×

A Economia da Barbárie-Crise do valor e as novas formas de reprodução do capitalismo. Da Faria Lima ao Escudo das Américas

A Economia da Barbárie-Crise do valor e as novas formas de reprodução do capitalismo. Da Faria Lima ao Escudo das Américas

Compartilhe nas Redes sociais
Por Arlindenor Pedro  – Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas
Quando o mercado começa a montar o governo.
A eleição presidencial brasileira ainda não terminou, mas uma parte importante do poder econômico já se movimenta como se a formação do próximo governo estivesse em curso.  Depois de Flávio Bolsonaro chegar ao segundo turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva, ganharam visibilidade as articulações em torno de um eventual ministério. Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, passou a atuar na aproximação de nomes do mercado financeiro interessados numa futura administração, enquanto grupos vinculados à Faria Lima, ao antigo Ministério da Economia de Paulo Guedes, ao agronegócio, ao centrão e ao núcleo bolsonarista começaram a disputar espaços num governo que ainda depende das urnas. A Faria Lima não constitui um bloco político homogêneo, mas o movimento revela uma transformação importante: setores do capital financeiro já não pretendem apenas pressionar o Estado a partir de fora, mas procuram participar diretamente da formulação e da administração de suas políticas.
Essa aproximação não representa uma novidade absoluta. A circulação de dirigentes entre bancos, fundos, empresas, Banco Central e ministérios acompanha toda a história recente do capitalismo. O que chama a atenção é o grau de antecipação e a naturalidade com que se discute, antes mesmo do desfecho eleitoral, a incorporação direta de representantes desses interesses ao aparelho estatal. A fórmula pela qual o capital influenciava o governo por meio de associações empresariais, lobby, imprensa econômica, financiamento político e pressão sobre a política fiscal aproxima-se de outra configuração, na qual o próprio mercado reivindica lugares no interior da máquina encarregada de decidir dívida pública, tributação, investimentos, privatizações, regulação, direitos sociais e orçamento. O movimento deixa de ser apenas capital, influência e Estado e aproxima-se de capital, formulação, ocupação institucional e administração estatal.
É nesse ponto que o conceito de capitalismo de compadres, utilizado ao longo deste estudo, precisa ser ampliado. Ele não se reduz ao empresário que obtém um contrato, ao político que favorece determinado grupo ou ao banco que conquista regulamentação conveniente. Sua forma contemporânea aparece quando a distância entre interesse privado e decisão pública diminui a ponto de os próprios agentes econômicos ocuparem funções encarregadas de arbitrar interesses gerais. Isso não torna ilegítima, por definição, a participação de profissionais do setor privado no governo, nem permite confundir executivos financeiros com organizações criminosas. A questão é estrutural: quanto menor a autonomia das instituições diante dos poderes econômicos particulares, mais frágil se torna a pretensão universal do Estado moderno.
Essa transformação liga-se diretamente à economia da barbárie que venho procurando definir. Nos capítulos anteriores, observei sua manifestação por baixo, nos territórios controlados por facções e milícias, na mineração ilegal, na grilagem, no contrabando e nos circuitos pelos quais dinheiro clandestino procura empresas, imóveis, postos de combustíveis e ativos financeiros. Agora é necessário observar o processo também pelo alto.   A privatização do poder não ocorre apenas quando uma organização armada substitui parcialmente o Estado num bairro ou numa região de mineração. Ela ocorre igualmente quando interesses econômicos suficientemente concentrados reduzem as mediações que os separavam da decisão estatal. Não se trata de igualar um banco a uma milícia ou a Faria Lima ao narcotráfico. O que essas situações revelam, em escalas inteiramente distintas, é a erosão de uma mesma mediação histórica: a capacidade do Estado de apresentar-se como esfera relativamente separada dos interesses particulares e submetida a regras universais. A Faria Lima não precisa invadir Brasília quando Brasília lhe abre espaços para participar da formulação da política econômica.
Quem paga pela crise.
