Majestosa Marília
A carreira de Marília Mendonça começou muito antes de suas composições serem interpretadas por outros artistas. Desde o quarto, ainda garota, com um violão, ela já começava a revolução que causou na música brasileira. E o mesmo mercado fonográfico que alegou, por um tempo, que ela não se ajustava ao padrão do que seria sucesso, que reconhecia o alto nível de suas letras, mas adiou sua chegada aos palcos, sabia que era inevitável conter sua voz. Seu repertório avassalador fez a carreira de muita gente numa indústria machista que ela encarou valente e de mãos dadas com as parceiras que fez no seu caminho. Não quis competir com nenhuma colega que se lançou na arte de expor o coração e atingir todo mundo. Marília está nos desabafos das que não tinham voz para libertar suas dores e decepções. Encorajou uma legião de fãs, emprestando suas letras para ajudar no que necessitava ser falado, mas acabava ficando no meio do caminho do que queria ser dito. E musicou dramas comuns que muitas mulheres guardam para si por gerações. Foi precoce para tantos, ao falar de certos temas desde muito jovem, e já nas primeiras gravações se revelou atemporal por conta disso, firmando-se como uma artista muito além do agora que viveu. Queria ser brega e foi isso também. Teve paciência para chegar onde chegou e foi recompensada com uma legião de adoradores que seguem entoando seus hinos nos bares e shows da vida cotidiana. Não era uma anônima quando começou sua primeira turnê, não por conta de já ter feito seu nome como uma compositora prestigiada, mas porque seus fãs se enxergaram nela de maneira inédita e de súbito. Suas frustrações reveladas com tanta franqueza libertaram muita gente da angústia de sofrer sozinho. E toda vez que ela musicou seus dissabores, entregou sucessos que passaram a ser recitados por fãs de olhos fechados e abraçados em suas apresentações ao vivo. A Soberana da Sofrência era aquela garota com um violão entre amigos, num posto de gasolina, que, quando começava a dedilhar acordes e cantarolar seus rabiscos, fazia a trilha da noite durar até o dia seguinte, espalhando-se por todo o lugar, porque sempre soube se fazer bem-vinda. Morreu muito jovem e consagrada como uma das maiores artistas das últimas décadas, mas com a mesma atitude da moça abraçada num violão, em um palco compacto, num pequeno bar. Do Spotify ao YouTube, ao buscar por recordes de audições e visualizações, basta digitar o nome dela. Produzido pela Amazon, Marília Mendonça: Sentimento Louco (Prime Video) atravessa a vida de uma cantora que não coube no Brasil e que ainda segue em descoberta. Até mesmo aqueles cujos ouvidos o sertanejo não alcançou foram atingidos por Marília Mendonça. Familiares, executivos da música, parceiros e amigos discorrem sobre a ventania que veio da capital de Goiás por volta de 2010 e conquistou o país de imediato, em quatro episódios com uma forte carga emotiva. Cada capítulo da série é instrutivo e cheio de momentos registrados pela própria. Uma protagonista da cultura nacional que foi reverenciada como majestade de um gênero que ela ressignificou e que partiu aos 26 anos, mas não sem antes permear as playlists de uma geração que se formou com a pluralidade de seu talento.


