O Rio de Janeiro não termina no Túnel Rebouças
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Por Henrique Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série Entre Duas Cidades”- Colunista convidado.
Há mais de meio século, em 1975, o antigo Estado da Guanabara deixou de existir. A fusão com o Estado do Rio de Janeiro criou uma nova realidade territorial e administrativa.
Mas tenho a impressão de que, para muitos cariocas, especialmente os moradores da Zona Sul, essa fusão nunca aconteceu.
Continuamos olhando para o Rio de Janeiro como se ele terminasse no Túnel Rebouças.
O Rio de Copacabana, Ipanema, Leblon, Lagoa e Jardim Botânico é aquele que conhecemos, frequentamos e mostramos ao mundo. É o Rio do cartão-postal, das praias, dos restaurantes e das paisagens que fizeram a cidade famosa.
Mas o estado do Rio de Janeiro é muito maior do que isso.
São 92 municípios, com realidades sociais, econômicas e políticas profundamente diferentes.
E, o mapa eleitoral de 2026 revela uma coincidência histórica que merece atenção.
Eduardo Paes venceu justamente no território que correspondia ao antigo Estado da Guanabara, hoje município do Rio de Janeiro.
São aproximadamente 1.200 quilômetros quadrados, menos de 3% da extensão territorial do atual estado, mas onde vive uma parcela expressiva da população fluminense.
Nesse território, Paes obteve 52,52% dos votos válidos.
Entretanto, quando ampliamos o olhar para o conjunto do estado, encontramos outra realidade.
Douglas Ruas terminou à frente em 79 dos 92 municípios fluminenses. Paes venceu em apenas 13, incluindo a capital.
É quase como se a antiga Guanabara continuasse existindo politicamente, 51 anos depois de sua extinção.
O mapa que acompanha este artigo ilustra essa divisão. As áreas vermelhas representam os municípios onde Paes venceu, inclusive alguns fora da antiga Guanabara. No restante do estado, predominou a votação de Ruas.
Existe ainda uma particularidade que torna especialmente difícil a vida eleitoral de um prefeito da capital que pretende chegar ao Palácio Guanabara.
O carioca costuma responsabilizar o prefeito por praticamente todas as mazelas da cidade, mesmo quando são atribuições estaduais ou federais. Segurança pública, transporte, hospitais e escolas acabam entrando na mesma conta.
Já o eleitor de São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo ou dos municípios do interior não necessariamente reconhece no prefeito da capital alguém que compreenda suas dificuldades.
Ruas explorou essa diferença durante a campanha, contrapondo o que chamava de Rio do cartão-postal ao Rio real.
E existe, de fato, um Rio que raramente aparece nas fotografias turísticas.
É o Rio dos trabalhadores que passam horas no transporte público, das famílias que convivem com a falta de saneamento, da violência cotidiana e das cidades que cresceram sem infraestrutura adequada.
Naturalmente, isso não absolve os sucessivos governos estaduais da responsabilidade pela situação dessa população. Ao contrário, exige uma reflexão sobre décadas de políticas públicas insuficientes, desigualdade social e concentração de investimentos.
Também seria injusto reduzir a capital à Zona Sul. A Zona Norte e a Zona Oeste conhecem dificuldades tão graves quanto as encontradas em muitos municípios da Baixada Fluminense.
Mas há uma diferença entre a percepção política de parte da capital e a realidade do conjunto do estado.
A eleição de 2026 tornou essa distância particularmente visível.
E há ainda uma ironia: Paes perdeu a disputa estadual, mas a definição da vitória de Ruas no primeiro turno dependeu também da decisão da Justiça Eleitoral de anular os votos de Anthony Garotinho.
Portanto, a geografia eleitoral explica uma parte importante do resultado, mas não toda a história.
O problema não é a existência do Rio do cartão-postal. Ele é uma das maiores riquezas do Brasil.
O problema é imaginar que ele representa o estado inteiro.
A Guanabara acabou em 1975.
Mas parece continuar viva no imaginário político de parte dos cariocas.