É nesse terreno que a política fiscal deixa de ser assunto meramente técnico e revela sua natureza social. Dívida pública, gastos sociais, investimentos, tributação sobre renda e patrimônio, desonerações e financiamento da saúde, da educação e da previdência não constituem apenas números de uma planilha. Eles determinam como os custos da reprodução social serão distribuídos entre classes e grupos econômicos. A reação de setores do mercado ao desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno esteve associada à expectativa de maior consolidação fiscal, enquanto sua campanha passou a defender revisão de medidas tributárias adotadas durante o governo Lula. Do outro lado, Lula procura transmitir previsibilidade fiscal e preservar interlocução com setores empresariais e centristas. A pressão do capital financeiro atravessa, portanto, diferentes campos políticos, ainda que cada um apresente respostas distintas para a administração da economia.
A Crítica do Valor permite enxergar essa disputa para além das escolhas administrativas. Se a reprodução capitalista encontra dificuldades estruturais para produzir valor em escala compatível com a massa crescente de capital acumulado, o Estado enfrenta dificuldades igualmente crescentes para financiar as funções universais assumidas ao longo da modernidade. Saúde, educação, previdência, infraestrutura, segurança, ciência, políticas sociais e administração pública exigem recursos cuja origem permanece dependente de uma economia organizada pela valorização. Quando essa base se torna mais instável, a disputa política concentra-se sobre quem suportará os custos da crise. A política fiscal passa a administrar uma escassez relativa enquanto diferentes frações do capital procuram preservar patrimônios, rendimentos e condições de acumulação.
A participação direta dos grandes interesses econômicos no governo deve ser compreendida nesse contexto. Não estamos apenas diante da velha busca de influência, mas de uma disputa pela administração de uma crise na qual a preservação da rentabilidade depende crescentemente das decisões estatais. O Estado, apresentado pela doutrina liberal como árbitro dos interesses particulares, transforma-se em território no qual esses interesses procuram instalar-se diretamente. No Brasil, essa tendência encontra uma estrutura histórica particularmente favorável. A modernização capitalista nunca eliminou completamente relações pessoais de mando, estruturas oligárquicas, patrimonialismo, desigualdade extrema e apropriação privada de funções públicas. A alta tecnologia convive com a grilagem, o sistema financeiro sofisticado com mercados clandestinos, o agronegócio de precisão com disputas violentas pela terra e as plataformas digitais com relações de trabalho profundamente precarizadas. Aquilo que Francisco de Oliveira descreveu como coexistência estrutural do moderno e do atrasado reaparece não como sobrevivência do passado, mas como articulação funcional dentro do capitalismo contemporâneo.
Foi por isso que defini o Brasil como laboratório da economia da barbárie. O que acontece aqui não representa um desvio em relação a um capitalismo normal existente em outro lugar. Expõe tendências que começam a alcançar também os centros do sistema.
Da periferia para o centro.
Essa passagem torna-se mais clara quando deslocamos o olhar para os Estados Unidos. O governo Trump reorganiza sua política hemisférica através de uma combinação entre segurança, comércio, tecnologia, minerais críticos, controle territorial e contenção da presença de potências externas. O chamado Escudo das Américas associa combate ao narcotráfico, proteção econômica, segurança das cadeias de minerais críticos e seleção de fornecedores considerados confiáveis para infraestrutura digital. O significado dessa mudança ultrapassa a política antidrogas, porque minerais críticos passaram a ser tratados como questão de defesa nacional, cadeias produtivas como estruturas estratégicas e comércio, tecnologia e segurança como componentes de uma mesma política de poder.
O mercado mundial não desaparece, mas deixa de ser imaginado como espaço abstratamente universal, regulado predominantemente por preços, contratos e instituições multilaterais. Cadeias produtivas passam a ser classificadas segundo critérios de segurança, fornecedores tornam-se confiáveis ou hostis, minerais transformam-se em ativos estratégicos, tecnologias são submetidas a controles de exportação, investimentos convertem-se em questões de soberania e tarifas funcionam como instrumentos de política externa. A economia volta a mostrar abertamente aquilo que a ideologia liberal procurou separar: a relação entre mercadoria e poder.
