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Cartas da Terra-Quando os donos do poder disputam o que resta do Brasil-Yandé Tupinambá

Cartas da Terra-Quando os donos do poder disputam o que resta do Brasil-Yandé Tupinambá

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Por Arlindenor Pedro  – Editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.

Oi, parente! Domingo à noite, sentei-me diante da televisão para assistir ao debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Rede Bandeirantes. Queria escutar o que aqueles dois homens tinham a dizer sobre o futuro do Brasil. Estamos vivendo tempos difíceis, e quem pretende governar este país deveria conseguir olhar para suas feridas e explicar como pretende cuidar delas. Mas, confesso: terminei a noite assustado! Não foi apenas pela gritaria, pelas provocações ou pelas acusações que atravessaram o debate. Foi porque, enquanto ambos disputavam quem tinha mais escândalos para jogar sobre o outro, eu pensava na quantidade de coisas que estão acontecendo com nosso povo e que pareciam não caber naquela conversa. Pensei nos jovens sem trabalho, nas famílias endividadas, nas cidades cercadas de violência, nos rios contaminados e nas florestas que continuam sendo derrubadas. Pensei também no meu povo em particular e nos povos indígenas, que precisam defender seus territórios de uma sociedade que não consegue olhar para a terra sem imaginar quanto dinheiro pode retirar dela. E, fiquei me perguntando como pode um país tão rico de água, floresta, solo, conhecimento e trabalho continuar produzindo tanta pobreza e tanta destruição. A resposta não apareceu naquele estúdio. E esta é a razão do meu espanto, pois estamos tratando aqui de um debate de quem será o presidente nos próximos quatro anos .

O que apareceu foi outra coisa: um retrato assustador daquilo que venho chamando de economia da barbárie. Ou seja: quando a riqueza pública vira negócio de compadres. Uma das coisas que mais me impressionaram no debate foi a maneira como as acusações de corrupção ocuparam o centro da conversa. Lula cobrou explicações de Flávio sobre o dinheiro relacionado ao banqueiro Daniel Vorcaro e à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio respondeu trazendo suspeitas envolvendo o filho de Lula e suas relações com pessoas investigadas. Não cabe a mim transformar acusações eleitorais em sentenças. Investigações precisam ser conduzidas, responsabilidades precisam ser demonstradas e ninguém deve ser condenado apenas porque seu adversário falou mais alto na televisão. Mas existe uma questão muito maior que os nomes envolvidos. Por que a política brasileira parece tão frequentemente atravessada por relações entre banqueiros, empresários, operadores financeiros, parentes de autoridades, intermediários e pessoas que vivem da proximidade com o poder? E por que a corrupção está sempre presente?

Essa pergunta não desaparece quando um candidato acusa o outro. Ela revela uma maneira de funcionamento do país. Durante muito tempo nos ensinaram que o Estado representa o interesse público e os empresários representam a iniciativa privada. Mas, quando olhamos mais de perto, encontramos uma mistura antiga de favores, contratos, financiamentos, privilégios, influência política e negócios realizados nas proximidades do dinheiro público. Este é o capitalismo de compadres! Nele, a riqueza não depende apenas de produzir alguma coisa útil. Pode depender de conhecer a pessoa certa, conseguir uma autorização, influenciar uma decisão, receber um contrato, comprar um patrimônio público por um preço vantajoso ou encontrar um caminho privilegiado para transformar recursos coletivos em ganhos particulares.

Não é necessário que todos os participantes dessa rede cometam crimes para existir um problema profundo. Existem formas de apropriação da riqueza pública perfeitamente legais, protegidas por contratos, leis e decisões administrativas. A ilegalidade e a corrupção agravam esse quadro, mas não o explicam inteiramente. O problema é que o Estado pode deixar de ser apenas o lugar onde se disputam decisões sobre a vida coletiva e tornar-se também um território de negócios para grupos que possuem acesso privilegiado ao poder. E, nesse caso, parente, quem paga a conta é quase sempre quem está longe da mesa onde os acordos são feitos.

Tenho pensado muito sobre uma característica da crise brasileira. Durante muito tempo, o capitalismo prometeu que, se a economia crescesse, haveria mais empregos, mais arrecadação, melhores serviços e mais oportunidades. Essa promessa nunca se realizou igualmente para todos, especialmente num país construído sobre escravidão, expropriação de terras e violência contra os povos originários. Mas havia uma expectativa de que a expansão econômica pudesse sustentar algum tipo de melhoria coletiva.

