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Contagem regressiva: “Será crime querer ver o Brasil progredir?”

Contagem regressiva: “Será crime querer ver o Brasil progredir?”

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Por Henrique Pinheiro  – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
10 de maio de 1964.
Meu pai, João Pinheiro Neto, estava preso na Fortaleza de Santa Cruz.
Minha mãe, Leda, tinha 24 anos e três filhos pequenos. Minha irmã mais velha tinha cinco anos, eu tinha três e a caçula apenas seis meses.
Naquele 10 de maio, ela escreveu ao marido.
Não era uma carta política. Era a carta de uma mulher jovem, separada do marido pela prisão, tentando compreender o que estava acontecendo com sua família.
Logo no início, escreveu:
“Já não aguento mais esta separação. Revolta-me vê-lo afastar-se após cada visita como um criminoso.”
E, então fez uma pergunta que, mais de seis décadas depois, conserva toda a sua força:
“Mas, meu Deus, será crime querer ver o Brasil progredir e ver menos miséria e abandono?”
Minha mãe continuava:
“Se há um campeonato que não queremos continuar a ser o primeiro é o da mortalidade infantil.”
E, talvez, o trecho que melhor revele de onde vinha sua indignação seja este:
“Enfim, eu não entendo dessas coisas, mas sou cristã e isto é contra qualquer princípio cristão.”
Ela não falava como militante. Não elaborava uma tese política. Falava como esposa, mãe e cristã, diante de algo que simplesmente não conseguia aceitar.
Mesmo sofrendo, ainda procurava transmitir coragem ao marido preso:
“O que me consola é vê-lo firme resistir à tempestade com a valentia e ânimo que os tranquilos de consciência possuem.”
Essa carta ficou guardada por mais de sessenta anos.
Hoje, ao lê-la, não vejo apenas uma correspondência entre meus pais. Vejo uma jovem de 24 anos tentando entender por que o marido estava atrás das muralhas de uma fortaleza.
E, fazendo uma pergunta simples:
“Será crime querer ver o Brasil progredir e ver menos miséria e abandono?”
Foto: Acervo de Leda Pinheiro.