É nesse sentido que a crise anteriormente associada às periferias começa a alcançar o centro. Washington não se transforma numa periferia latino-americana, mas mecanismos apresentados durante décadas como características de Estados frágeis reaparecem, sob outras formas, no interior da própria potência central: excepcionalidade, personalização do poder, enfraquecimento das mediações institucionais, subordinação das relações econômicas a critérios políticos e emprego direto da força na organização de espaços estratégicos. A periferia não exporta sua barbárie para o centro. A mesma crise estrutural produz formas distintas de barbárie na periferia e no centro.
Na periferia, essa crise aparece como soberania territorial fragmentada, economia informal permanente, facções armadas, mineração ilegal, mercados clandestinos e apropriação privada de serviços. No centro, manifesta-se através da militarização da economia, formação de esferas de influência, controle coercitivo de cadeias estratégicas, sanções, tarifas e utilização do poder militar para proteger posições econômicas. As formas diferem radicalmente, mas a lógica converge na substituição progressiva das mediações universais por relações mais diretas de força.
O quadro mundial confirma que essa transformação ultrapassa em muito o espaço americano. O capitalismo contemporâneo entrou numa fase de reordenamento em que a concorrência entre capitais se converte, cada vez mais, em disputa entre Estados, blocos econômicos e sistemas tecnológicos pelo controle de mercados, moedas, energia, minerais estratégicos, cadeias produtivas, rotas comerciais e capacidade militar. A antiga promessa de uma globalização progressivamente integrada cede lugar a um mundo marcado por tarifas, sanções, subsídios industriais, controles de exportação, guerras comerciais, corrida tecnológica e militarização crescente das relações econômicas. Estados Unidos e China ocupam o centro dessa disputa, mas ela envolve também União Europeia, Rússia, Índia e diferentes potências regionais, reorganizando alianças e produzindo novas zonas de dependência e conflito. O mercado mundial não está sendo abandonado; está sendo repartido, protegido e disciplinado pela força.
É nesse sentido que a atual conjuntura pode ser compreendida como uma verdadeira guerra de reordenamento mundial: não apenas uma luta pela hegemonia entre potências, mas uma disputa pela definição das condições políticas, tecnológicas e militares dentro das quais a própria valorização capitalista continuará a ocorrer. A crise do valor reaparece aqui em escala global, transformando a concorrência econômica em luta pelo controle dos espaços materiais capazes de sustentar a reprodução do capital e fazendo da geopolítica uma dimensão cada vez mais direta da economia.
China, Estados Unidos e o lugar do Brasil
A disputa entre Estados Unidos e China torna essa transformação ainda mais evidente. Apesar dos mecanismos de negociação bilateral entre Washington e Pequim, a competição concentra-se em tecnologia, semicondutores, inteligência artificial, energia, indústria e minerais críticos. O Brasil ocupa posição excepcional nesse conflito porque combina reservas minerais relevantes, grande produção de alimentos, petróleo, minério de ferro, capacidade energética e peso continental com uma estrutura comercial profundamente vinculada à China. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm enorme importância financeira, tecnológica, diplomática e estratégica. Surge daí uma contradição objetiva: um alinhamento político mais intenso com Washington não elimina a dependência econômica brasileira em relação a Pequim.
A disputa pela América Latina tampouco se limita à concorrência comercial. Ela envolve concepções distintas de ordenamento regional. Enquanto Washington reorganiza sua presença hemisférica por meio da segurança, da contenção estratégica, dos minerais críticos, das cadeias confiáveis e da articulação entre comércio e força, Pequim apresentou em dezembro de 2025 seu terceiro documento de política para a América Latina e o Caribe, propondo oficialmente uma relação fundada em soberania, não interferência, cooperação Sul-Sul, multipolaridade e desenvolvimento compartilhado. O documento organiza essa aproximação nos programas de Solidariedade, Desenvolvimento, Civilização, Paz e Conectividade entre os Povos e amplia a agenda para comércio, infraestrutura, energia, agricultura, economia digital, ciência, tecnologia, segurança, redução da pobreza e governança social. Em 2026, a diplomacia chinesa tornou ainda mais explícita essa dimensão ao defender que os países latino-americanos decidam autonomamente seus parceiros e não sejam obrigados a escolher lados.