Hoje, cada vez mais, encontramos atividades que enriquecem determinados grupos sem melhorar as condições de vida da população e que, muitas vezes, destroem aquilo de que o próprio país precisa para continuar existindo. Quando a riqueza pública é desviada para interesses particulares, faltam recursos para serviços essenciais. Quando patrimônios coletivos são apropriados por grupos privilegiados, a sociedade perde capacidade de decidir sobre eles. Quando a especulação se torna mais atraente do que produzir coisas necessárias, o dinheiro circula em busca de ganhos, enquanto necessidades fundamentais permanecem sem resposta. E, quando a floresta é derrubada, o rio é contaminado ou o solo é exaurido para gerar lucros imediatos, destruímos as condições que permitirão às próximas gerações continuar vivendo. É por isso que chamo esse movimento de suicida.

O capitalismo já não ameaça apenas aqueles que explora. Ele ameaça as próprias condições materiais que sustentam sua existência. É como uma pessoa que, sentindo fome, começa a arrancar as tábuas da própria casa para alimentar o fogo. Por algum tempo, consegue manter a chama acesa. Mas chega o momento em que já não existe casa para protegê-la da chuva. Vejo algo parecido acontecendo com o Brasil.

Em vez de cuidar daquilo que sustenta a vida, a economia transforma cada vez mais coisas em oportunidades de ganho imediato. E a política, que deveria impedir a destruição da casa comum, muitas vezes participa da disputa pelas tábuas.

 Para nós, indígenas, a palavra pilhagem não é uma novidade. A colonização começou com a tomada de territórios, a exploração de corpos, o saque de riquezas e a imposição de uma maneira de viver que transformava terra, floresta e gente em instrumentos de enriquecimento. O que me impressiona é perceber como essa lógica continua presente, embora tenha mudado de roupa. Hoje ela pode aparecer em contratos, concessões, operações financeiras, apropriação de terras públicas, favorecimentos empresariais e decisões que transferem riscos para a população enquanto preservam ganhos privados. Quando um empreendimento fracassa, seus responsáveis podem procurar proteção no Estado. Quando um negócio prospera, seus ganhos permanecem concentrados. Quando uma política pública é capturada por interesses particulares, o recurso que deveria servir a todos passa a alimentar poucos.

Essa é uma das faces da economia da barbárie. O dinheiro público não nasce do nada. Ele representa parte do trabalho social, dos recursos arrecadados e das possibilidades coletivas de garantir saúde, educação, transporte, moradia e proteção ambiental. Quando esse dinheiro é apropriado por redes privilegiadas, não desaparecem apenas cifras de um orçamento. Desaparecem possibilidades de vida. Uma escola que poderia funcionar melhor. Um hospital que poderia atender mais gente. Um rio que poderia ser recuperado. Uma comunidade que poderia permanecer em seu território. A pilhagem não rouba apenas o presente. Rouba também futuros possíveis. Mas seria pouco dizer que o problema do Brasil é apenas a corrupção ou a existência de grupos que se aproveitam do Estado. Essa explicação pode até confortar, porque faz parecer que bastaria encontrar pessoas honestas para tudo funcionar.

A questão é mais difícil. O próprio Estado depende de uma economia que precisa crescer continuamente. Precisa de empresas lucrativas, trabalhadores recebendo salários, mercadorias circulando, crédito funcionando e impostos sendo pagos. Quando essa economia entra em crise, o governo perde arrecadação e capacidade de cumprir suas promessas. Para manter a máquina funcionando, busca investimentos, estimula negócios, oferece incentivos e procura ampliar a atividade econômica. É aí que os grupos mais poderosos encontram novas oportunidades de pressão. Quem controla grandes quantidades de dinheiro, crédito, terra ou infraestrutura possui mais condições de influenciar decisões. E, quando a crise aperta, o Estado pode se tornar ainda mais dependente desses grupos. A pilhagem, portanto, não acontece simplesmente porque a política se afastou de uma economia saudável. Ela pode crescer justamente quando a reprodução econômica encontra dificuldades e a disputa pela riqueza disponível se torna mais feroz. O capitalismo de compadres é uma maneira brasileira de viver essa contradição. E o debate entre os candidatos me fez pensar que estamos presos a uma política que promete combater os abusos sem discutir suficientemente as relações que permitem sua reprodução.

 Quando a discussão chegou à segurança pública, ouvi novamente promessas de endurecimento penal e de ampliação da capacidade repressiva do Estado. A  violência é real. Quem mora nas periferias e nos territórios ameaçados sabe que não se trata de uma invenção da televisão. Pessoas são assassinadas, famílias vivem com medo e comunidades inteiras ficam submetidas a grupos armados. Mas me pergunto por que a política fala tão facilmente em aumentar a punição e tão pouco em transformar as condições sociais que ajudam a produzir a violência. Uma sociedade que concentra riqueza, enfraquece vínculos comunitários, torna o trabalho precário e abandona territórios inteiros não deveria se surpreender quando suas próprias fraturas aparecem como violência. Isso não significa justificar crimes nem abandonar a proteção de quem sofre com eles. Significa reconhecer que a repressão, sozinha, não reconstrói a vida.

