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Hoje em “Chico Vartulli Convida” entrevista com o médico e ator Murici Lima

Hoje em “Chico Vartulli Convida” entrevista com o médico e ator Murici Lima

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Meu convidado dessa semana é um artista em dose dupla. Murici Lima é formado em Artes Cênicas pela Escola de Teatro Martins Pena – RJ, além de ter formação em música e circo. Recentemente, atuou nas séries ‘Impuros’ e ‘Todo Dia a Mesma Noite’. Entre seus últimos trabalhos no teatro estão os musicais ‘O Beijo no Asfalto’, direção de  Menelick de Carvalho, ‘O Cravo e a Rosa’, direção de  Rafaela Amado e ‘Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu’, dirigida por . João Fonseca. Além do ofício de ator, Murici também é médico cirurgião plástico e atua no Serviço Público. Merece ou não merece aplausos em dose dupla?
JP – Olá Murici! fala um pouco do seu personagem na peça “O Sonho de um Homem Ridículo .
Trata-se de um sujeito sem nome, e Dostoiévski faz isso para que esse sujeito se universalize, ou pelo menos se multiplique dentro de um sentido de humanidade.  Ele carrega uma profunda decepção com o mundo e época em que vive, e se reconhece ridículo, por ser motivo de zombaria por suas atitudes e ideias. Todos riem dele. Cansado e mergulhado na desesperança, não vê sentido em sua existência, e toma a decisão de tirar a própria vida.
Numa noite fria e chuvosa, enquanto caminhava para casa e decidido a cometer o ato, ele se depara com uma criança pobre e desesperada que lhe pede ajuda, pois algo grave estava acontecendo com sua mãe.  Ele não a ajuda, uma vez que acreditava que nada mais na vida importava. Ao chegar em casa é surpreendido por uma empatia e percebe que ainda é capaz de sentir compaixão, e isso o perturba com um peso de culpa.
Seus pensamentos parecem um inquisidor, e sentado em sua poltrona, ele adormece e sonha com o próprio suicídio. Sonha ser conduzido a um planeta espelho da terra, porém habitado por pessoas inocentes e felizes. Um mundo sem inveja, brigas, mentiras, corrupção, poder ou qualquer outro vício. Pela primeira vez se sente amado. Porém, com a convivência, ele sente a necessidade de compartilhar os seus conhecimentos, e sem perceber ele planta entre aqueles seres puros, as mazelas do seu mundo de origem, e vê florescer a corrupção, a mentira, a guerra, a escravidão… Vendo a ruína que causou, ele  se desespera, e tenta convencê-los a voltar ao estado inocente e feliz. Mas aqueles já não querem mais, e o chamam de louco, ameaçando interná-lo num asilo.
Então, ele acorda! Mas agora está redimido da angústia sem esperança. Agora ele entende que o sofrimento tem sentido e que o amor e a verdade são os únicos caminhos reais, e decide que vai pregar o amor, o respeito e a compreensão ao próximo, ainda que todos continuem rindo dele.
JP – Como surgiu seu interesse pelo teatro?
Nasci no interior de Goiás, numa cidade hoje pertencente ao Estado do Tocantins. Era um lugarejo no qual não havia sequer, luz elétrica. Estudava à
luz de lamparina. As roupas eram lavadas nos córregos. Daí, um dia chegou nesse lugar, um grupo de ciganos que à noite improvisava atividades semelhantes a um circo. Ali fui picado! Pareceu a “coisa” mais linda que meus olhos já haviam testemunhado e o coração sentido. Eu devia ter uns 8 anos de idade. Passei a me utilizar dessa linguagem cênica na escola, a cada momento que a oportunidade propiciasse. Depois me mudei com minha família para uma cidade um pouco maior, foi quando então pela primeira vez tomei conhecimento sobre os conceitos do teatro e circo, e os escolhi como companheiros de vida.
Depois veio a escolha por uma carreira científica, e escolhi a Medicina. Houve uma espécie de negociação íntima. “Te quero muito, mas  já trago um outro amor, do qual não quero me distanciar”. Nós três nos entendemos! E um sempre entendeu o tempo dos outros dois.
