“Judia, Atriz, e Desquitada”

Estreou BERTA – MINHA VIDA POR UM PALCO no teatro do Centro Cultural da Justiça Federal.
O texto de Miriam Halfim e Marcelo Aquino é biográfico; linear; didático; memória; resistência; celebração; poético; sensível; humanista; emocionante; mescla momentos tensos da trajetória de vida de Berta Loran com outros cômicos e divertidos; antiapagamento; valoriza a voz feminina; utiliza linguagem simples e acessível; contemporâneo.
O texto recupera a trajetória da atriz e comediante Berta Loran mostrando como a vida sua vida foi marcada por sucessos e fracassos, glórias e tragédias, pacificidade e violência, alegrias e tristezas. A resistência, a ousadia, a irreverência e a insistência foram marcas da sua vivência. E Miriam Halfim não quer deixá-la cair no esquecimento, ser apagada. O texto se transformou num importante instrumento de preservação da vida de uma mulher, cuja trajetória se eternizou num palco de teatro.
A dramaturgia assume um tom de denúncia ao tornar pública a perseguição aos judeus pelos nazistas na Polônia. A família da pequena Basza Ajs foi perseguida e passou por diversas humilhações, tendo que fugir do local onde vivia e residia, e atravessar o oceano, até chegar à cidade do Rio de Janeiro. Vieram, venceram e ficaram!
O espetáculo não é uma mega produção. Pelo contrário, é simples, austero e com algumas limitações. Mas foi concebido com carinho e afeto, por quem conheceu e conviveu com Berta Loran.
O elenco é integrado por Andrea Dantas, Alexandre Regis, Junior Vieira, e Patrícia Pinho. Eles estão unidos, entrosados e afinados. Se apresentam de forma equilibrada e harmônica. Eles apresentam uma interpretação refinada, e emocionam. Narram com afeto, carinho e sensibilidade as diversas nuances da trajetória da atriz Berta Loran. Eles dominam o texto, passando-o com clareza, utilizando uma linguagem acessível, e apresentando uma boa retórica. Dominam o palco, se movimentando intensamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, eles têm uma atuação de qualidade e merecedora de elogios.
Andrea Dantas e Patrícia Pinho fazem Berta. São duas Bertas. Elas narram a trajetória de vida da atriz e comediante com interpretações potentes e emocionam.
A direção de Ary Coslov é dedicada, sensível e emocionante, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
A cenografia criada por Ary Coslov e Mauro Leite é simples, e pouco criativa. A trajetória de Berta Loran possibilita todo um imaginário para a confecção de uma cenografia mais elaborada e solucionada. Ponto negativo da peça.
Os figurinos criados por Mauro Leite são de bom gosto, bem solucionados e modelados, e facilitam o deslocamento dos atores e atrizes pelo palco. As atrizes vestem vestidos em tons vinho e bege. E os homens usam terno preto, e na cabeça usam uma Kipá, a boina judaica.
A Iluminação criada por Aurélio de Simoni apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação das atrizes e dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas dos elencos.

A direção de movimento criada por Lavínia Bizzotto e Alê Maïa imprimiu uma dinâmica ao espetáculo, de forma que o elenco se movimenta de forma ilimitada pelo palco.
A trilha sonora criada por Ary Coslov e Marcelo Aquino é funcional e adequada.
Berta – Minha Vida Por Um Palco tem um texto poético e afetuoso que busca valorizar a memória da atriz e comediante; uma direção competente e dedicada; e um elenco de qualidade e merecedor de elogios.
Ótima produção cênica!