Quando a política perde a capacidade de oferecer um futuro, cresce a tentação de administrar o presente pela força. E esta não tem limites. O Flávio, por exemplo, já não se contenta em reduzir a maioridade penal em 16 anos . Quer reduzir até os 14 anos? Como assim? Será esta realmente a solução? E se não der certo? Reduzimos então até 10 anos? Isto realmente não tem limites e não me convence de que seja a solução . Nós, indígenas, conhecemos bem essa história. Durante séculos, nossos povos foram tratados como obstáculos à ordem e ao progresso. Quando resistimos à tomada de nossas terras, somos frequentemente apresentados como problema de segurança, e não como povos defendendo direitos e condições de existência. A barbárie não aparece apenas quando falta Estado. Ela também pode aparecer quando o Estado se faz presente, principalmente por meio da violência. Não são a mesma coisa, mas existe uma prisão comum.

Parente, quero deixar uma coisa clara. Não considero que Lula e Flávio Bolsonaro representem projetos idênticos. Existem diferenças importantes na maneira como tratam direitos sociais, democracia, meio ambiente, relações internacionais e proteção das populações vulneráveis. Essas diferenças possuem consequências concretas e não podem ser apagadas em nome de uma crítica geral ao capitalismo. Para quem vive ameaçado, a escolha de um governo pode alterar profundamente as condições imediatas de sobrevivência. Mas reconhecer essas diferenças não significa abandonar uma pergunta maior.

Por que projetos políticos tão distintos continuam presos à promessa de fazer a economia crescer? Por que o aumento do PIB permanece como uma espécie de medida universal de sucesso? 7Por que quase ninguém pergunta se precisamos continuar produzindo e consumindo quantidades crescentes de materiais e energia? A resposta é que a política moderna foi construída na sociedade da mercadoria. Ela pode disputar a distribuição de parte da riqueza e estabelecer limites à atividade econômica, mas encontra enormes dificuldades para colocar em questão a necessidade de valorização do capital.

O governo precisa da economia funcionando, mesmo quando o funcionamento dessa economia destrói territórios, amplia desigualdades e ameaça as condições naturais da vida.É essa prisão que precisamos enxergar.

Existe uma coisa que aprendi olhando para as contradições da sociedade em que vivemos. Produzimos uma quantidade imensa de alimentos e ainda existe fome. Construímos edifícios e ainda existem pessoas sem moradia. Desenvolvemos máquinas capazes de economizar trabalho e ainda existem milhões de pessoas desesperadas porque não conseguem vender sua força de trabalho. Isso acontece porque produzir coisas úteis e produzir valor não são a mesma coisa. Uma necessidade humana pode ser imensa, mas, se não existe dinheiro para pagá-la, o mercado pode simplesmente ignorá-la. Uma atividade pode ser socialmente destrutiva, mas, se gera ganhos financeiros, encontra condições para continuar.

Por isso, a economia da barbárie não é apenas uma economia em que existem pessoas corruptas. É uma situação em que a necessidade de ganhar dinheiro se afasta cada vez mais das necessidades concretas da vida. O dinheiro deixa de servir à sociedade e a sociedade passa a servir ao dinheiro. E, quando a valorização encontra dificuldades, aumenta a pressão para transformar em negócio aquilo que ainda permanece fora do mercado: terras comuns, serviços públicos, recursos naturais, conhecimentos e atividades de cuidado. A crise abre novas oportunidades de apropriação. É como se, após explorar o que estava disponível, o capital começasse a procurar alimento na própria casa. A Terra também está pagando a conta. Enquanto os candidatos discutiam quem seria mais capaz de governar, pensei na emergência planetária.

Os cientistas já reconhecem que ultrapassamos vários limites ecológicos fundamentais. Sabemos que a expansão permanente da produção material não pode continuar indefinidamente num planeta finito. Mesmo assim, quase toda promessa de desenvolvimento continua dependendo de mais crescimento, mais investimentos, mais circulação de mercadorias e maior exploração de recursos. O Lula, por exemplo, quer trazer para o Brasil o conjunto de data centers do mundo, sem se importar que isto vai agredir profundamente o nosso meio ambiente . No Brasil, isso possui uma expressão particularmente violenta.

