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Ainda somos e vivemos como os nossos pais

Ainda somos e vivemos como os nossos pais

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Por Henrique Pinheiro –  Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”,  organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.

Belchior tinha razão. Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. O problema é que, na política brasileira, parece que envelhecemos sem aprender absolutamente nada.
Passaram-se mais de sessenta anos, mas certos personagens, discursos e fantasmas continuam circulando pelo país. Mudaram as siglas, os figurinos e os meios de comunicação. O enredo, entretanto, permanece assustadoramente familiar.
A velha União Democrática Nacional, a UDN, encontrou no atual Partido Liberal, o PL, algumas de suas mais reconhecíveis características. O anticomunismo, o apelo à religião, a defesa da família e a permanente suspeita de que o Brasil está prestes a ser tomado por forças perigosas.
Naqueles tempos, o grande tribuno da direita era Carlos Lacerda. Jornalista, escritor, governador da Guanabara, dono de uma oratória extraordinária e de uma capacidade igualmente extraordinária de transformar adversários políticos em inimigos da pátria.
Hoje, Jair Bolsonaro ocupa, no imaginário de uma parcela da direita brasileira, um espaço político comparável ao que Lacerda ocupava entre seus seguidores. Ambos recorreram ao anticomunismo, à confrontação permanente e à denúncia de supostas ameaças à nação.
Mas os instrumentos são muito diferentes.
Lacerda escrevia artigos, enfrentava debates e discursava durante horas. Bolsonaro consolidou sua comunicação política por meio de declarações curtas, transmissões pela internet e vídeos reproduzidos milhões de vezes.
Ao lado de Lacerda, a UDN reunia figuras como Afonso Arinos de Melo Franco, intelectual, jurista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Podia-se discordar profundamente de suas posições, mas era impossível ignorar sua formação.
E, hoje? Quem seria o Afonso Arinos do PL?
A pergunta talvez seja mais interessante do que qualquer resposta.
A direita brasileira contemporânea, especialmente sua expressão bolsonarista, não parece preocupada em formar intelectuais ou grandes tribunos. A comparação com os quadros da velha UDN revela uma mudança profunda na linguagem e nos espaços do debate político.
A velha UDN precisava de tribunos. A política das redes sociais precisa de segundos.
Um discurso de Afonso Arinos exigia atenção. Hoje, um artigo de duas páginas corre o risco de ser desprezado como um insuportável “textão”.
A lacração substituiu, em muitos ambientes, a argumentação. A frase de efeito vale mais do que o raciocínio. A indignação precisa caber na tela do telefone.
Há, também, uma semelhança histórica mais preocupante.
A UDN participou ativamente das articulações que culminaram no golpe de 1964. Antes disso, setores do partido já haviam contestado a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart, eleitos em 1955.
O anticomunismo servia como instrumento de mobilização política. Reformas sociais eram apresentadas como ameaças à propriedade, à religião e à própria civilização cristã.
Em março de 1964, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade levou multidões às ruas. Muitos participantes acreditavam sinceramente estar defendendo a democracia.
Décadas depois, manifestações bolsonaristas voltaram a reunir bandeiras nacionais, símbolos religiosos e discursos contra uma suposta ameaça comunista.
E até bandeiras americanas.
Não que a velha UDN não cultivasse estreitas relações com os Estados Unidos. O apoio de Washington ao golpe de 1964 está historicamente documentado. Mas, naquela época, havia uma preocupação maior em preservar ao menos a aparência de nacionalismo.
Hoje, parte daqueles que se apresentam como os mais fervorosos patriotas brasileiros não demonstra constrangimento em desfilar sob a bandeira de outro país.
E, a história brasileira assistiu novamente a uma tentativa de ruptura da ordem democrática, desta vez depois das eleições de 2022.
É evidente que a UDN e o PL não são partidos idênticos. Nasceram em contextos diferentes, possuem composições distintas e representam momentos diversos do conservadorismo brasileiro.
Mas, as semelhanças em seus repertórios de mobilização merecem reflexão.
Existe, contudo, uma diferença fundamental. A UDN operava numa sociedade em que jornais, rádio e tribunas parlamentares eram instrumentos centrais da disputa política. O bolsonarismo floresceu na era dos algoritmos, da comunicação instantânea e da fragmentação da informação.
A tecnologia democratizou a possibilidade de falar. Não garantiu, entretanto, a qualidade do que se diz nem a disposição de ouvir.
A ironia é que o país se modernizou em quase tudo, menos na facilidade com que ressuscita seus antigos fantasmas.
Continuamos discutindo comunismo como se estivéssemos em plena Guerra Fria. Continuamos tratando reformas sociais como ameaças revolucionárias. Continuamos confundindo divergência política com inimigo interno.
E, enquanto isso, permanecem muitos dos problemas que atravessaram gerações: a concentração de renda e da propriedade da terra, a desigualdade de oportunidades, a precariedade da educação e a dificuldade de construir um projeto nacional de desenvolvimento.

Talvez seja essa a maior tragédia brasileira. Não apenas repetir os erros dos nossos pais, mas reproduzir suas disputas sem recuperar sequer a profundidade intelectual de parte daqueles debates.

A UDN tinha Carlos Lacerda e Afonso Arinos. O PL tem Jair Bolsonaro e uma poderosa máquina de comunicação digital.

A primeira ajudou a abrir caminho para uma ditadura. O segundo carrega o peso político e judicial da tentativa de golpe de 2022.

A história não se repete exatamente. Mudam os personagens, as circunstâncias e os instrumentos.

Mas Belchior continua nos provocando.

Ainda somos os mesmos. E, pelo visto, continuamos vivendo como os nossos pais.