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Quem vai pagar a conta? Você? Sua família? Que país surgirá depois das escolhas que fizermos?

Quem vai pagar a conta? Você? Sua família? Que país surgirá depois das escolhas que fizermos?

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 Por Carlos Fidelis Ponte –  Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz –  Colunista convidado.

 E, se as escolhas feitas agora decidirem se você terá emprego amanhã, quanto dinheiro chegará à sua casa e qual será o futuro dos seus filhos? E se puderem empurrar o país para uma crise e, para muita gente, a vida nunca mais voltar a ser como antes?

O que acontece se a proposta vencedora for cortar gastos de qualquer jeito? O que aparece numa planilha como “gasto” pode ser o posto de saúde, a escola do seu filho, uma obra que gera empregos ou um programa que põe comida na mesa. Esse dinheiro circula, movimenta o comércio e ajuda a manter empregos.

Há desperdícios a combater e privilégios a rever. Comecemos pelos juros. É o Banco Central, hoje autônomo, que decide a taxa básica de juros. O Banco Central não é o governo. Mas suas decisões têm lado e consequências: juros altos favorecem banqueiros e quem tem muito dinheiro aplicado, enquanto o crédito fica mais caro, famílias se endividam e empresas investem menos. Quem ganha e quem perde com juros tão altos?

Também precisamos discutir isenções e benefícios fiscais a setores empresariais e o volume injustificável das emendas parlamentares. Antes de cortar saúde, educação, investimentos e políticas sociais, por que não começar pelos privilégios?

Dizem que é preciso cortar gastos para colocar a economia em ordem. Isso é verdade? Uma economia não melhora simplesmente porque o governo corta.   Ela melhora quando cria empregos, aumenta a renda, estimula investimentos e faz o dinheiro circular.  Quem tem renda compra, paga serviços e movimenta o comércio. As empresas vendem, produzem e contratam. É assim que o mercado interno ganha força.

Por isso, precisamos perguntar: cortar o quê e quem vai pagar essa conta? Vamos rever privilégios e isenções concedidas a grandes empresas, discutir os juros e cobrar mais de quem tem mais? Ou cortar serviços dos quais depende a maioria? Quem mora no andar de cima também vai pagar ou, mais uma vez, a conta chegará ao andar de baixo?

Depois de grandes cortes, a economia perde força: circula menos dinheiro, o consumo cai, empresas vendem menos e empregos podem desaparecer. Quem está embaixo sente primeiro e sofre mais. Para uma família pobre, perder renda pode significar menos comida, aluguel atrasado ou falta de remédio. Quem tem patrimônio se protege melhor; quem vive do salário, de aposentadoria pequena ou de benefício social não tem onde cortar.

A economia pode voltar a crescer e as contas públicas melhorar. Mas a vida de quem perdeu o emprego, fechou seu negócio ou se endividou pode não voltar ao que era antes. Melhorou para quem? Por que aceitar como inevitável um ajuste que pode destruir empregos, renda e oportunidades enquanto privilégios continuam protegidos?

Quando milhões de famílias gastam menos, a padaria, o restaurante, a oficina e as lojas vendem menos. Menos emprego significa menos renda; menos renda, menos consumo; menos consumo, menos vendas e produção; menos produção, menos empregos. Menos emprego e oportunidades também podem significar mais insegurança e violência. Quando o crime organizado cresce, pode penetrar nas instituições, corromper agentes públicos e comprometer o Estado. O Rio sofre há décadas com esse processo. Não podemos deixá-lo se espalhar pelo país. Não podemos deixar que o Brasil seja dominado pelo crime.

É enganoso dizer que só existem duas escolhas: gastança ou responsabilidade. A discussão é outra: o que deve ser cortado, o que precisa ser preservado e quem deve pagar a conta? Responsabilidade é cuidar também dos empregos, das famílias e dos serviços públicos, incluindo saúde, educação e segurança.

Uma crise não atinge todos da mesma maneira. Uma família pode perder a casa, um comerciante fechar as portas e um trabalhador perder o emprego. Enquanto isso, quem tem patrimônio pode comprar barato o que os outros foram obrigados a vender. Uma crise não redistribui apenas renda. Redistribui patrimônio e poder. Há quem entre numa crise rico e saia dela ainda mais poderoso.

O campo progressista construiu políticas que ajudaram milhões a enfrentar a fome e a miséria, chegar à universidade e ampliar oportunidades. O Farmácia Popular, por exemplo, atendeu 27,3 milhões de pessoas em 2025. Não estamos falando apenas de programas de governo. Estamos falando de comida, escola, universidade, remédio, emprego e dignidade.

Em vez de simplesmente cortar, precisamos ir além: melhorar a vida da população, conquistar o fim da escala 6×1, fazendo justiça aos trabalhadores e abrindo espaço para novos empregos, e enfrentar milícias, facções e crime organizado que ameaçam nossas famílias.

A eleição será decidida nas urnas, mas a escolha é sobre a vida depois delas: quem terá emprego e oportunidades, quem será protegido nos momentos difíceis, quem pagará a conta e que país deixaremos para nossos filhos e netos. Diante de cada proposta, precisamos perguntar: quem ganha, quem perde e quem vai pagar a conta?

O futuro não está pronto. Depende das escolhas que fizermos agora. Não basta defender o que conquistamos. Precisamos enfrentar privilégios, ampliar direitos, melhorar a vida de quem trabalha e voltar a imaginar, disputar e construir o país que ainda não existe.