O Rio de Janeiro não termina no Túnel Rebouças. E a antiga Guanabara já não elege, sozinha, o governador do estado.
Mas tenho a impressão de que, para muitos cariocas, especialmente os moradores da Zona Sul, essa fusão nunca aconteceu.
Continuamos olhando para o Rio de Janeiro como se ele terminasse no Túnel Rebouças.
O Rio de Copacabana, Ipanema, Leblon, Lagoa e Jardim Botânico é aquele que conhecemos, frequentamos e mostramos ao mundo. É o Rio do cartão-postal, das praias, dos restaurantes e das paisagens que fizeram a cidade famosa.
Mas o estado do Rio de Janeiro é muito maior do que isso.
São 92 municípios, com realidades sociais, econômicas e políticas profundamente diferentes.
E, o mapa eleitoral de 2026 revela uma coincidência histórica que merece atenção.
Eduardo Paes venceu justamente no território que correspondia ao antigo Estado da Guanabara, hoje município do Rio de Janeiro.
São aproximadamente 1.200 quilômetros quadrados, menos de 3% da extensão territorial do atual estado, mas onde vive uma parcela expressiva da população fluminense.
Nesse território, Paes obteve 52,52% dos votos válidos.
Entretanto, quando ampliamos o olhar para o conjunto do estado, encontramos outra realidade.
Douglas Ruas terminou à frente em 79 dos 92 municípios fluminenses. Paes venceu em apenas 13, incluindo a capital.
É quase como se a antiga Guanabara continuasse existindo politicamente, 51 anos depois de sua extinção.
O mapa que acompanha este artigo ilustra essa divisão. As áreas vermelhas representam os municípios onde Paes venceu, inclusive alguns fora da antiga Guanabara. No restante do estado, predominou a votação de Ruas.
Existe ainda uma particularidade que torna especialmente difícil a vida eleitoral de um prefeito da capital que pretende chegar ao Palácio Guanabara.
O carioca costuma responsabilizar o prefeito por praticamente todas as mazelas da cidade, mesmo quando são atribuições estaduais ou federais. Segurança pública, transporte, hospitais e escolas acabam entrando na mesma conta.
Já o eleitor de São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo ou dos municípios do interior não necessariamente reconhece no prefeito da capital alguém que compreenda suas dificuldades.
Ruas explorou essa diferença durante a campanha, contrapondo o que chamava de Rio do cartão-postal ao Rio real.
E existe, de fato, um Rio que raramente aparece nas fotografias turísticas.
É o Rio dos trabalhadores que passam horas no transporte público, das famílias que convivem com a falta de saneamento, da violência cotidiana e das cidades que cresceram sem infraestrutura adequada.
Naturalmente, isso não absolve os sucessivos governos estaduais da responsabilidade pela situação dessa população. Ao contrário, exige uma reflexão sobre décadas de políticas públicas insuficientes, desigualdade social e concentração de investimentos.
Também seria injusto reduzir a capital à Zona Sul. A Zona Norte e a Zona Oeste conhecem dificuldades tão graves quanto as encontradas em muitos municípios da Baixada Fluminense.
Mas há uma diferença entre a percepção política de parte da capital e a realidade do conjunto do estado.
A eleição de 2026 tornou essa distância particularmente visível.
E há ainda uma ironia: Paes perdeu a disputa estadual, mas a definição da vitória de Ruas no primeiro turno dependeu também da decisão da Justiça Eleitoral de anular os votos de Anthony Garotinho.
Portanto, a geografia eleitoral explica uma parte importante do resultado, mas não toda a história.
O problema não é a existência do Rio do cartão-postal. Ele é uma das maiores riquezas do Brasil.
O problema é imaginar que ele representa o estado inteiro.
A Guanabara acabou em 1975.
Mas parece continuar viva no imaginário político de parte dos cariocas.
O Rio de Janeiro não termina no Túnel Rebouças. E a antiga Guanabara já não elege, sozinha, o governador do estado.