A floresta é apresentada como riqueza porque contém madeira, minério, terra disponível ou possibilidades de negócio. O rio é valorizado pelo potencial de gerar energia ou abastecer atividades econômicas. O território indígena aparece, aos olhos de muitos grupos, como espaço que ainda não foi incorporado plenamente ao mercado. Mas a floresta não é um depósito de mercadorias esperando alguém abrir suas portas. O rio não existe para servir a um balanço financeiro.

Quando um território é destruído, não perdemos apenas um recurso econômico. Perdemos relações entre seres, histórias, conhecimentos, alimentos, águas e possibilidades de futuro. E essas perdas não podem ser recompostas simplesmente com dinheiro. O que os nossos territórios ainda ensinam? Não quero dizer que as aldeias indígenas possuem respostas prontas para todos os problemas do Brasil. Também enfrentamos dificuldades, desigualdades, conflitos e transformações que exigem reflexão. Mas carregamos experiências que ajudam a enxergar aquilo que a sociedade da mercadoria tornou quase invisível. Uma terra pode ser cuidada coletivamente sem precisar ser tratada como propriedade destinada à especulação. O alimento pode circular por relações de parentesco e reciprocidade. O conhecimento pode ser transmitido entre gerações sem que cada ensinamento se transforme numa mercadoria.

E cuidar de uma criança, de um velho, de uma nascente ou de uma roça não precisa ser considerado uma atividade menor porque não produz lucro. Essas experiências evidenciam que existem outras maneiras de organizar a reprodução da vida. Não precisamos transformar o passado num paraíso para reconhecer isso. Precisamos recuperar a capacidade de imaginar um futuro que não esteja inteiramente subordinado ao dinheiro.

Gostaria que alguém perguntasse como o Brasil pretende enfrentar a crise de uma sociedade que precisa crescer continuamente enquanto destrói suas próprias condições de existência. Gostaria de ouvir uma discussão séria sobre a apropriação privada da riqueza pública, sobre os grupos que se enriquecem nas proximidades do Estado e sobre as maneiras pelas quais a população acaba pagando pelas crises produzidas por interesses particulares. Gostaria que os candidatos explicassem como enfrentar o poder dos grandes grupos econômicos sem continuar dependendo deles para financiar investimentos e sustentar o crescimento. Gostaria também que discutissem como utilizar a tecnologia para reduzir o trabalho necessário, como garantir moradia e alimentação sem submeter tudo à rentabilidade e como reorganizar nossas cidades para que viver não signifique passar a maior parte do tempo trabalhando, viajando e pagando contas. E gostaria, principalmente, que alguém tivesse coragem de perguntar se o Brasil precisa continuar medindo seu futuro pela quantidade de dinheiro que consegue movimentar. Mas aquela conversa não aconteceu. Quando desliguei a televisão, fiquei algum tempo em silêncio. Lembrei da terra do sul da Bahia, dos caminhos da aldeia, do cheiro da mata depois da chuva e da maneira como os mais velhos falam de um território. Para eles, a terra não é apenas aquilo que está debaixo dos nossos pés. É também aquilo que nos sustenta, nos ensina e continuará recebendo nossos filhos quando já não estivermos aqui.

Pensei em como seria estranho organizar uma aldeia inteira para algumas pessoas poderem retirar dela toda a riqueza possível, mesmo sabendo que isso acabaria destruindo a água, a roça e a floresta. Mas é justamente essa lógica que se tornou normal na sociedade em que vivemos. A economia da barbárie aparece quando o enriquecimento de poucos passa a valer mais do que a continuidade da vida de muitos. Aparece quando a riqueza pública vira oportunidade privada, quando a crise se transforma em negócio e quando a política deixa de imaginar outro futuro para disputar quem administrará os restos do presente. Não acredito que seja suficiente trocar os administradores dessa engrenagem, embora as escolhas eleitorais continuem importantes para proteger direitos e impedir violências. O  Brasil não é pobre de vida. É um país que possui rios, florestas, terras férteis, conhecimentos, trabalhadores e uma diversidade extraordinária de povos e maneiras de existir. O que nos falta não é riqueza material para garantir uma vida digna. Falta construir relações sociais em que essa riqueza deixe de ser subordinada à obrigação de produzir mais dinheiro. O maior horror daquele debate para mim foi perceber que, diante de uma crise tão profunda, a política continua oferecendo principalmente a promessa de administrar melhor aquilo que já está nos destruindo. Mas não podemos entregar nosso futuro a essa pobreza de imaginação.

A Terra continua ensinando que nenhuma forma de vida sobrevive destruindo indefinidamente as condições da própria existência. O capitalismo parece ter esquecido essa lição. Nós não podemos esquecê-la. Porque um país que transforma sua riqueza comum em alimento para poucos e deixa sua própria terra adoecer não está construindo desenvolvimento. Está consumindo o seu futuro. Pensa nisso, parente.