para ser colocado em prática, às vezes, alimentando desejos poéticos que não precisam ser realizados em termos concretos. Isso tudo, traduzo em palavras e desenhos no ofício de Arquiteto, e em sons ao cantar. Os sons que percebo é que emito me conduzem à concepção de espaços que possam hospedá-los, e a expressão ao desenhar arquiteturas e ao escrever configurações espaciais e ambientais me fazem mergulhar num mundo de sensações, proporções, cores e texturas que me devolvem à minha memória musical , e  nela se encaixam, inspirando-me, a ponto de me incitarem a montar roteiros que canto nas calçadas, sob chuveiro ou nos palcos. É fácil pensar que estas atividades se manifestam coordenadas, cada uma criando portas e janelas para a outra. Nos sonhos e na prática se unem e se complementam.

JP – Qual veio primeiro: o canto ou o interesse pelos projetos de arquitetura?

 A paixão pela arte como um todo veio primeiro… E neste processo primal de formação pessoal como um todo, de descobertas, o canto sensibilizou-me primeiro, talvez pelo fato de serem  a música e o canto as manifestações mais abstratas das artes, e, também, de comunicação mais imediata com os sentidos. A música me trouxe o espaço da contemplação, e através dela tornei-me um profundo contemplador do entorno, das paisagens edificadas e naturais…E, a contemplação me conduziu à vontade de preservar e de participar dos movimentos de criação de espaços e ambientes. Meu quarto , desde muito cedo, foi um laboratório de experiências para configurações ambientais. E logo percebi a diferença entre espaço e ambiente. Na verdade, passei a especular sobre o tanto que um ambiente pode trazer ao homem em termos de  prazer e felicidade. A dedicação intensa à minha formação acadêmica exigiu que eu deixa-se o canto num segundo plano, cumprindo , mesmo assim, a função de repositor de luz e motivação. Não pensava em me tornar cantor profissional, mas tinha a plena necessidade de cantar e respirar música como forma maior de purificar-me. Hoje, as duas atividades são realizadas simultaneamente e se casam. É amor que não tem fim…

JP – Como se deu a sua formação nas duas áreas?

A minha trajetória musical tem origem no apreço desde a infância pelo belo canto, pelas canções ricas de significado poético e de melodia, e se baseia na intuição principalmente. A contemplação de canções de diversas etnias e culturas, de canções ribeirinhas do Brasil, do canto folclórico e dos repertórios das cantoras da Rádio me influenciam.  Vou trabalhando minha emoção vivendo intensamente as canções que despertam um canto visceral, vindas de todos os lados do mundo.
A minha trajetória como Arquiteto Decorador tem seu momento primal na infância ao se deixar seduzir pelas diversas linguagens estéticas e as diversas funcionalidades dos espaços e pelo apreço que desenvolvi pela história e produção de Arquitetos e Engenheiros da família de minha mãe os quais criaram a Construtora De Paoli que nasceu de experiências em Belo Horizonte e que se desenvolveram no Rio de Janeiro – RJ onde teve seu apogeu. Graduei-me em Arquitetura e Urbanismo pela UnB – Universidade de Brasília, sendo que passei também pelo Departamento de Arquitetura da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina na qual tive um excelente aprendizado com professores visitantes do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da USP – Universidade de São Paulo. Desta forma, minha formação foi rica e complexa, abordando diversas correntes, conceitos e paradigmas.  Vários estágios e bolsas do CNPq enriqueceram minha formação em termos gerais e artísticos.
Recém formado, comecei a  desenvolver  Projetos de Interior e Decoração , residenciais e comerciais, para o Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pará , EUA e Chile. Participo de Mostras de Decoração e participei do CASACOR RIO. Tenho trabalhos publicados na Revista Casa Claudia, Casa e  Jardim, Mínimo e Máximo , Vogue, e , também, nos livros DECOR BRASIL e DECOR RIO DE JANEIRO.

JP – As duas áreas lhe dão retorno financeiro? Justifique.

A Arquitetura e a Decoração me trazem retorno razoável em função do que investi em termos de divulgação. Poderia ser maior, se assim eu desejasse. E a indicação para os meus projetos e feita de pai para filho e de amigo para amigo. O canto ainda está na fase de investimento. O retorno maior é o reconhecimento que está crescente.

JP – Quais são as características do seu “fazer arquitetônico”?

 A minha criação arquitetônica está intimamente ligada aos conceitos que desenvolvo para os Interiores e para as Decorações. A base é o quadro de necessidades do cliente: funcionais e poéticas. Uma vez consciente disto, parto os meus arquivos mentais que se formam através de observações pelos cantos pelos quais passo do Brasil e Mundo , pelas literaturas que pesquiso das Artes e das Culturas mundo afora.  O que me norteia é que sempre que se pesquisa profundamente algo, chegamos , também, ao que ele tem de universal. E é assim que conduzo a conceituação ao projetar: Vou do universo apreendido do cliente às verdades e autenticidades percebidas e analisadas para além dele…Depois é checar como tudo isto pode ser expressado  através dos recursos técnicos existentes, e o que pode ser criado para que se possa viabilizar as intenções de Projeto.
JP – Quais são as suas fontes de inspiração na música?

 A minha emoção diante do que escuto me move para a escolha de repertório. Tenho que sentir poesia e verdade no que vejo e escuto.  A Ópera me influencia pela multiplicidade de linguagens, o Canto Popular me comove até o osso, a MPB me faz transmutar, as canções Românticas e o Brega que fazem conhecer os desejos mais íntimos, meus e dos outros. Tudo isto coordenado num amálgama espiritual definem minhas escolhas ao conceber um roteiro musical. Destaco minha paixão pelas Cantoras da Rádio e pelos Grandes Compositores da MPB como Dolores Duran , Maysa, Cartola, Herivelto Martins, Custódio Mesquita, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Audi Blanc, Milton Nascimento, Chico Cesar etc. O Drama e o Visceral são os meus universos… Sem eles não há vida em mim e nem vida para eu cantar!

IMG-20260627-WA0086-300x296 Em Chico Vartulli convida: As multifaces de  Edgar Mandarino
Show no Clube Monte Líbano, acompanhado pelo Pianista e Tecladista Márcio Moura, cantando canções do repertório de Ney Matogrosso
JP –Você já relacionou em algum projeto de arquitetura com a música? A música já lhe serviu como inspiração arquitetônica?

Em minha vida, naturalmente a Música e a Arquitetura estão interligadas porque sou cantor e necessito cantar, assim, é natural que minhas concepções espaciais sejam influenciadas pelo encanto permanente que a Música exerce sobre mim. Em alguns casos, com certeza nos espaços voltados diretamente para a música tive cuidados mais objetivos, mais técnicos.
Mas, pensando mais amplamente sobre música e  arquitetura, digo que compartilham uma ligação profunda e interdisciplinar, frequentemente resumida na famosa citação de Goethe: “a arquitetura é a música petrificada (ou congelada)”. Ambas são artes abstratas baseadas na organização, proporção e ritmo, onde o espaço se torna sonoro e a música se torna espacial.

JP – Quais são os seus projetos futuros?

Não tenho Projetos para o futuro, mas, sei que tenho um futuro rico para  me expressar, porque acumulei ricas experiências para me assessorarem seja para o que for, para criar e para reciclar! E, com certeza,  os resultados serão consequência da preocupação em ser verdadeiro e naturalmente autêntico para propor soluções e escutar desafios e necessidades. Seja na Música, seja na Arquitetura.

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