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Ministério da Prosperidade. Prosperidade para quem?

Ministério da Prosperidade. Prosperidade para quem?

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Por Henrique Pinheiro  – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária”,   autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
 No último debate presidencial, ouvi uma proposta que me deixou intrigado. O candidato da direita anunciou a criação de um Ministério da Prosperidade.
 Confesso que, em um primeiro momento, não consegui compreender exatamente o que seria aquilo. Fui ao dicionário procurar o significado da palavra prosperidade.   Encontrei definições como riqueza, abundância, desenvolvimento, êxito e bem-estar. Todas muito bonitas. Mas continuei sem entender.
 Afinal, o que faria um Ministério da Prosperidade? E, principalmente, prosperidade para quem?
 Para os bancos, que apresentam lucros bilionários? Para os grandes proprietários de terras, beneficiados por décadas de incentivos públicos? Para os rentistas, que recebem juros extraordinários sobre a dívida pública? Ou para os milhões de brasileiros que trabalham, pagam impostos e mal conseguem sobreviver?
 O Brasil não é um país pobre. É um país profundamente desigual.
 Somos uma das maiores economias do mundo, uma potência agrícola, mineral e energética. Produzimos alimentos, exportamos commodities e movimentamos trilhões de reais. Mas continuamos incapazes de transformar toda essa riqueza em bem-estar para a maioria da população.
 A proposta, segundo o candidato, envolveria assistência social, qualificação profissional, microcrédito e empreendedorismo. Nada disso é necessariamente ruim. Mas qual seria a novidade?
 Já temos ministérios, bancos públicos, programas sociais e instituições responsáveis por essas atividades. O que falta não é necessariamente mais um ministério. Falta um projeto nacional de desenvolvimento.
 Há mais de sessenta anos, João Goulart defendia as Reformas de Base. Não prometia prosperidade por meio de uma nova estrutura burocrática. Propunha enfrentar os obstáculos históricos ao desenvolvimento brasileiro.
 Reforma agrária para democratizar o acesso à terra. Reforma tributária para distribuir melhor o peso dos impostos. Reforma bancária para ampliar o crédito produtivo. Reforma educacional para oferecer oportunidades à população.
 Era uma tentativa de modificar as estruturas que perpetuavam a concentração de renda e de poder. O projeto foi interrompido pelo golpe de 1964.
 Seis décadas depois, continuamos discutindo muitos dos mesmos problemas. Mudam os candidatos, os partidos, os slogans e as promessas. Mas as questões estruturais permanecem praticamente intocadas.
 Nossa classe média continua pressionada, milhões de famílias estão endividadas e o custo do dinheiro dificulta o investimento produtivo.
 Enquanto isso, os debates presidenciais parecem cada vez mais disputas de frases de efeito. O importante é produzir uma declaração capaz de repercutir nas redes sociais no dia seguinte. Projetos nacionais são complexos demais para caber em vídeos de trinta segundos.
 Prosperidade, entretanto, não se cria por decreto. Depende de educação de qualidade, saúde, infraestrutura, produtividade, empregos e salários dignos. Depende, sobretudo, de uma economia capaz de distribuir oportunidades e os frutos do crescimento.
 Nenhum país se desenvolve sustentavelmente mantendo grande parte de sua população à margem do progresso.
 Se bastasse criar ministérios com nomes bonitos para resolver nossos problemas, poderíamos instituir também o Ministério da Igualdade, o da Justiça Social e o da Felicidade. Talvez até o Ministério do Fim da Pobreza.
 Mas a história ensina que desenvolvimento exige muito mais do que criatividade na escolha dos nomes. Exige decisões políticas, planejamento, investimentos e enfrentamento de interesses consolidados.
 O Brasil não precisa de mais uma promessa de prosperidade. Precisa que a prosperidade deixe de ser privilégio de poucos e se transforme em oportunidade para muitos.
 Porque a pergunta fundamental continua sem resposta. Prosperidade para quem?