Essa formulação chinesa não deve ser recebida como expressão desinteressada de solidariedade internacional, pois responde também aos interesses estratégicos de Pequim em mercados, matérias-primas, infraestrutura e influência política. Sua importância encontra-se no fato de oferecer à região uma arquitetura diferente daquela proposta por Washington. Em vez da incorporação a uma esfera hemisférica organizada por critérios de segurança e alinhamento, apresenta a América Latina como parte autônoma de uma ordem multipolar. A crise da antiga ordem liberal abre, assim, uma disputa sobre as formas que substituirão suas mediações em decomposição: de um lado, um capitalismo organizado crescentemente por escudos, cadeias protegidas, sanções e zonas de influência; de outro, uma integração multipolar que permanece capitalista, baseada em comércio, investimento, infraestrutura e desenvolvimento, mas procura dispensar a subordinação formal a um único centro hegemônico. A questão deixa de ser apenas qual potência exercerá maior influência e passa a ser se alguma dessas formas de reorganização do sistema mundial supera a crise do valor ou se ambas constituem maneiras distintas de administrá-la.
Esse contraste se torna ainda mais evidente quando voltamos ao Brasil. Um governo fortemente alinhado ideologicamente aos Estados Unidos enfrentaria uma realidade econômica que limita qualquer subordinação automática à estratégia de Washington. Parte significativa do agronegócio brasileiro, da mineração, do petróleo, da logística e de outros setores exportadores depende profundamente da demanda chinesa, e essa dependência não desaparece por afinidade política. A própria Faria Lima vive essa contradição: seus vínculos financeiros, regulatórios e institucionais orientam-se em grande medida para o universo atlântico e Wall Street, enquanto boa parte das empresas que financia e representa encontra na China um de seus principais mercados. Forma-se um paradoxo estrutural entre alinhamento ideológico e inserção material.
A política externa pode aproximar-se dos conceitos americanos de segurança hemisférica, cadeias confiáveis, contenção da China e integração estratégica com Washington, mas a economia real empurra o país para uma relação pragmática com Pequim. O Brasil não pode ser simplesmente absorvido por uma lógica de blocos sem impor custos elevados a frações centrais do próprio capital nacional. Não existe, portanto, uma escolha limpa entre Estados Unidos e China, mas uma soberania negociada entre interesses cruzados: aproximação política com Washington, dependência comercial de Pequim e disputa interna entre setores que lucram com uma ou outra orientação.
Setores da Faria Lima encontram-se exatamente no centro dessa contradição. Parte de seus vínculos institucionais orienta-se para os mercados ocidentais e para Nova York, enquanto empresas financiadas por esses mesmos mercados dependem profundamente da demanda chinesa. Agronegócio, mineração, finanças, indústria, petróleo e tecnologia possuem interesses diferentes diante da disputa entre Washington e Pequim. O governo que emergir das eleições terá de administrar essa contradição material: a ideologia pode apontar para Washington, mas a soja continuará encontrando compradores na China; a política pode aproximar-se do Escudo das Américas, mas o minério continuará entrando nas cadeias asiáticas; o capital financeiro pode aprofundar sua integração com Wall Street enquanto empresas brasileiras conservam Pequim como cliente fundamental. A soberania nacional passa a ser exercida dentro de uma teia de dependências cruzadas.
