
Há pessoas que a gente fotografa com os olhos. Mestre Zu era uma delas. Zuenir Ventura chegava sem fazer barulho. Um sorriso discreto. O olhar atento. A palavra sempre pronta, mas nunca apressada. Tinha a rara elegância de quem sabia ouvir. E isso, hoje, é quase uma fotografia antiga. Em tempos de tanta pressa, Mestre Zu caminhava devagar. Devagar não era lentidão. Era atenção. Via pessoas. Via histórias. Via o Rio. Talvez por isso tenha sido tão grande jornalista. E tão grande escritor. Porque antes de escrever, olhava. Antes de julgar, escutava. Antes de transformar uma história em texto, procurava o homem escondido dentro dela.
Mestre Zu conhecia o Brasil pelas suas contradições. Pelas ruas. Pelos personagens. Pelas dores. Pelas esperanças. E conhecia o Rio pelo afeto. O Rio da janela aberta. Da calçada molhada depois da chuva. Do vendedor de jornal na esquina. Do botequim de porta aberta. Do mar de Ipanema recortando o horizonte. Do Cristo aparecendo entre dois prédios. Do carioca sentado diante do nada, olhando o mar como se conversasse com ele. Esse era o Rio de Mestre Zu. Um Rio físico. De pele, sal e sol. Mas também um Rio indelével. Aquele que permanece quando a paisagem muda. Quando o prédio antigo desaparece. Quando a esquina deixa de ser a mesma. Quando as pessoas partem. O Rio que fica dentro da gente.
Mestre Zu carregava esse Rio consigo. Talvez por isso suas palavras tivessem sempre alguma luz carioca. Mesmo quando escrevia sobre o Brasil mais duro, havia nelas uma espécie de janela. Uma possibilidade de enxergar além. Ele fez do jornalismo uma maneira de compreender o país. E da literatura, uma maneira de guardar aquilo que o tempo insiste em apagar. Há jornalistas que registram acontecimentos. Mestre Zu registrava vidas. E há escritores que inventam mundos. Mestre Zu encontrava mundos nas pessoas. Foi assim que sua obra atravessou gerações. Foi assim que chegou à Academia Brasileira de Letras. A cadeira de um imortal não é apenas uma cadeira. É uma fotografia de longa exposição. Nela ficam os que passaram. Os que escreveram. Os que pensaram. Os que ajudaram a construir a língua, a literatura e a memória de um país. Ao tornar-se imortal da Academia, Mestre Zu ganhou um lugar entre essas vozes. Mas, pensando bem, sua verdadeira imortalidade já estava garantida. Estava nas páginas. Nos livros. Nas reportagens. Nos leitores. Nos amigos. Nos colegas. E, principalmente, na lembrança de quem teve o privilégio de encontrá-lo. Porque algumas pessoas deixam saudade. Outras deixam ensinamentos. Mestre Zu deixou os dois. E deixou também uma delicadeza.
Uma maneira de olhar o outro. Uma maneira de conversar. Uma maneira de estar no mundo. Hoje, quando penso nele, imagino uma fotografia. Mestre Zu caminhando pelo Rio. A luz da tarde batendo de lado. O mar ao fundo. Uma brisa mexendo a camisa. Ele para por um instante. Olha. Sorri. Talvez tenha acabado de encontrar uma história. Talvez tenha apenas encontrado o Rio. E, como sempre, tenha entendido que os dois eram a mesma coisa.
Porque Mestre Zu não apenas amou o Rio. Ele ajudou a escrevê-lo. E algumas cidades, quando encontram homens assim, também se tornam imortais.




