Vim para o Rio de Janeiro fazer Residência Médica em Cirurgia Plástica. Durante o dia me dedicava à especialização, e à noite ia para a escola de Teatro Martins Pena, onde recebi minha definitiva formação em Arte Cênica.
Hoje continuo atuando em dois hospitais públicos, dentro da minha especialidade, e fazendo isso com muita paixão. E ao mesmo tempo me permitindo fazer presente nos palcos.
JP – Quais são seus escritores favoritos?
A leitura me é um hábito presente desde a tenra idade, para não dizer viciado, e procuro fazer uma leitura bem diversificada. E tenho sim aqueles que me despertam maior encantamento. Na literatura brasileira, guardo como especiais o Machado de Assis, Drummond, Manoel de Barros, Mário Quintana, Jorge Andrade e Nelson Rodrigues. Na literatura mundial, Dostoiévski, Tolstoi, Goethe, Victor Hugo, Shakespeare e Thomas Mann.
JP – Quais são as peças que você já apresentou e cita a que mais lhe empolgou.
Álbum de Família (Direção Jorge Farjalla)
Dante’s Purgatório (Direção Jorge Farjalla)
Os Sete Gatinhos (Direção Jorge Farjalla)
Vem Buscar-me Que Ainda Sou Seu – Musical (Direção João Fonseca)
O Grande Circo Místico – Musical (Direção Paula Sandroni)
A Pequena Miss Sunshine – Musical (Direção Sergio Módena)
O Beijo no Asfalto – Musical (Direção Menelick de Carvalho)
O Cravo e a Rosa – Musical (Direção Rafaela Amado)
Charlie – A Fantástica Fábrica de Chocolate – Musical (Direção Anderson Rosa)
As Cangaceiras – Musical (Direção Rafaela Amado)
O Sonho de um Homem Ridículo – (Direção Anderson Rosa)
Quanto a minha relação com elas, todas me foram muito especiais, até porque cada uma teve o seu próprio momento e história. Mas houve aquelas que me promoveram um salto maior em aprendizado e visibilidade, claro. E essas, considero O Beijo no Asfalto e o Sonho de um Homem Ridículo pela profundidade dos personagens que me foram dados.
JP – Como é conciliar a carreira de ator e cirurgião?
Como já disse anteriormente, há um acordo velado entre nós – eu, o médico e o ator, em sermos compreensivos e tolerantes quanto às nossas necessidades. Claro que da forma comprometida e responsável como encaro, estou sempre tendo que ajustar as escolhas uma hora a favor de um, outra hora a favor de outro. E assim se torna possível a existência pacífica entre nossas necessidades.
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JP – Qual a sua visão da cirurgia plástica no mundo atual?
Há uma distinção entre a especialidade em si, como ciência, e a imagem construída por profissionais que  se utilizam dela. Como ciência vem acontecendo um grande salto de evolução diagnóstica e terapêutica – seja na sua parte reparadora, seja na estética. Quanto à imagem, infelizmente há uma apologia à venda de suas possibilidades, muitas das vezes em mãos e discursos de pessoas sem a formação exigida – o que gera uma desconfiança.
O meu campo de atuação é predominantemente na Cirurgia Plástica Reparadora, pelo fato de eu atuar no Serviço Público. E embora haja pouca divulgação sobre os seus avanços nos meios de imprensa e redes sociais, no meio acadêmico esse avanço é bem reconhecido. Evoluímos muito no tratamento de sequelas de queimaduras, tumores cutâneos, tumores de mama e trauma, e a sociedade se beneficia muito disso, apesar de não haver a glamourização.
JP –  No seu ponto de vista, prefere, monólogo ou musical?  
Quando se trata de teatro, gosto de encenar. Por isso, seja no teatro musical, seja no teatro convencional, o prazer tem relação direta com o que me é confiado a defender. Mas talvez, por gostar do aprofundamento psicológico do personagem, o teatro convencional termina se permitindo a isso um pouco mais.
JP – Quais são os seus planos futuros?
Diante da paixão desenvolvida pelo texto e autor desse meu último trabalho (O Sonho de um Homem Ridículo – Fiódor Dostoiévski), e pelo sucesso da temporada, o principal plano e desejo, é conseguir dar continuidade a esse trabalho.