A guerra ao narcotráfico e seu paradoxo
O Escudo das Américas introduz outro problema que atinge diretamente a reflexão sobre a economia da barbárie.  A política apresentada pelo governo Trump como guerra continental contra os cartéis mobiliza forças militares, sanções, bloqueios financeiros e cooperação policial para retirar dessas organizações o controle de territórios e recursos. Surge então uma contradição aparente: a mesma economia que declara guerra ao narcotráfico possui empresas, mercados imobiliários, comércio e sistemas financeiros capazes de absorver capitais provenientes dessas atividades.
A contradição desaparece quando distinguimos a repressão ao agente criminoso da reprodução econômica dos fluxos que ele movimenta. O Estado combate facções, traficantes, rotas, armas e territórios, enquanto o dinheiro produzido nesses mercados procura abandonar sua condição clandestina e reintegrar-se à economia formal. O narcotráfico é ilegal, mas não existe fora do capitalismo. Necessita de transporte, comunicação, imóveis, empresas, produtos químicos, moedas, crédito informal, operadores financeiros e mecanismos de lavagem. Quando seus recursos são convertidos em patrimônio formal, deixam progressivamente de carregar, na superfície econômica, a história de sua origem.
A guerra ao narcotráfico enfrenta a parte mais visível desse circuito. Destrói organizações, prende agentes, bloqueia rotas e apreende mercadorias, mas não elimina automaticamente a demanda, a rentabilidade ou as estruturas financeiras através das quais o dinheiro retorna à circulação. A repressão reorganiza mercados clandestinos, desloca rotas, altera preços e modifica relações de força entre organizações. Enquanto permanecem as condições materiais que sustentam esses mercados, novos atores ocupam os espaços deixados pelos anteriores. Ao mesmo tempo, constitui-se uma economia da própria repressão, formada por segurança, vigilância, armas, inteligência, prisões, controle de fronteiras, satélites, software, drones e sistemas biométricos, todos movimentando grandes volumes de recursos públicos e privados.
A economia da barbárie revela-se justamente nessa coexistência. O Estado criminaliza determinadas atividades, combate seus agentes e simultaneamente opera dentro de uma ordem econômica capaz de absorver parte da riqueza produzida nos circuitos que reprime. Legalidade e ilegalidade permanecem distintas perante o direito, mas na circulação econômica podem tornar-se momentos sucessivos de uma mesma riqueza.
O mercado protegido pela força.
Chegamos aqui a uma transformação maior. Durante décadas, o capitalismo globalizado apresentou-se como expansão progressiva do mercado, liberalização de fluxos, redução de barreiras e fortalecimento de instituições multilaterais. Essa forma histórica nunca eliminou guerras, imperialismos ou intervenções, mas conseguiu frequentemente colocá-los atrás da linguagem da universalidade econômica. A nova etapa torna a coerção novamente explícita. Os Estados Unidos procuram cadeias seguras de minerais, a China protege tecnologias e recursos estratégicos, a Europa amplia instrumentos de defesa comercial e multiplicam-se sanções, tarifas, subsídios industriais e controles tecnológicos. A geopolítica penetra diretamente na formação dos preços, nos investimentos e na circulação das mercadorias, fazendo o mercado abstratamente livre ceder lugar ao mercado protegido pela força.
Essa passagem corresponde ao movimento identificado desde o início desta série. A crise não elimina as categorias fundamentais do capitalismo. Mercadoria, dinheiro, propriedade, Estado e mercado continuam existindo, mas modificam-se as formas pelas quais sua reprodução precisa ser assegurada. No Brasil, a fronteira entre formalidade e informalidade torna-se mais porosa; nos Estados Unidos, economia e segurança fundem-se em política industrial e militar; na disputa EUA-China, o mercado mundial fragmenta-se em cadeias estratégicas; na guerra ao narcotráfico, repressão e integração econômica coexistem; e na Faria Lima, setores do capital financeiro procuram reduzir a distância entre interesse privado e administração estatal. São fenômenos diferentes, situados em escalas distintas, mas atravessados por um mesmo movimento histórico: a crise das mediações que permitiram ao capitalismo apresentar-se como uma ordem universal governada por regras abstratas.
Quando essas mediações perdem capacidade de organizar a reprodução social, a relação direta de poder ganha espaço através da força territorial das facções, do poder econômico dos grandes grupos financeiros, do domínio tecnológico das plataformas, da capacidade militar dos Estados, do controle das matérias-primas estratégicas e da influência sobre as instituições. O que muda não é apenas quem exerce o poder, mas a própria forma pela qual o poder se integra à reprodução econômica.
Quando a barbárie deixa de ser periferia.
A economia da barbárie alcança, assim, uma formulação mais ampla. Ela não designa apenas atividades criminosas nem se limita às periferias urbanas ou às regiões submetidas à mineração predatória. Designa uma tendência histórica na qual a reprodução do capital depende crescentemente de formas de apropriação, coerção, exceção, controle territorial e intervenção política direta. Na periferia, essa tendência tornou-se visível primeiro porque as mediações institucionais sempre foram mais frágeis e a integração pelo trabalho assalariado nunca alcançou toda a população. No centro, o mesmo processo assume formas distintas porque Estados, instituições e estruturas financeiras possuem maior capacidade de administrar a crise.
O centro não se transforma na periferia. A crise que durante décadas foi administrada na periferia chega agora ao centro sob formas próprias. A periferia não oferece um modelo que o centro simplesmente copia; revela antecipadamente os limites da mesma forma social. Quando o trabalho deixa de integrar, o Estado perde universalidade, interesses privados conquistam funções públicas, mercados necessitam da proteção direta da força e a própria lei se torna objeto de negociação entre poderes profundamente desiguais, a sociedade da mercadoria continua funcionando, mas sua promessa civilizatória se estreita. A barbárie deixa de representar o instante posterior ao colapso e passa a constituir uma maneira de administrar a continuidade.
Essa constatação nos conduz ao limite do percurso realizado nesta série. Começamos mostrando que a barbárie havia mudado de natureza, demonstramos a insuficiência das interpretações convencionais, recorremos à Crítica do Valor para localizar a crise no interior da própria valorização, observamos o Brasil como laboratório dessa transformação e chegamos agora à reorganização geopolítica de um capitalismo que responde à crise por meio da concentração do poder, da proteção estratégica dos mercados e da fragmentação da antiga universalidade liberal. Uma crítica que terminasse nesse ponto permaneceria, contudo, incompleta, porque a decomposição das formas históricas do capitalismo não produz apenas violência, particularismo e fechamento. No interior das mesmas sociedades em que avançam a privatização do poder e a fragmentação social continuam existindo e surgindo experiências de cooperação, produção comum, autogestão, solidariedade territorial, defesa coletiva dos bens naturais e organização da vida para além da lógica exclusiva da mercadoria.
Povos indígenas, comunidades tradicionais, cooperativas, movimentos urbanos, redes de produção compartilhada e experiências latino-americanas de organização comunitária preservam ou reinventam relações que não podem ser integralmente reduzidas ao trabalho abstrato, à concorrência e à valorização. É para esse outro lado da crise que o ensaio final deverá olhar, não como retorno romântico a sociedades anteriores ao capitalismo nem como inventário de pequenas experiências destinadas a coexistir indefinidamente com ele, mas como investigação das práticas sociais que colocam em questão propriedade, trabalho abstrato, crescimento ilimitado, competição e submissão da vida à mercadoria.
A série chegará, assim, à questão que acompanhou silenciosamente todo o percurso realizado até aqui: se a crise do valor abre espaço para a economia da barbárie, quais formas de emancipação podem impedir que a decomposição do capitalismo se converta simplesmente em decomposição da sociedade? O ensaio final deverá procurar essa resposta nas experiências brasileiras e latino-americanas que recusam, na prática, a ideia de que produzir, viver, cuidar, decidir e compartilhar devam permanecer subordinados à valorização. Depois de investigar como o capitalismo administra sua crise através da barbárie, será necessário examinar aquilo que já nasce em suas fissuras como possibilidade de ultrapassá-la.